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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Memória Paroquial de Santa Maria de Gondar - Amarante


GONDAR EM 1758


A “Memória Paroquial de Gondar”, descrita pelo P.e António Coelho Pedroza, a 20 de Março de 1758, é, porventura, o mais importante documento para a história de Gondar, no século XVIII.
Transcrevemos alguns excertos desse valioso documento (manuscrito):

“Descriçom desta Freguezia de Sancta Maria de Gundar, feita pelo encomendado della António Coelho Pedroza, natural da Villa de Murça, desta Comarca de Villa Real.

1. He esta Freguezia da Província de Entre Douro e Minho, do Arcebispado de Braga Primaz, da Comarca de Villa Real, do Concelho de Gestaço.
2. Sua Magestade que Deos guarde he senhor della.
4. Está esta Freguezia situada entre montes com distância do Marão duas légoas e tão baixa que della se não descobre povoaçom alguma.
5. He esta Freguezia membro do Concelho de Gestaço.

Lugares
“Os povos de que se compõe o corpo desta Freguezia sam – Mosteiro, Aldea, Larim, Vau, Palmazões, Real, Curjeiras, Outeirinho, Rio, Villa Seca, Valinhas, Villela, Crispellos, Areas, Salida, Quintam”.

População
“Tem esta Freguezia, conforme o rol dos confessados que nella achei, duzentos e vinte fogos, pessoas de sacramento seiscentos e trinta e huma, menores sessenta e oito”.


Igreja do Mosteiro de Gondar - Amarante

Igreja do Mosteiro
“A Igreja desta Parochia esta em huma das bordas da Freguezia em hum dos povos della que lhe chamamos o Mosteyro, cuja dominaçom tomou por ser nos séculos passados de Religiosas Beneditinas, que consta por tradiçom fazer constar de muitos archivos.
Seu orago he de Sancta Maria de Gundar, tem três altares, o mor donde se conserva o Sacrário com o Santíssimo Sacramento, e dois colaterais, o da parte direita do santo Nome de Jezus, e da parte esquerda do Senhor Sam Sebastiam; tem huma Irmandade das Almas.
Nesta Parochia muito antigua há hum campanário com seus sinos de vox muito suave e sonora quando convidam os freguezes à palavra de Deos e a ouvir missa, mas triste e fúnebre quando os chama à sepultura. O mais piqueno conserva ainda hoje o seu timbre porque foi sempre pouco gasto; o maior foi bello contralto, mas hoje por quebrado ficou em tenor desentoado, mas nas festas sempre participa de sua glória quem os repica”.

Capelas
“Tem esta Freguesia sinco capellas, huma da Freguesia que ademenistra o Excelentíssimo Conde de Redondo como Comendador e senhor dos frutos desta comenda, cujo orago hé Santo Amaro, em cujo dia acorrem a sua capella muntos devotos das vizinhanças com suas esmolinhas.
No lugar de Ovelhinha tem huma capella muito moderna feita a expensas do Doutor Manuel Pereira Valente, natural desta Freguesia e assistente na cidade do Porto pella sua grande Literatura …
Tem outra no lugar da Salida com  invocaçom do senhor Santo António que mandou eregir o Padre  Gonçallo Nunes Pereira Valente, vigário de Sam Martinho de Carvalho de Rei.
No lugar de Vilella há duas capellas, huma a mais antiga seu orago Sam João Baptista de que hé adeministradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstomo que há poucos annos  mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho”.

Feiras
“Tem esta Freguesia três feiras no anno, aos dezassete de Novembro, de Setembro e Janeiro, que só consta de javalis mansos e algumas cousas comestíveis, e outra do mesmo no dia do senhor Santo Amaro, a quinze de Janeiro, e todas francas”.

Geografia
“Toda esta Freguezia he composta de bosques, penhascos, outeiros, ribanceiras e arvoredos frutíferos, de espinho e silvestres...

Rio / Pesca
"O rio... hé rico em trutas excelentes, algumas de suficiente grandeza, bellos escalos, estupendas bogas e peixinhos...
Não tem pesqueira particular, hé comum todo o anno, e por isso percorrido por vários pescadores de chumbeira, redes de arco, tresmalhas e barredouras".

Moinhos e outros engenhos
“Tem vários moinhos alveiros (trigo) e broeiros (milho), nenhum lagar de azeite, nem pizão, nem nora, nem outro algum engenho...

Estradas
“Por esta freguesia passa uma estrada do nascente ao poente, tão povoada de passageiros pedestres e equestres que com eles se comunicam não só o nosso Reino, mas também toda a Castela Velha e nessa com todas as suas Províncias, Reinos e cidades, mas também a França, a Itália, a Palestina ou Roma”.

Pontes
“Tem nesta freguesia uma ponte que chamam de Larim, de cantaria, terá de comprido um tiro de mosquete, tem quatro arcos, da parte superior tem três cortamares com que se defende nas enchentes; na inferior três baluartes...

Data e assinatura do documento

Notas: Os títulos a negrito são acrescentos da minha responsabilidade.
Mantivemos a ortografia do documento.
Miguel Moreira

segunda-feira, 23 de março de 2020

Mortos, em Gondar, na II Invasão Francesa


RELAÇÃO DOS MORTOS, EM GONDAR, NA II INVASÃO FRANCESA

Após vários dias de ocupação da cidade de Amarante, onde cometeram as maiores atrocidades, as tropas napoleónicas conseguem transpôr a ponte de S. Gonçalo, a dois de Maio de 1809.
Depois,  a fim de garantir uma possível retirada do exército francês para Espanha através das Beiras, tentam controlar toda a margem esquerda do Tâmega, nomeadamente a estratégica estrada pombalina que, pelo Cavalinho, conduzia a Mesão Frio e à Régua. É neste contexto que as tropas francesas, comandadas pelo sanguinário Loison, conhecido por “Maneta”, aterrorizam as populações, atacando-as, incendiando as suas casas, pilhando os seus haveres e matando todos os que se opunham às pilhagens.
Gondar foi das freguesias mais sacrificadas.
Segundo os registos paroquiais da época, só em Gondar, registam-se 27 óbitos. Os mortos foram tantos que 24 dos defuntos tiveram de ser sepultados nos campos, pois o cemitério (na Igreja Paroquial do Mosteiro) não tinha capacidade para todos. Só nos lugares de Ovelhinha e Real, os mais sacrificados, houve 9 mortos, um terço do total.

Ruínas da II invasão francesa em Ovelhinha - Gondar
Era, à época, Reitor de Santa Maria de Gondar, o padre Manoel Guedes de Carvalho que registou o Termo dos óbitos que passo a transcrever:

“Termo de declaração dos falecidos nesta freguezia de Santa Maria de Gondar pella invasão dos Franceses de dois de Maio do anno de mil oito centos e nove atté sua expulsão.
Aqui se acham sepultados pelos campos e montes da minha freguezia, mortos pellos franceses.

Freguezes desta freguezia

Lugar d’Aldea

Manoel Nunes do Soco, sepultado dentro da Igreja pela piedade de Joaquina Nunes e Manoel Pereira do lugar do Mosteiro.

Mosteiro

Maria Lourenço, viúva, sepultada dentro da Igreja pelos mesmos acima.
Domingos de Freitas, sepultado dentro da Igreja pelos mesmos acima.

Areas

João Teixeira, solteiro, sepultado no campo.
Manoel José, viúvo, da Sahida, sepultado no campo.

Quintam

Manoel de Sousa, solteiro, sepultado no campo.
Manoel José, homem de Izabel Alves, sepultado no campo.

Vilella

José Caetano, homem de Maria Josefa, sepultado no campo.
Manoel Alves, viúvo, sepultado no campo.

Villa Seca

Manoel Carvalho, homem d’Anna Monteiro, sepultado no campo.
Maria Vieira, mulher solteira, sepultada no campo.

Rio

Manoel Ribeiro de Magalhães, viúvo, sepultado no campo.
José Pereira, solteiro, sepultado no campo.
José da Motta, homem de Maria Josefa, sepultado no campo.

Outeirinho

Manoel Luís Leite, solteiro, sepultado no campo.

Corujeiras

José Pereira, solteiro, sepultado no campo.
António Luís Leite, homem de Maria Pereira, sepultado no campo.

Real

Manoel Guedes d’Oliveira, solteiro, sepultado no campo.
Manoel Taveira, solteiro, sepultado no campo.
José Taveira Bastardo, homem de Anna Monteiro, sepultado no campo.
João Pereira, homem d’Anna Pinheiro, sepultado no campo.
Anna teixeira, mulher de Daniel Pereira, sepultada no campo.

Ovelhinha

João Pereira Cardoso, homem d’Anna Cardoso, sepultado no campo.
Pedro Nogueira, homem de Maria Josefa, sepultado no campo.
Francisco Ribeiro, homem d’Anna Pinto, sepultado no campo.
Manoel d’Abreu, homem d’Anna Pereira, sepultado no campo.

Larim

Manoel José e sua mulher Maria Luiza, ambos sepultados no campo.

E para constar dos falecimentos dos meos freguezes (...) fiz este Termo aos vinte e sinco dias do mez de Maio do anno de mil oito centos e nove.

O R.or Manoel Guedes de Carvalho



Uma pesquisa de Miguel Moreira
para “Mem Gundar” e "Sentir Gondar"

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Ovelhinha e a II Invasão Francesa


GONDAR E A II INVASÃO FRANCESA (1809)


Ao completarem-se duzentos e dez anos sobre a vil destruição que as tropas francesas infligiram sobre as populações de Gondar, nomeadamente de Ovelhinha e Real, achei oportuno publicar um excerto da obra “ Viagem Sentimental à Província do Minho”, de Frei Tomás de Santa Teresa, escrita em agosto / setembro de 1809, poucos meses após a ocorrência dos factos.
 
Ruínas da II Invasão Francesa em Ovelhinha - Gondar
“O texto que agora se publica teve a primeira edição em 1809, ou seja, poucos meses após os acontecimentos a que se refere. Eram, por isso, ainda muito frescas as cicatrizes deixadas pela ocupação do exército napoleónico em muitas terras do norte do país. Este relato é o resultado de uma visita que o autor fez a várias localidades onde pôde testemunhar a destruição e o sofrimento espalhados por todo o lado. “ (excerto da Nota Explicativa à reedição fac-similada da obra)

CAPITULO III
Estragos das Povoações de Santa Maria de Gondar, 
Ovelha, Ovelhinha, Gateães, Real e Padornello

“Quando passei pela Freguezia de Santa Maria de Gondar, que chorava ainda a tyranna morte de trinta e cinco dos seus Habitantes, occoreo-me a passagem de Virgilio:
... Luctus, ubique pavor, et plurima mortis imago.
Ovelhinha foi toda reduzida a cinzas. Real foi tratada semelhantemente. Encheria grossos volumes quem pretendesse esmiuçar os damnos causados à População, e à indústria das citadas Freguezias.
Já próximo da Villa de Amarante eu notei que se augmentava descompassadamente o pezo dos meus funestos presentimentos. A certeza dos estragos, que padecêra aquella desditosa, mas fidelissima Povoação, era mais que de sobejo para os inspirar, e entreter. Notei igualmente que a imaginação do que eu em breve presenciaria, me causava maior susto, e pavor, do que todas as desgraças, que até então eu resgistara com os meus propriosn olhos. Não tardou muito que, justificada esta minha aprehensão, eu taxasse de pouca força aquelles mesmos presentimentos, que me parecião tão vivos, e exaggerados. (...)

Vila de Amarante
Paço dos Condes do Redondo - Amarante (à direita na imagem)

Entrando immediatamente no Covello, que he menos hum Arrabalde, do que huma parte daquella Villa... eu vi...oxalá que eu podesse agora contar o que vi, e senti nesta occasião!!! Vi consumida pelo fogo huma rua inteira, que he quasi o total desta Povoação.
Algumas casas, que ficavão para os lados não forão isentas do fogo. A destruição foi geral. Dos seus malfadados Habitantes, huns se occupavão no desentulho das suas casas, outros lhe cobrião os tectos de colmo, outros mais querião ficar expostos à inclemência dos tempos, do que sujeitarem-se ao risco de serem esmagados por aquellas paredes alluidas, e mal seguras; e todos, em fim, cortarião o coração menos sensível, e menos affeito a chorar os males do seu proximo.” (1)

Nota: O texto é uma transcrição fiel do original, sem qualquer adaptação à grafia atual.


(1)- Frei Tomás de Santa Teresa, Viagem Sentimental à Província do Minho em Agosto e Setembro de 1809, edição Fac-similada do Grupo dos Amigos da BMMA, pp. 10, 11 e 12.

quarta-feira, 6 de março de 2019


GONDAR NO “ARCHIVO HISTÓRICO de PORTUGAL” (1890)


Em Setembro de 1889 iniciava-se a publicação do “Archivo Historico” - Narrativa da fundação das cidades e villas do Reino, seus brazões d’armas, etc, obra que, segundo os seus promotores, seria “útil a todos os cidadãos que desejem avaliar as glórias do payz e apreciar as causas do seu engrandecimento e decadência; que por ella ficam sabendo desde quando existe cada concelho, as tradições que os acompanham, as origens dos nominativos que as distinguem, e outros factos curiosos e interessantes, como batalhas dadas nessas localidades, monumentos, etc.”
Com destaque para o Mosteiro Beneditino e para a linhagem dos Gundares, a freguesia de Gondar mereceu nessa obra um honroso lugar.
É, precisamente, a parte do documento respeitante a Gondar, publicado em Janeiro de 1890, no n.º 25, 1.ª Série do “Archivo Histórico, que, hoje, vamos transcrever para os nossos leitores:

“Gondar teve um antigo convento de freiras benedictinas, do qual era igreja a actual matriz da freguezia. Ali iam aos “capitulos” as freiras de dois conventos, pois nesses tempos ainda não havia clausura.
No século XVI passou ao poder de comendatarios.

Igreja do Mosteiro Beneditino de Gondar

Foi solar dos Gondares, procedentes de Mem Gondar, e dos Mottas, descendentes de um nobre fidalgo asturiano, que veio para Portugal com o conde D. Henrique, pae de D. Afonso Henriques. O primeiro que se acha com este appelido é Ruy Gomes de Gondar da Motta, em tempo de D. Affonso II. Tomou-o de sua quinta da Motta, onde teve o solar na freguezia de Villa Chã de Marão.


Brasão d'Armas dos Mottas
Esta família usa o brazão d’armas seguinte: em campo verde, cinco flores de liz d’ouro, em aspa; elmo d’aço, aberto, e por timbre, duas plumas verdes, guarnecidas d’ouro, e entre ellas, uma das flores de liz das armas.
Os que descendem do dr. Jeronymo da Motta, formado em direito na Universidade de Sena (Italia) e escrivão da camara de D. João III, do seu desembargo, e juiz da real fazenda, augmentaram as suas armas, por outhorga do mesmo rei, do modo seguinte: escudo esquartellado no 1.º e 4.º quartel, de purpura, leão de prata coroado de ouro; no 2.º e 3.º, as armas dos Mottas, que ficam descriptas. Elmo d’aço aberto; timbre, meio leão das armas.”

Fonte para consulta:


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Centro Cívico e Paroquial de Gondar



Durante largos séculos, o lugar do Mosteiro, com o seu cenóbio de freiras bentas e respetiva igreja, foi o centro religioso e cívico de Gondar. Porém, a partir de 1885, com a inauguração do novo cemitério da freguesia, Gondar começa a adquirir uma nova centralidade.



Centro Cívico e Paroquial de Gondar

Até 1904, data em que foram concluídas as obras da atual igreja, a igreja paroquial continuou a ser a velha igreja românica do extinto mosteiro, secularizada em 1455, por ordem do bispo D. Fernando Guerra. Todavia, antes da inauguração da nova igreja, já muitos dos atos religiosos  se realizavam na chamada “igreja do cemitério”, que corresponde à capela-mor da atual igreja, ou na capela de Santo Amaro, em Ovelhinha, com uma localização mais central.



Centro Cívico e Paroquial de Gondar


Junta de Freguesia de Gondar - Amarante

Assim, paulatinamente, Gondar vai adquirindo uma nova centralidade. Primeiro, com a construção do cemitério e da nova igreja paroquial; mais tarde, com a construção do Centro Pastoral, nos anos 60 do século passado, das instalações da Junta de Freguesia, em 1982, e, mais recentemente, do Centro Cívico.



Centro Paroquial de Gondar - Amarante


Centro Cívico de Gondar - Amarante

Embora não dispondo de uma praça que lhe daria outra dignidade e visibilidade, o atual Centro Cívico e Paroquial, com boas acessibilidades e uma localização central na freguesia, orgulha todos os gondarenses e não o minimiza em nada perante os seus congéneres das freguesias vizinhas.

Miguel Moreira 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

BATALHA DO MARANCINHO 
(12 de Maio de 1809)

Foi a 12 de Maio de 1809 que, após dez dias de saques, mortes e destruições (só em Ovelhinha fala-se em 35 mortos e muitas casas incendiadas), levadas a cabo pelos franceses em toda a margem esquerda do Tâmega, as forças portuguesas, comandadas pelo brigadeiro Silveira, desencadearam um feroz ataque sobre as tropas napoleónicas que é descrito, desta forma, por Carlos Azeredo:

in "Invasão do Norte - 1809", de Carlos Azeredo, pág. 83

“Durante toda a manhã deste dia 12, o Brigadeiro Silveira esperou que, pelo itinerário de Mesão Frio e dos Padrões, avançassem as forças de Bacelar ou de Beresford, para caírem em conjunto sobre o inimigo em Moure.
Pela 1 hora da tarde, lançou Silveira um ataque orientado sobre três eixos: o da esquerda, procurando tornear pelo sul a posição do adversário, seguia a direcção geral de Ansiães ao Cavalinho e Palmazões; o do centro, comandado pelo seu irmão o Coronel António da Silveira, seguia a direcção geral de Ovelha, Marancinho e Forno da Telha; o do norte, ou da direita, comandado pelo próprio Silveira, seguia a direcção de Gavião, Alto da Mó e Lufrei.
Foi sobretudo a coluna do norte a que encontrou a resistência mais encarniçada do inimigo nas proximidades de Vila Chã, no vale do ribeiro do Marancinho de onde os franceses foram combatendo e retirando até ao Barreiro (...).
O local deste renhido combate ainda hoje é localmente conhecido pelo “Vale dos Franceses” e distinguiu-se aqui o Capitão de cavalaria, Francisco Teixeira Lobo, que com 80 praças carregou sobre uma força inimiga muito superior, a qual retirou após dura refrega.” (1)

E sobre os destroços da batalha escreveu um autor da época:
“...  o inimigo teve tantos mortos e feridos que dali até Gateães se viram e observaram rastos de sangue; deixaram muitas espingardas; ... ficaram três cavalos mortos; e, no outro dia, em Gateães um montão de ossos de cadáveres queimados e se acharam, dizem, dúzias de sapatos com pés dentro ainda de alguns cadáveres queimados...”. (2)

A batalha do Marancinho foi decisiva para que os franceses abandonassem definitivamente Amarante, depois de terem causado tanta desgraça, mortes e destruições.

Ovelhinha - Gondar (Ruínas da Invasão Francesa)
Placa Comemorativa no Lugar de Rua - Aboadela

(1)- Azeredo, Carlos de, “Aqui Não Passaram!”, Civilização Editora, 2005, pág. 232.

(2)- P. F. De A. C. De M, “História Antiga e Moderna da Sempre Leal e Antiquíssima Villa de Amarante”, Edição do Autor, 1814, pág. 254.
Miguel Moreira

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OS PILOUCOS DA PONTE DE VILELA

Sabe de onde vieram estes piloucos?


Igreja de São Gonçalo de Amarante (finais do séc. XIX)

Pois, estes piloucos têm mais de um século e, como podemos confirmar pela fotografia de Frederick William Flower (finais do sé. XIX), estiveram frente à Igreja de S. Gonçalo, criando um espaço entre a Igreja e o Largo (adro), onde existiam bancos em pedra para as pessoas se sentarem enquanto esperavam pelas cerimónias religiosas.


Ponte de Vilela (Gondar - Amarante)

Com o arranjo do Largo, estes piloucos foram retirados e, como estava em construção o lanço de estrada entre Vilela e Vila Seca, foram aproveitados para colocar na guarda da ponte de Vilela. Para que tal acontecesse, foi determinante a influência do Dr. Álvaro Pereira Teixeira de Vasconcelos, que habitava a casa do Encontro, em Vila Seca, e que pertencia à família dos Pascoaes. Foi também a ele que se deveu a construção deste lanço de estrada.
Alguns dos piloucos já caíram, mas, uma vez que o tabuleiro da ponte vai ser alargado, era bom que, os poucos que restam, dado o seu valor histórico-cultural, fossem lá conservados, ou devidamente protegidos noutro local da freguesia.

Miguel Moreira

sábado, 10 de setembro de 2016

O PAÇO DE D. LOBA EM TERRAS DE GUNDAR

Desconhecemos a localização do paço de Mem Gundar, pois ignoramos a existência de quaisquer vestígios físicos da construção ou documentos escritos que o refiram.
O mesmo não acontece em relação à sua filha D. Loba Mendes. Sabemos que casou com Diogo Bravo de Riba de Minho e que teve como sua residência o Paço, com o seu nome, em Mormilheiro ou “Mor Milheiro” (topónimo de origem galaico-portuguesa, alusivo à cultura do milho), em terras de Gundar. Uma obra de 1739 sobre a vida e obra de S. Gonçalo diz o seguinte: “ Outro dia se fue Gonzalo à casa de una señora, llamada Doña Loba, en el Lugar de Gundar” (1). Por outro lado, nas Inquirições de 1220 (D. Afonso II) Padronelo ainda não era freguesia, sendo referido apenas em função da ermida aí existente (Ermida de S.to André)(2). Daqui se depreende que o Paço de Dona Loba se localizava em Gundar e não em Padronelo e que o território sob o domínio de Mem Gundar ia muito além dos limites da atual freguesia de Gondar. 


Paço de D. Loba (Fachadas norte e poente)

Paço de D. Loba (entrada principal)

Classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 95/78, de 12-09-1978, o Paço de Dona Loba é uma construção medieval (séc. XII) de gosto românico. Trata-se de uma construção em silharia de granito, com planta retangular de razoáveis dimensões. Do edifício, em ruínas, resta apenas o piso térreo, mostrando uma única abertura constituída por uma larga porta em arco abatido. A construção implanta-se de encontro à encosta, dominando um amplo vale, em socalcos, ao longo do rio Mendes (esta designação poderá derivar do sobrenome “Mendes”).
Trata-se de uma obra de arquitetura civil (Paço), mas que, considerando a sua localização, a época em que foi construída, a linhagem dos Gundares (cavaleiros) e o topónimo “Lugar daTorre”, poderia ter também funções militares. No entanto, considerando as ruínas existentes e o tipo de porta, semelhante a outros “Paços” da mesma época, trata-se de uma residência senhorial, ou seja, é mais um símbolo do poder senhorial sobre o território do que uma construção militar.



Paço de D. Loba (interir do edifício)

O que resta da construção, ainda que em avançado estado de ruína, permite-nos conjeturar sobre a estrutura do edifício. Pela dimensão do piso existente e a robustez das suas paredes, este teria vários pisos e alguma imponência. No interior pode ainda observar-se mísulas salientes que constituíam os apoios dos vigamentos do segundo piso ou, porventura mais certo, de três arcos que elevariam o pé-alto do primeiro e sustentavam o segundo piso. Poderia ainda existir um terceiro piso que, certamente, seria rodeado de ameias no topo. Craesbeeck refere que o paço "mostra ser de dous sobrados", isto é, dois andares acima do piso térreo. As mísulas exteriores serviriam para apoiar balcões bem ao gosto medieval. O acesso interior aos diferentes pisos era, normalmente, feito por escadas em madeira, daí não existirem vestígios de escadas no piso térreo.
(1)- Lardazar, Fr. Manuel, Compêndio de la Vida del Glorioso S. Gonzalo de Amarante, 1739.
(2)- Machado, Maria de Fátima, A Região do Tâmega no séc. XIII, I Congresso Histórico de Amarante, 1998.
Miguel Moreira

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

OVIEDO: TERRA NATAL DE MEM GUNDAR

A vinda de Mem Gundar para Portugal só pode ser entendida no contexto da Reconquista Cristã da Península Ibérica após a ocupação árabe. Esta inicia-se com a batalha de Covadonga, em 722, onde, apesar da superioridade numérica do exército muçulmano, os asturianos, refugiados na “cueva” de Covadonga e nas colinas sobranceiras á garganta que ali se forma, se lançaram sobre eles, dizimando grande parte do seu exército. O herói desta batalha é Dom Pelayo, depois proclamado rei e fundador do reino das Astúrias, com capital, primeiro, em Cangas de Onís e, depois, em Oviedo.
Nos finais do século XI, com o avanço da Reconquista para sul e uma cada vez maior ameaça almorávida, D. Afonso VI pede ajuda aos cavaleiros franceses que, ouvindo o seu apelo, partem em seu auxílio. Entre estes, vêm Henrique de Borgonha e seu primo Raimundo. Como recompensa, D. Afonso VI casa Dom Henrique com a sua filha D. Teresa e dá-lhe, como dote, o governo do Condado Portucalense (1096).
É neste contexto que alguns cavaleiros asturianos e leoneses acompanham D. Henrique, a quem é entregue a defesa e o governo das terras reconquistadas, mas também o seu povoamento e cristianização. Entre estes, está Dom Mem Gundar, nascido em Oviedo.


Gruta de Covadonga (Picos da Europa)

Cangas de Oniz - (ponte romana)

Catedral de Oviedo - "Câmara Santa"

As imagens que apresentamos reportam-se à época em que viveu Mem Gundar: Covadonga, local da batalha com o mesmo nome e que marca o início da Reconquista cristã da Península Ibérica; Cangas de Onís, primeira capital das Astúrias, com a sua ponte romana; catedral de Oviedo, que, embora posterior, já em estilo gótico, conserva na sua Camara Santa alguns ícones da Reconquista como “La cruz de la Victória”, atualmente, o símbolo das Astúrias.
Miguel Moreira

terça-feira, 23 de agosto de 2016

GONDAR: freguesia do concelho de Gestaço

Gondar foi freguesia do concelho de Gestaço até à sua integração no atual concelho de Amarante, em 1836, no âmbito da reforma administrativa então efetuada. 


O concelho de Gestaço confinava, a poente, com o de Gouveia, a nascente, com a honra de Ovelha do Marão e era delimitado, a norte, pelo rio Tâmega. A ponte do Arquinho, posta a descoberto aquando das recentes obras de requalificação deste espaço, ligava as sedes dos dois concelhos (Gouveia e Gestaço). Era aqui que se localizavam as respectivas casas de Câmara, os pelourinhos e as cadeias: na margem direita da ribeira, as de Gestaço e, na margem esquerda, as de Gouveia.
Nas Inquirições de D. Afonso II (1220) apenas faziam parte de Santa Maria de Gestaço: Aboadela, Bustelo, Candemil, Carneiro, Gondar, Lufrei, Padronelo, Sanche, Várzea e Vila Chã. No entanto, Aboadela, ou Santa Maria de Bobadela (que incluía Canadelo), constituía a “Honra de Ovelha do Marão”, tendo recebido o seu primeiro foral em 1196.
Em 1258 (Inquirições de D. Afonso III) já são mencionadas as freguesias de Ansiães (esta, em 1220, era apenas um lugar da freguesia de Aboadela) e Santa Maria de Jazente. As freguesias de Carvalho de Rei e Madalena são de criação posterior (apenas sabemos que, em 1258, havia no lugar do Covelo um mosteiro chamado de Santa Maria Madalena, que deve ter estado na origem do nome desta freguesia).


Gestaço (ou Agrestaço) recebeu o seu foral em 1514, concedido por D. Manuel I (Forais Novos). Dele falaremos na próxima publicação.

Na “Corografia Portuguesa” do P. António Carvalho da Costa, de 1706, documento que hoje publicamos, são mencionadas as treze freguesias que, na época, constituíam o concelho de Gestaço. Nele, Santa Maria de Gundar merece especial destaque, sendo mencionada em primeiro lugar.
A eventualidade de Ovelhinha ter sido sede do concelho de Gestaço, com a respetiva casa de Câmara, não tem qualquer fundamento, uma vez que, até hoje, não foram encontradas provas documentais que o confirmem. Em nosso entender, confundiram Ovelhinha com Ovelha do Marão que, na verdade, foi concelho e teve Casa da Câmara. Em 1758, nas “Memórias Paroquiais”, Santa Maria Madalena, aqui designada também por “Cabeceiras de Gestaço”, aparece, ainda, como sede de concelho. Diz-se: “tem juiz ordinário, dois vereadores e procurador e escrivão da câmara…”.
Miguel Moreira