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domingo, 17 de outubro de 2021

O Engenho do Linho da Feitoria (Amarante)

 

Uma das mais nobres e raras matérias primas na confeção de vestuário e outras peças de uso doméstico era o linho.

Até à confeção do tecido, o linho percorria um longo caminho que, só por si, tornava este produto caro e exíguo e que, por isso, possuí-lo era privilégio apenas de alguns. As peças de linho (colchas, lençóis, toalhas, camisas...) eram utilizadas apenas em dias festivos ou momentos especiais e, habitualmente, faziam parte do enxoval que as mães ofereciam às noivas suas filhas.

Do longo ciclo do linho, falamos, hoje, da sua moagem.

Depois de colhido e ripado para lhe extrair as sementes ou linhaça, o linho era macerado através da curtimenta que consistia em submergir-lo em poças de água, onde permanecia imerso durante 8 a 10 dias. Esta operação era indispensável para se poder obter a separação dos elementos fibrosos (têxteis) dos lenhosos.

Retirado da água, era posto a secar durante cerca de 15 dias. Só depois é que se procedia à sua moagem ou maçagem, assunto desta publicação.

Azenhas da Feitoria (à direita o engenho do linho)

Em que consistia e como era feita a moagem ou maçagem do linho?

Esta operação consistia em fraturar a parte lenhosa da planta de forma a facilitar a separação entre a componente lenhosa e as fibras têxteis.

Outrora era feita através da malha com mangual, um trabalho duro que, com o tempo, passou a ser feita em engenhos movidos por tracção animal, ou a água como o que a imagem documenta.

Moagem do linho (Feitoria - Amarante)

O da imagem fazia parte de um conjunto de azenhas na Feitoria, em Amarante, e movia-se por uma roda vertical movida pelas águas do Tâmega, desviadas através de um caneiro ou gola. Era constituído por um sólido cilindro ou tambor rotativo com a superfície periférica cortada por caneluras transversais, onde engrenavam uma série de roletes, também canelados, dispostos à sua volta. O linho era fraturado ao passar entre o tambor e os roletes, libertando assim as fibras de muitas das suas componentes lenhosas. Os banhistas queixavam-se da comichão provocada pelas arestas libertadas pela moagem e que iam rio abaixo. De salientar, também, que estes engenhos tinham apenas uma cobertura, sendo abertos dos lados para que o vento espalhasse as arestas libertadas, tão incómodas para as pessoas.

A moagem era sazonal, feita nos meses de verão, altura em que o linho, depois de macerado e bem seco, estava em condições de ser moído. Também os meses de verão, fora do período das cheias, eram os mais aptos para que no rio Tâmega fossem montados estes engenhos de maçar. Para acautelar as máquinas, estas poderiam depois ser desmontadas e guardadas durante o inverno.

Para além do engenho da Feitoria, nas imagens, há notícia de outros instalados nas margens do Tâmega. Em meados do século vinte, licenciados pela Direcção de Hidráulica do Douro, existiam engenhos de maçar na Granja (Rebordelo), em Varões (Gatão), Frariz (Lufrei) e em Gondeiro (Salvador do Monte). Existiu também um junto das Azenhas da Varziela (Amarante). (1) E segundo o inquérito realizado, em 1855, pela Junta Geral do Distrito do Porto, existiam no município de Amarante treze engenhos de maçar o linho tocados a água e dezassete utilizando força animal. (2)

Engenho do linho (Feitoria - Amarante)

Em ruínas, as azenhas da Feitoria estão votadas ao mais completo abandono. A cultura do linho passou a estar submetida à grande indústria e a sua moagem a ser feita em moinhos acionados a electricidade ou motores de combustão, caindo  em desuso os antigos processos de moagem em moinhos hidráulicos.

(1)- Abrantes, Joaquim Roque, Património etnográfico afectado pela barragem do Torrão, Lisboa, 1985, p. 121.

(2)- Relatório da Junta Geral do Distrito do Porto, 1855, Porto, 1856.

Miguel Moreira

Outras imagens das Azenhas da Feitoria

(o engenho do linho à direita, nas imagens)







domingo, 26 de setembro de 2021

A VINDIMA

 

Vindima é sinónimo de festa e alegria. Não porque o trabalho seja leve, mas porque associado ao vinho que é, em si, fonte de prazer e alegria.

Já na Grécia antiga, o deus da vinha e do vinho, Dionísio, era um deus alegre e divertido e, na civilização romana, as “Bacanais”, festas em honra do deus Baco, eram festas com exagerado consumo de vinho e muitos excessos.

A vindima fazia-se com recurso a familiares, amigos e vizinhos que, por sua vez, contavam com os mesmos, numa calendarização onde não podia haver sobreposições. Porém, hoje em dia, com o plantio de grandes vinhas e a produção mais orientada para a comercialização, a vindima insere-se numa atividade empresarial e a mão de obra passou a ser, essencialmente, assalariada e não por recurso a vizinhos e amigos. Assim, a vindima perdeu, em parte, aquele ambiente de convívio e de festa que, antigamente, possuía.

Vindima - foto de Eduardo Teixeira Pinto

Há meio século atrás e com a predominânicia da vinha de “enforcado”, a vindima fazia-se com grandes escadas que homens, fortes e musculados, encostavam às árvores e subiam para ir colher as uvas lá nas alturas, como tão bem nos retrata o fotógrafo Eduardo Teixeira Pinto. “Uvas”! gritavam eles para chamar as cesteiras que lhes despejavam as cestas sem terem de descer as escadas. Outros gritavam “olh’ó traseiro” para que o último se despachasse.

O patrão, esse distribuía cigarros e, com uma abonada “cabaça”, que passava de mão em mão, ia dando de beber aos trabalhadores. A meio da manhã, surgia a patroa, de açafate à cabeça, para saciar os vindimadores com uma merenda farta, onde não faltava o salpicão, o presunto ou o bacalhau frito. Comia-se de pé que não havia tempo a perder, pois o dia fazia-se curto para o muito que havia a fazer.

Pisa das Uvas - foto de Eduardo Teixeira Pinto

No final do dia vinha o lagar. Aí, nas cerca de duas horas de pisa, a festa mantinha-se com cantares populares acompanhados, quase sempre, ao toque da concertina ou do realejo.

E, como diz o ditado, “até ao lavar dos cestos” é vindima. 

Nota: as fotografias que apresentamos, mais uma vez, são do exímio fotógrafo amarantino Eduardo Teixeira Pinto que, como poucos, soube retratar o quotidiano das gentes da sua/nossa terra.

 Miguel Moreira (texto)

Eduardo Teixeira Pinto (fotografias)



Vindimadores sobem grandes escadas de madeira
para colher as uvas no topo das árvores


Vindimadores, no cimo das escadas, com as cestas
penduradas pelos cambitos


Mulheres cesteiras aguardam que os vindimadores 
lhes entreguem as cestas cheias para as despejar
em cestos de madeira


A tarefa de colher as uvas cabia sobretudo aos homens


No final da vindima, homens e crianças, alegremente, 
pisavam as uvas, durante cerca de duas horas, no lagar de pedra.
Na imagem também podemos ver duas prensas que serviam
para espremer o bagaço após a tira do vinho.


Fotografias de Eduardo Teixeira Pinto






domingo, 11 de abril de 2021

Moinho do Outeirinho - Gondar

 

É de nós sobejamente conhecida a importância que a indústria moageira teve em Gondar. Já, em 1758, a Memória Paroquial de Gondar, descrita pelo P.e António Coelho Pedroza, referia que Gondar tinha "vários moinhos alveiros (de trigo) e broeiros (de milho). (1)

Aproveitando os recursos hídricos que lhe eram oferecidos pelos rios Ovelha e Carneiro que, nascendo nas encostas do Marão e com caudais generosos, atravessam a freguesia, construíram-se nas suas margens mais de uma dezena de moinhos, uns para uso privado, outros para fins industriais. Os do Salto, os das Sumidas, da Saída e os do Tojal, no rio Ovelha, e os do Outeirinho e da Ovelhinha, no rio Carneiro, contam-se entre os mais importantes.


Moinho do Outeirinho - Gondar


Com um passado de mais de duzentos anos, o do Outeirinho, no rio Carneiro, é, sem dúvida, dos mais antigos da freguesia.

Um documento de 1830, “Livro de Registo dos Fogos e Moradores no Distrito da 2.ª Companhia das Ordenanças de Gestaço”, já nos dá conta de um moleiro no lugar do Outeirinho. Já o “Recenseamento dos Mancebos para o Recrutamento Militar”,  entre 1870 e 1880, regista dois moleiros do mesmo lugar. E em 1882, no “Recenseamento Eleitoral do Concelho de Amarante”, na distribuição de famílias por profissão, há o registo de um moleiro no lugar do Outeirinho, bem como, dois lavradores, um oleiro, um pedreiro, dois proprietários e um cantoneiro.

Propriedade do sr. Arnaldo Pereira Nogueira, por herança de Madalena Pereira da Costa, em meados do século passado, os moinhos do Outeirinho foram explorados, durante mais de trinta anos, pelo sr. Alfredo Nogueira, o “ti Alfredo do Moinho”, até à década de sessenta do século passado. Com duas mós, uma para milho e outra para trigo, os moinhos foram o sustento da sua família, com os seus dois filhos. Porém, com os filhos a seguirem outras profissões, os moinhos ficaram abandonados, até porque a indústria da moagem, feita por moinhos de rodízio, deixou de ser rentável, não conseguindo competir com os novos moinhos movidos a electricidade, mais produtivos e necessitando de menos mão de obra.

Recentemente, o seu atual proprietário, Miguel Moreira, procedeu a obras de reparação das coberturas,  consolidação das paredes e colocação de novas portadas, conservando, todavia, as estruturas originais e a maior parte das peças indispensáveis ao funcionamento do moinho.


Moinho do Outeirinho - Gondar


De referir que o moinho pode ser visitado por quem o desejar fazer, bastando, para o efeito, contactar os seus proprietários. Também, e porque localizado num aprazível local, à beira rio e com uma pequena praia fluvial, tem servido para convívios familiares e de amigos, como ponto de passagem de percursos pedestres e para outros eventos. Todavia, segundo o seu proprietário, o desejável seria a recuperação total dos moinhos e a sua colocação em funcionamento, proporcionando, assim, visitas de estudo a alunos das escolas e ao público em geral.

segunda-feira, 25 de março de 2019

A Vessada


A “VESSADA”


Estamos na época das "vessadas".
Sabe o que é a “vessada”?
O termo, de origem latina (verso are), significa remexer, lavrar (a terra). Na época medieval, tanto podia significar a “porção de terra que poderia manter ou sustentar um vassalo”, como “o serviço que se fazia ao senhor da terra, ou geira”. Nas Inquirições Reais, o termo encontra-se com frequência, significando, a maior parte das vezes, uma determinada porção de terra arável e fértil.
O Dicionário da Língua Portuguesa define vessada como “terra fértil e regadia” ou, ainda, como “terra que se lavra num dia, com uma junta de bois, antes da semeadura”. Em Gondar, há meio século atrás, era este o significado.

Vessada (fotografia de Eduardo Teixeira Pinto)

Sendo um trabalho colectivo, exigindo uma ou mais juntas de gado, que a maioria das casas não possuía, a lavoura, ou vessada, tomava um carácter especial, quase festivo, em que vizinhos e amigos participavam com o seu trabalho e o seu gado, sem outra remuneração além da refeição melhorada e da certeza da reciprocidade.
As vessadas faziam-se na Primavera, pelos meses de Março e Abril. Uns dias antes,
Fotografia de Eduardo Teixeira Pinto
cortavam-se os fenos, faziam-se as "bordas" e estrumavam-se os campos. Rogavam-se as pessoas e marcava-se  o dia.
No dia marcado, bem cedinho, começavam a chegar os trabalhadores e, depois do “mata bicho” com broa e aguardente, iniciava-se a “lavoira”. O lavrador, agarrado ao arado, comandava os trabalhos. Por ser um trabalho mais leve, o gado era guiado por um “moço” ou mulher. E as pacatas vaquinhas, uma pelo rego, outra pelo restolho, iam e vinham, puxando o arado de ferro, aproveitando todas as pausas para remoer a última erva.
Pelo meio dia, chegava a patroa com um açafate coberto com uma toalha de linho. Era hora da pausa par retemperar energias. Acocorados uns, outros sentados, cada um agarrava com suas mãos calejadas uma fatia de broa de milho, esperando a sua vez para pegar um pedaço de toucinho ou de bacalhau e encher o prato de arroz. Entretanto a cabaça do vinho ia passando de mão em mão.
Merenda comida regressava-se ao trabalho, que só terminava quando o sol se punha.
Cansados, e depois uma boa malga de caldo, os trabalhadores regressavam a suas casas. Porém, pouco era o descanso, pois, outras vessadas tinham de se feitas até que todos os campos da aldeia fossem lavrados e semeados.
Não era fácil a vida nesse tempo, mas alegria era coisa que não faltava.

Miguel Moreira (texto)
Eduardo Teixeira Pinto (fotografia)

terça-feira, 25 de abril de 2017

MEMORIAL AOS COMBATENTES EM GONDAR

Em dia de comemoração da “revolução dos cravos” (25 de Abril) faz todo o sentido lembrar todos os gondarenses que, ao serviço de um regime fascista e colonialista, lutaram e, alguns deles, perderam a vida na Guerra do Ultramar (Guiné, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor...).

Memorial aos Combatentes (Gondar - Amarante)

De acordo com o Portal UTW, site dos “Veteranos da Guerra do Ultramar”, faleceram em combate os gondarenses:
- 1.º Cabo Victorino de Magalhães Cunha, natural de Crespelos – Gondar, morto em combate, em Angola, no dia 9/12/1966;
- sold. Álvaro Coelho Pinto, natural de Vilela – Gondar, morto em combate, em Moçambique, no dia 3/8/1971;
- sold. Manuel Augusto Monteiro Ferreira, natural da Tapada – Gondar, morto em combate, em Angola, no dia 29/3/1971.
A revolução de 25 de Abril de 1974 pôs fim a esta guerra, iniciada no norte de Angola, em 15 de Março de 1961, e abriu caminho ao processo de descolonização.
A população de Gondar, num memorial, simples mas digno, em forma de G, que se encontra ao fundo do cemitério da freguesia, prestou a merecida homenagem a todos os gondarenses que combateram nesta guerra injusta e inglória.

Miguel Moreira

Notícia da morte do 1.º cabo Victorino de Magalhães Cunha, natural de Crespelos - Gondar: a 09Dez1966, na região fronteiriça noroeste de Angola, um pelotão da CArt1411 – a 9 meses do final da comissão e encontrando-se colocado naquele subsector desde há 15 dias –, aquando em escolta a MVL oriundo de Noqui e no regresso ao seu aquartelamento no Cabeço de Tope, tendo saído do Cabeça da Velha (sede da CArt1412 onde havia feito pausa para almoço), percorridos cerca de 2km foi alvo de emboscada lançada por cerca de 70 terroristas da FNLA, que às NT causaram 17 mortos, entre os quais Victorino de Magalhães Cunha.


in Portal UTW "Veteranos da Guerra do Ultramar".

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

“CANTAR OS REIS” JÁ NÃO É O QUE ERA

O ciclo do Natal fecha-se, segundo a tradição católica, a 6 de Janeiro, com a celebração do “dia de Reis”.

"Adoração dos Reis Magos"

Integrada nesta celebração, em Gondar, como na maioria das terras vizinhas, era tradição “cantar os Reis”. Assim, no dia ou na véspera de Reis, pela noite fora, grupos de amigos juntavam-se e iam “cantar os reis”. Não de porta em porta, como hoje se faz, mas apenas a casas que, por alguma razão, o justificavam: familiares, amigos, pessoas “gratas” da terra... Eu, com um grupo de amigos, gostava de cantar os reis e fazia-o todos os anos. Não íamos a muitas casas (duas ou três, não mais, por dia). Em silêncio, juntávamo-nos em círculo à porta da cozinha ou da sala e entoávamos os versos que, muitas vezes no próprio dia, tínhamos ensaiado: duas ou três quadras relativas ao “Menino Jesus” e aos “Reis Magos”, um refrão (Boas Festas, Boas Festas / Cantamos com alegria / Em honra do Deus Menino / Filho da Virgem Maria), e, depois, uma quadra dedicada a cada membro da família.
Não pedíamos dinheiro, mas o “dono” da casa, em sinal de amizade e gratidão, mandava-nos entrar, alargava-se a roda à volta da lareira (e que bem nos sabia naquelas noites gélidas de Janeiro!), tirava do sarilho um ou dois salpicões que partia em finas rodelas, ia à adega e trazia algumas canecas de vinho novo e, enquanto saboreávamos o gostoso paio e o saboroso tinto que se bebia pela caneca que passava de mão em mão, passávamos algumas horas em alegre cavaqueira. Depois, vestidos os agasalhos, partíamos para o próximo presenteado. E lá iniciávamos, novamente, o canto:
"Aqui vimos, aqui estamos
Aqui vimos, bem sabeis
Vimos dar as Boas Festas
E também cantar os Reis".
Quando a noite já ia longa regressávamos a casa, pois, no dia seguinte, havia mais.
Esta tradição adulterou-se completamente. Hoje, cantam-se “Os Reis” ou “As Janeiras”, mas como forma de peditório. Os cantadores correm a maior parte das casas da aldeia com o objetivo de otimizar a receita. E o ritual não se limita ao dia de Reis, mas prolonga-se por todo o mês de Janeiro, daí a expressão “cantar os Reis” ter sido substituída por “cantar as Janeiras”, uma expressão com uma carga menos religiosa.
Compreendo as necessidades financeiras das Instituições, mas o verdadeiro “espírito de Reis” foi-se! É pena.Restam as memórias!

Miguel Moreira

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Memorial aos antepassados de Gondar

EM MEMÓRIA DOS ANTEPASSADOS DE GONDAR

Num jazigo que se encontra no cemitério de Gondar pode ler-se: “Aqui jazem os restos mortais das gerações passadas desta terra que durante sete séculos se haviam sepultado no antigo mosteiro. Estas ossadas foram trazidas e encerradas aqui no dia 20 de Março de 1932. Paz às suas almas. Uma prece... leitor... vê que me pertences ainda.”

Jazigo (Cemitério de Gondar - Amarante)

Acontece que, até ao séc. XIX, era costume sepultar os defuntos nas igrejas (no adro e até no seu interior). Gondar não era excepção e fazia-o no adro da Igreja do Mosteiro. Na Idade Média, o seu interior terá sido também o panteão dos Gundares e das madres superiores do mosteiro, como se deduz dos túmulos aí encontrados.
Por razões de saúde pública, um decreto de 1835, mandou que se construíssem cemitérios públicos em todo o país e que estes se deveriam situar fora dos limites das povoações. Poucas foram as terras que, por escassez de recursos, cumpriram esta deterninação. Porém, um novo decreto do Governo de Costa Cabral, conhecido como “Lei da Saúde Pública” e publicado em 28 de Setembro de 1844, proibiu os enterros nas igrejas (no adro e no seu interior). Assim, por todo o país foram construídos cemitério públicos, em campo aberto e afastados das povoações.

Jazigo (Cemitério de Gondar - Amarante)

Em Gondar, o primeiro enterramento no cemitério público data de 10 de Maio de 1885. Trata-se de Maria Rita do lugar das Chãnzinhas, de 56 anos de idade, casada com António Guedes e mãe de 7 filhos. Era, ao tempo, Reitor de Gondar o P.e Luís António Teixeira.
Mais tarde, sendo pároco de Gondar o P.e Gastão da Costa e Sousa, foi construído um jazigo ao fundo do cemitério e, em 20 de Março de 1932, foram para lá transladadas as ossadas recolhidas no adro da igreja do Mosteiro.
Assim, podemos afirmar que nesta campa repousa algo que é comum a todos os gondarenses: a memória dos nossos antepassados.

Miguel Moreira (texto e fotografia)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A MINHA ESCOLA

Mesmo encerrada, esta será sempre a minha escola, a nossa escola, a escola de todos os que por lá passaram.


Escola de Vila Seca - Gondar
Já lá vão muitos anos. Passei, ao longo da vida, por várias escolas, mas esta, a de Vila Seca, é a única que trato por “minha”. Tive o privilégio de a inaugurar, no final dos anos cinquenta. Lembro-me do primeiro dia de aulas, dos meus professores, dos meus colegas, das brincadeiras de criança, das “traquinices”, da palmatória (que, felizmente, nunca experimentei). Lembro-me do crucifixo e das fotografias de Salazar, Craveiro Lopes e, depois, Américo Thomaz - figuras que olhávamos como pessoas temidas e poderosas. Enfim,tempos da ditadura...
Lembro-me do passeio final como se tivesse sido ontem: castelo de Guimarães, citânia de Briteiros, Bom Jesus de Braga...
A entrada na escola primária era o nosso primeiro ato de emancipação: abandonávamos o aconchego do lar e a protecção paternal  para começarmos a aprender a viver em sociedade, a defendermo-nos, a criar a nossa própria identidade, a sermos mais autónomos e responsáveis.
A escola de Vila Seca, vi-a construir e inaugurei-a no meu primeiro ano (1.ª classe). Por essa altura chegou, também, a luz elétrica a Gondar e, com ela, a rádio e a televisão (esta, de início, privilégio de muito poucos). Era a “civilização” que chegava.
Da mesma época e da mesma tipologia é a escola das Chedas / Crespelos.


Escola de Ovelhinha - Gondar
Mais antiga, a escola de Ovelhinha. Uma escola do “tipo” Adães Bermudes, como muitas outras que existem por esse Portugal fora. Era uma escola com uma arquitetura muito bonita e com residência para a professora. Desfiguraram-na, nos anos oitenta, com o acrescento de mais uma sala construída por cima da original. Há coisas que não se pensam ou são mal pensadas. Esta foi uma delas.


Pormenor da Escola de Ovelhinha - Gondar

Por favor, preservem as “nossas” escolas. Dêem-lhes vida. Elas fazem parte do nosso património, do imaginário de muitas gerações.

Miguel Moreira

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

GONDAR FESTEJA SANTO AMARO

Hoje, 15 de Janeiro, é dia de Santo Amaro.
Cumprindo uma secular tradição, os gondarenses e, em particular, a população de Ovelhinha festeja no próximo fim-de-semana, dias 16 e 17 de Janeiro, Santo Amaro. Com missa e procissão em honra do santo e muita animação, os festejos decorrem na capela que lhe é dedicada no lugar de Ovelhinha e no amplo terreiro que ladeia o pequeno templo.
Longe vão os tempos em que o largo se apinhava de gente que fazia desta festa, que se realizava no "domingo gordo", uma espécie de Carnaval antecipado. Misturando o sagrado com o profano, os romeiros divertiam-se com jogos carnavalescos em que os "poses" e os jogos de água entre rapazes e raparigas eram o prato forte. Claro que não faltava a pipa do vinho, esquiçado no dia e vendido à caneca, os rosquilhos, as cavacas e o afamado biscoito da Teixeira.
Quanto à música, utilizava-se a prata da casa: uma concertina e dois cantadores faziam a festa e animavam o baile.
Outros tempos, outras gentes, outras tradições... mas a festa continua e isso é bom.
Viva Santo Amaro!
Capela de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)

Altar de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)

Uma notícia do Jornal Flor do Tâmega n.º 2088 (ano 41) sobre a festa de Santo Amaro anuncia o seguinte: "Festa de santo Amaro - no próximo Domingo, 16 do corrente. Realiza-se no lugar da Ovelhinha, da freguesia de Gondar, a festividade ao milagreiro Santo Amaro que constará de missa cantada às 10 horas, sermão, procissão e arraial e missa cantada. A procissão é oferta do Sr Albano Moreira, do lugar de Vila Seca.". Fica aqui este registo como elemento para a história do culto a Santo Amaro.
Registo, ainda, que o sr Albano Moreira, que ofereceu a procissão, era meu avô paterno. 
Miguel Moreira

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

LARGO DA MINHA INFÂNCIA

Largo da Barroca (Vilela - Gondar)
Largo da minha infância
recanto do imaginário
disco duro da memória
mil folhas
do meu diário.

Ainda hoje lá passei

e as lembranças
as de sempre
uma bola de trapos velhos
pés doridos, descalços
e o Austin do senhor tenente.

Lembro-me

da água fresca da fonte
da cascata de São João
do Zezinho da Barroca
que tinha bicicleta
e eu não.

Da mãe da Vítor 

que gritava
"rasga-me as calças que vais ver!"
e da minha
que não tardava
e, quando as dava, era a doer.


Miguel Moreira