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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES, em Vila Seca - Gondar

 

Uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, existente no Arquivo Distrital de Braga e datada de 8/1/1788, “para se benzer a Capela da Senhora das Dores, da freguesia de Santa Maria de Gondar, no lugar do Rio, da dita freguesia”(1) e uma outra provisão “para se colocar confessionário na capela de Nossa Senhora das Dores, freguesia de Gondar, a favor do Padre António José Pereira de Carvalho, do lugar do Rio, da dita freguesia, da comarca de Vila Real”, em 27/12/1787,(2) são documentos bem esclarecedores sobre as datas e a pessoa que mandou construir a capela de Nossa Senhora das Dores, no lugar de Vila Seca.

Porém, já com data de 3/7/1785, existe no Arquivo Distrital de Braga um documento da Mitra Arquiepiscopal de uma “Sentença cível de justificação de património da capela de Nossa Senhora das Dores, a favor do Padre António José Pereira de Carvalho, da freguesia de Santa Maria de Gondar.”(3) Assim, podemos concluir, a partir dos documentos referidos, que a capela já estaria pronta em 1785 e apenas foi benzida em 1788.

Capela de N.ª S.ª das Dores, Vila Seca - Gondar

Nascido no lugar do Rio a 11 de Janeiro de 1742, o Padre António José Pereira de Carvalho era filho de José Fernandes Carvalho e de Ana Pereira Abreu e teve como padrinhos de batismo João Brochado e sua irmã Maria, filhos de Francisco Brochado e Brizida Pereira da Casa da Barroca em Vilela. Foi ordenado padre em 1773 (4) e faleceu, no lugar das Moutas, a 8 de Janeiro de 1812.

Também, datado de 1789, existe no Arquivo Distrital de Braga uma “Demissoria a favor do Padre António José Pereira de Carvalho… por tempo de três anos”(5).

Em 1826, a propriedade na qual a capela se insere, é adquirida pela Casa de Pascoaes. Portanto, 14 anos após a morte do clérigo que a mandou construir.

Mais tarde, Álvaro Pereira Teixeira de Vasconcelos, irmão mais novo do poeta Teixeira de Pascoaes, vai viver para a quinta de Vila Seca que herdou por morte de seu pai, João Pereira Teixeira de Vasconcelos. Sabemos que Álvaro Pereira realizou grandes obras na casa principal e, porventura, também na capela, pois as escadas exteriores que dão acesso ao coro alto não parecem fazer parte da construção original.

A capela, também conhecida por “capela do Encontro”, encontra-se erigida a uma boa centena de metros da casa principal, voltada para o vale do rio Carneiro e com uma soberba paisagem a seus pés. Defronte e lá bem no alto, avista-se a capela de uma outra “senhora”: Nossa Senhora do Castelo, em Carvalho de Rei.

De construção muito simples, a capela ostenta no retábulo do seu único altar uma expressiva imagem de Nossa Senhora das Dores com sete espadas apontadas ao coração, lembrando as sete dores sofridas pela mãe de Cristo: a profecia de Simeão; a fuga da sagrada família para o Egipto; o desaparecimento do menino Jesus; o encontro de Maria e Jesus a caminho do Calvário; Maria observando o sofrimento e morte de Jesus na cruz; Maria recebendo o corpo do filho retirado da cruz; e Maria a observar o filho a ser sepultado no Santo Sepulcro.

Mais uma capela de Gondar a merecer uma visita, até porque se encontra lado a lado com o Museu Rural do Marão que reúne um bom número de utensílios e artefactos, memórias das atividades agrícola e artesanal das comunidades locais.

Registos de Batismo e de Óbito do Padre António José Pereira de Carvalho


 Miguel Moreira

(4)- Segundo uma “Inquirição de genere” da Mitra Arquiepiscopal de Braga, no ano de 1773. As “inquirições de genere” eram processos necessários para a ordenação dos párocos e consistiam na inquirição de testemunhas para comprovar a filiação e provar a condição de "cristão velho". 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Capela de S. Tiago - Lufrei Amarante

 

A relevância que as peregrinações a Santiago de Compostela assumiram no contexto europeu e, de modo especial, na Península Ibérica, fez com que ao longo dos “caminhos” surgissem inúmeras igrejas e capelas dedicadas ao culto a S. Tiago.

S. Tiago - Lufrei, Amarante
Amarante que, na época romana, terá sido atravessada por uma via que, partindo de Bracara Augusta, seguia para Trás-os-Montes através do Marão, conservou e aprofundou esta sua vocação viária a que não foi alheia a construção/reconstrução da ponte sobre o Tâmega sob os auspícios de S. Gonçalo. Paulatinamente, Amarante ganhava importância no contexto regional, importância que foi consolidada com a construção da Igreja e Mosteiro de S. Gonçalo, no século XVI, e as peregrinações ao santo, oriundas de vários pontos do norte do país.

Dito isto, não é de estranhar que Amarante surja como ponto de passagem quase obrigatória dos peregrinos que, oriundos do Alto Douro e das Beiras, se dirigiam a Santiago de Compostela. Aliás, as peregrinações a S. Gonçalo e a Santiago têem muito de comum. Neste contexto, a existência, em Amarante, de duas Albergarias, construídas no séc. XII, uma na margem direita (rua da Ordem?) e outra na margem esquerda do rio (Albergaria do Covêlo), indiciam o crescente aumento de peregrinos e a necessidade de lhes conceder o devido apoio.

Voltando ao tema desta publicação, a existência em Lufrei de uma pequena capela dedicada a S. Tiago insere-se no âmbito do desenvolvimento do culto ao santo do mesmo nome. Recorde-se que a “estrada” que ligava Amarante a Trás-os-Montes passava por este lugar, a caminho do Marancinho e Ovelha do Marão. A capela de S. Tiago, existente na Igreja de S. Gonçalo de Amarante, insere-se, igualmente, neste contexto.

Quanto à capela de S. Tiago, em Lufrei, ela não vem referida nas Memórias Paroquiais, de 1758, mas Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, em “Memórias Ressuscitadas de Entre Douro e Minho”, 1726, refere o seguinte: “Tem esta igreja (Lufrei) 4 capellas filliaes, a saber: São Salvador do Monte...; São Miguel o Anjo ...; Nossa Senhora dos Praseres...; São Tiago, no lugar deste Sancto: capellinha pequena, que desce por escadas para baixo” (1). Esta é, aliás, uma das poucas referências escritas sobre o assunto. Da capela não restam quaisquer vestígios a não ser a imagem do santo que se conserva na atual Igreja Paroquial. No local, entretanto, foram construídas umas “alminhas”, datadas de 1842.

(1)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, “Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho”, vol. II, pág. 59.

Miguel Moreira

domingo, 20 de março de 2022

Capela de Nossa Senhora de Moreira (Ansiães)

 No coração da serra do Marão, num dos seus sítios mais bonitos e aprazíveis, encontramos a capela de Nossa Senhora de Moreira, na freguesia de Ansiães.

Nossa Senhora de Moreira (Ansiães)


De tradição muito antiga, o culto a Nossa Senhora de Moreira já vem referido nas Memórias Paroquiais de 1758, nestes termos: “ no dia da ascensão do Senhor, vêm com cruzes e clamor grande concurso de gente à capela de Santo António, onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Moreira, que antes existia numa capela no alto da serra do Marão, no sítio de Moreira, mas que se acha arruinada e cuja imagem foi transladada para a dita capela.”

Desconhecemos a data da construção da primeira capela mas, segundo as Memórias Paroquiais de 1758, ela ficou arruinada 40 anos antes, isto é, por volta de 1718. Podemos assim concluir que seria uma construção do séc. XVII. Já quanto à sua reedificação, sabemos que aconteceu nos primeiros meses de 1783, pois que, no Arquivo Distrital de Braga, se encontra uma provisão, da Mitra Arquiepiscopal de Braga, “de licença para se reedificar a capela de Nossa Senhora de Moreira, da freguesia de São Paio de Anciaes, a favor dos moradores da dita freguesia”. Este documento data de 4/01/1783. Também no mesmo Arquivo, e com data de 19/05/1783, se encontra outra “Provisão de licença para se benzer a Capela de Nossa Senhora de Moreira, da freguesia de São Pelágio de Anciaes, a favor dos moradores da dita freguesia, da comarca de Vila Real.” Assim sendo, a reconstrução da capela ocorreu entre Janeiro e Maio de 1783.

Capela de N. S.ra de Moreira (Ansiães)

A Comissão de Festas de Nossa Senhora de Moreira, eleita por mandatos de um ano, é responsável pela organização das festas que se realizam no 2.º Domingo de Agosto. Duram três dias, com muita animação, música e jogos populares. No principal dia de festa, domingo, o andor de Nossa Senhora da Lameira sai em procissão da capela de Santo António e é levado em ombros, por um ancestral caminho de montanha, até ao cimo do monte Moreira, à capela da Santa. Aí, há missa solene em honra de Nossa Senhora e, cumpridas as promessas, ao fim da tarde, o andor regressa à capela de origem, no lugar do Eido, onde permanece até à festa do ano seguinte.


Andor de Nossa Senhora a caminho da capela de Moreira

De referir, ainda, que a capela da Senhora de Moreira se situa num dos mais deslumbrantes miradouros da serra do Marão. Com horizontes a perder de vista, podemos observar, encravadas na montanha, aldeias vizinhas, como Murgido e Póvoa, e, lá bem longe, as freguesias de Bustelo e Carvalho de Rei, esta já na serra da Aboboreira. De salientar, ainda, que, desta capela, avistamos, em redor, outras ermidas marianas como a da S.ra  de Corvachã, a da S.ra da Serra e a da S.ra do Castelo.

Para apoio aos romeiros, existe, bem perto do monte Moreira, um agradável e bem cuidado parque, o Parque da Lameira e, não muito longe, a Pousada Turística de S. Gonçalo.

Miguel Moreira (texto)

Fotografias de Rodrigo Oliveira (Águas Turvas)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Capela e Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira (Baião)

No coração da serra da Aboboreira, num dos seus pontos mais elevados e com vistas privilegiadas para o vale do rio Ovil, encontramos a capela de Nossa Senhora da Guia.

Capela de Nossa Senhora da Guia - Aboboreira

Segundo uma lenda que remonta aos anos 70 do século passado, um pastor de Baião terá avistado, por diversas vezes, no local onde se encontra a capela, a imagem de Nossa Senhora. Esta suposta aparição tornou-se assunto das conversas entre os populares e as peregrinações ao local sucederam-se, havendo até relatos de supostos milagres. Por tal motivo, acabou por ser construída, neste local da serra, uma capela com evocação de Nossa Senhora da Guia. No local, conserva-se, ainda, o penedo onde, supostamente, ocorreram as aparições.

Em cada ano, no primeiro domingo de agosto, centenas de peregrinos das freguesias vizinhas dos concelhos de Baião e Amarante, acorrem ao local para honrar Nossa Senhora. Num dia de muita alegria e convívio, os romeiros, depois de participar na missa campal e cumprir as suas promessas, espalham-se pelos montes em redor, estendem as mantas e toalhas e partilham os seus farnéis com os familiares e amigos. Fazem-se jogos tradicionais e ouve-se música popular.

Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira

No local, merece ainda destaque um miradouro natural, enquadrado por dois cruzeiros, de onde se alcança um vasto e impressionante horizonte, avistando-se todo o vale do rio Ovil, desde Loivos do Monte e São João de Ovil até Campelo.

O acesso a este miradouro permite aos romeiros visitar algumas aldeias tradicionais, muito bem conservadas, tais como Almofrela, Currais, Eido e Telões. No trajeto, por caminhos de montanha, alguns monumentos megalíticos (antas e mamoas), no campo arqueológico da Aboboreira, merecem também uma enriquecedora visita.

Miguel Moreira (texto)

Fotografia de Rota do Românico

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Capela de Nossa Senhora da Conceição (Aboadela)


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
Lugar de Rua – Aboadela

Mandada construir por Baltazar Gonçalves e sua esposa, Ana André, no ano de 1639, a Capela de Nossa Senhora da Conceição situa-se a meio da rua de Ovelha e Honra do Marão, em Aboadela. O facto de a Igreja Paroquial se situar na parte alta da freguesia, e porque, durante o inverno, naquela região do Marão o clima era demasiado rigoroso para os fiéis que teriam de subir a íngreme encosta até à Igreja, terão sido as razões para a sua construção. Desta maneira, os fiéis podiam participar nos actos litúrgicos num local mais próximo e central, para além de ser, certamente, o lugar mais populoso da freguesia. Nesta capela que, segundo Craesbeeck, apesar de pequena era "a melhor que há na dita honra", era celebrada missa quotidianamente.

Capela de N. S.ra da Conceição (1.º plano à esquerda), em Aboadela
Obedecendo aos cânones renascentistas, a capela exibe, sobre a ampla porta de entrada, um arco de volta plena, com remate em empena da respetiva fachada e apresentando as fachadas laterais remate em cornija. De notar, também, a qualidade, de fino grão, do granito utilizado e o seu esmerado talhe.
De planta retangular e de uma só nave, a capela prima pela sua simplicidade e harmonia, bem ao gosto renascentista. No interior, onde se acede por dois degraus, encontravam-se, segundo Craesbeeck, três campas "com letreiros que disem: huma = de Baltesar Gonçalves; outra = de Anna Andre; outra = de Gaspar Ramalho".
De notar, ainda, que o ano da sua construção, 1639, aproxima-se da data em que foi construído o cruzeiro à entrada da ponte, 1630, o que me parece não ter sido mera coincidência.
Em 1726, Craesbeeck refere-se a esta capela num texto que, pelo seu interesse, passo a transcrever: "A capella de Nossa Senhora da Conceipção he pequena, mas he a melhor que há na dita honra. Está junto às casas de Manoel Teixeira Botelho e há nella missa quotidiana, porque a instituiu e mandou fazer com a dita obrigação Balthesar Gonçalves e sua mulher Anna Andre, no anno de 1639, como consta de hum letreiro deficultoso de ler, que está sobre a porta della, no arco de pedra, na forma seguinte:
ESTA. CAPELLA. MANDOU. FAZER. BALTHEZAR. / G(ONÇA)L(V)E(S). E SUA. MOLHER. ANA. ANDRE. CO(M). MI(S)A. C(U)OTIDIANA. / 1639." (1)
Também a "Memória Paroquial" de Ovelha do Marão, redigida, em 1758, pelo Padre Alexandre Pinto da Silva, refere esta capela, aqui designada como "Ermida da Senhora da Conceição" e pertencente a Manuel António de Sousa.
Na posse de particulares, a capela, encontra-se, atualmente, desafeta do culto litúrgico e convertida em armazém agrícola. Louvo, no entanto, o facto de a fachada principal se encontrar bem conservada e o proprietário ter mantido a porta principal em madeira, condizente com a importância do imóvel.

(1)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, "Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho No Ano de 1726", Ed. Carvalhos de Basto, vol.II, pág. 312-313.

Para mais informação: https://pt.wikipedia.org/wiki/Aboadela
Miguel Moreira

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Santo Amaro de Ovelhinha

SANTO AMARO DE OVELHINHA


Cronologia: séc. XVIII
Material: madeira policromada
Descrição: imagem masculina de vulto pleno.

Santo Amaro de Ovelhinha - Gondar
Figura de pé, em posição frontal, assente sobre base marmoreada de formato hexagonal.
O braço direito flete e ergue-se à altura do peito, estando o braço esquerdo igualmente fletido. Segura com a mão esquerda uma cruz.
Pé esquerdo ligeiramente avançado.
Corte em tonsura apresentando cabelo castanho e longas barbas da mesma cor.
Veste hábito negro em finas e ritmadas pregas até aos pés, sobreposto por manto com capuz, apertado no peito e nas mangas por botões dourados. Igualmente dourada a faixa que debrua o manto e o capuz.
Especial destaque ao tratamento das mangas que se alongam até à altura dos joelhos.
Na base, a legenda S.to Amaro.
Localização: Capela de Santo Amaro, no lugar de Ovelhinha, Gondar.

História e vida de Santo Amaro: Festejado a 15 de Janeiro, Santo Amaro - também chamado de Mauro - nasceu em Roma no século VI. De origem patrícia, era filho do senador romano Eutichio.
Com apenas doze anos de idade sai de Roma para o Monte Cassino, trazido por seus pais que, o entregam aos cuidados de São Bento, fundador da Ordem Beneditina, para que ali termine a sua formação. Verificando-lhe elevadas qualidades, corresponde de tal modo às expectativas do seu mestre, que se torna o seu homem de confiança e em pouco espaço de tempo, vai sendo encarado pelos outros religiosos como um exemplo a seguir. São Bento em reconhecimento dessas virtudes, escolhe-o para trabalhar na escola de jovens, anexa ao mosteiro de Monte Cassino.
São Gregório exaltou-o por se ter distinguido no amor, na oração e no silêncio, e que, a exemplo de São Pedro, foi recompensado pela sua obediência andando sobre as águas. Conta-se que certa vez um colega seu, de nome Plácido, estava a afogar-se longe de todos, no açude de Subiaco. São Bento teve a visão do perigo e pediu a Amaro que fosse salvar o irmão religioso: “Irmão Amaro, vai depressa procurar Plácido, que está prestes a afogar-se”. Obediente, Amaro pediu a São Bento que o abençoasse e, sem hesitar e com a graça de Deus, correu e andou sobre as águas sem se afundar, agarrou Plácido pelos cabelos e trouxe-o para a margem não se apercebendo sequer, Amaro, de ter saído de terra firme. Quando Amaro deu conta do que sucedera atribuiu os méritos ao seu mestre, São Bento. Teve portanto mais fé do que São Pedro que, por duvidar, se afundou nas águas do mar de Tiberíades.
Reconhecido o valor de Amaro, que cumpria tão bem o ideal da Ordem (dos beneditinos), o Patriarca dos monges incumbiu-o de importante missão: difundir na Gália (França) a Regra de São Bento, o que ele executou nos primeiros vinte anos do século VII.
Com alguma naturalidade, foi sendo encarado como o herdeiro espiritual de São Bento e seu eventual sucessor. Segundo uma tradição, foi mesmo Amaro quem ficou a substituir São Bento quando este foi viver para o Monte Cassino. A ele é atribuída a abertura da Ordem beneditina em França e a fundação do mosteiro de Granfeuil (Saint-Maur-sur-Loire). 
Faleceu em 584.
Miguel Moreira

domingo, 21 de julho de 2019

Capela de São João Crisóstomo

CAPELA DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

(VILELA – GONDAR)


Em 1758, a “Memória Paroquial de Gondar”, num relatório assinado pelo P.e António Coelho Pedroza, referia que "no lugar de Vilella há duas capellas, huma, a mais antiga, seu orago Sam João Baptista de que hé administradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstimo que há poucos annos mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho.” (1)
Todos os gondarenses sabem da existência da capela de São João Batista, da casa da Barroca, a que já nos referimos, mais que uma vez, neste blogue. Porém, creio que poucos saberão que existiu, no mesmo lugar de Vilela, outra capela, cujo orago era São João Crisóstomo.

Vilela - Localização da Capela de S. João Crisóstomo
Datada de 31/05/1752, uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, que se conserva no Arquivo Distrital de Braga, concedeu uma “licença para a feitura de capela com a invocacao de Sao Joao Crisostomo, novamente erigida, a favor do Padre Joao Pereira Sobrinho, da freguesia de Santa Maria de Gondar, comarca de Vila Real”.(2) Este importante documento para além de referir o seu patrono, São João Crisóstomo, refere também a pessoa que a mandou erigir, o Padre João Pereira Sobrinho. No documento diz-se, ainda, que a capela foi “novamente erigida”, o que pressupõe ter existido outra anterior a esta. De qualquer forma, esta nova capela, mandada erigir pelo P.e João Pereira Sobrinho, foi construída entre os anos de 1752, data da provisão da Mitra, e 1758, data da “Memória Paroquial”, que a dá como já existente.
A capela faria parte da Casa do Covêlo, uma habitação e quinta de dimensões consideráveis, que lhe fica mesmo em frente, do outro lado do caminho público.
Nasci muito próximo desta capela e, nos anos 50 do século passado, esta já não estava ao serviço do culto. Era um espaço para arrecadação de produtos e alfaias agrícolas. Lamentável é que, mais tarde, sobre as paredes da capela tenham construído um palheiro que desfigurou, por completo, este exemplar da memória e do património dos Gondarenses.


São João Crisóstomo
Nasceu em Antioquia, cerca do ano 349. Depois de ter recebido uma excelente educação, dedicou-se à vida ascética; e, tendo sido ordenado sacerdote, consagrou-se, com grande fruto, ao ministério da pregação. Eleito bispo de Constantinopla no ano 397, revelou grande zelo e competência nesse cargo pastoral, atendendo em particular à reforma dos costumes, tanto do clero como dos fiéis. A oposição da corte imperial e de outros inimigos pessoais levou-o por duas vezes ao exílio. Perseguido por tantas tribulações, morreu em Comana (Ponto, Ásia Menor) no dia 14 de Setembro do ano 407. A sua notável diligência e competência na arte de falar e escrever, para expor a doutrina católica e formar os fiéis na vida cristã, mereceu lhe o apelativo de Crisóstomo, «boca de ouro».

(1)- P.e António Coelho Pedroza in “Memórias Paroquiais de Gondar”, 1758.


Miguel Moreira

quarta-feira, 8 de maio de 2019


Pintura Mural na Igreja do Mosteiro

de Santa Maria de Gondar


Foi Armando de Mattos quem pela primeira vez divulgou as pinturas de Gondar, apesar do avançado estado de ruína em que o edifício se encontrava já. Corria o ano de 1953 e este autor publicou uma série de fotografias realizadas alguns anos antes dessa data. 

Pintura Mural - Igreja Românica de Santa Maria de Gondar

"Durante muito tempo sujeitas às intempéries, delas nada mais sobreviveu até hoje além da pintura do intradorso do nicho da parede fundeira da abside. Foram aqui identificadas duas campanhas distintas, ambas bastante tardias. A segunda, a seco, foi executada diretamente sobre a primeira sem a presença de qualquer reboco. Segundo os técnicos da empresa Mural da História, a primeira camada corresponde a uma campanha barroca, conforme denunciam os enrolamentos e os motivos vegetalistas com grandes flores. A segunda camada, com uma linguagem mais simples, mostra almofadas envoltas por triplo risco, técnica usada para criar volume. No entanto, em 1953, Armando de Mattos ainda pôde identificar quatro pinturas. Na parede fundeira da capela-mor, ao lado do altar, do lado do Evangelho, São Lucas (a); na parede testeira da nave este autor identificou São Cristóvão, “figura gigantesca”, como convinha, e de elevada qualidade plástica (b), do lado da Epístola; um santo bispo, enquadrado por moldura, “rematada ao alto por vistoso frontão nitidamente renascentista, em cujo tímpano se vê, igualmente pintada, uma desconhecida madona” (c); e, por fim, Santo Antão, acompanhado por legenda que o identifica e cujo valor epigráfico permitiu a Armando de Mattos datar esta pintura de finais do século XV ou de inícios do século XVI (d). Além disso, conseguiu ainda este autor reconhecer alguns vestígios de pintura noutros pontos da nave, em camadas sobrepostas, pelo que considera que estas deveriam ocupar a totalidade das suas paredes (Mattos, 1953). Estas pinturas terão sido concebidas ao longo do século XVI (e)." (1)

 Em 1979, António Cardoso aludiu aos frescos que ainda eram visíveis na capela-mor, do lado do Evangelho. Tratava-se de uma imagem de São João Evangelista, de desenho firme, em tons escuros. Numa filactera a legenda João Evangelista. Molduras e zonas ladrilhadas, com cores comidas pelo tempo, eram ainda visíveis. (2)

Igreja Românica de Gondar - Pintura Mural

"Atualmente, apenas se conserva pintura mural no arcossólio que enquadrava o altar-mor. No intradorso do arco foram realizadas duas campanhas de pintura. Uma com folhas de acanto enroladas e grinaldas de flores, dois motivos característicos, respetivamente, da talha de “estilo nacional” (c. 1690-1725) e da de estilo joanino (c. 1725-1750). Como, aqui, estes motivos aparecem conjugados, podem indicar uma obra de transição do gosto ao modo do “estilo nacional” para o gosto joanino, ou seja, é possível que esta pintura tenha sido realizada algum tempo depois de 1725. A intervenção sobreposta é mais tardia e parece ter o objetivo de criar molduras, cujas formas sugerem a influência de um gosto rococó (gosto que se afirma entre nós depois do início do reinado de D. José I, em 1750), estimando formas finas (e não volumosas, como as de André Soares, que tanta influência tiveram no Minho, e que podemos apreciar na parede que envolve o arco triunfal da sacristia do Mosteiro do Salvador de Travanca, também no concelho de Amarante)." (3)

(1) – Lúcia Rosas e outros, “Rota do Românico”, 2014, pág. 299-316.
(2) – António Cardoso, “ A Igreja Românica de Gondar”, Câmara Municipal de Amarante, 1979, pág. 15.
(3) - Paula Bessa, “Pintura Mural na Rota do Românico”, edição Rota do Românico, 1.ª edição, 2012, pág. 21.

Notas:

(a) Segundo o autor, esta composição dataria do século XVI. Pelo facto de surgir representado com a cabeça de perfil e com auréola, Armando de Mattos (1953: 25) liga esta obra à oficina de Outeiro Seco (Chaves).
(b) A ausência do Menino pode, talvez , ser explicada por ter desaparecido parte da pintura (Mattos, 1953: 25).
(c) A figura, representando um santo bispo de uma qualquer ordem, surge mitrada e a segurar nas mãos um báculo e um livro. Poderá ser uma representação de São Bento ou de São Gonçalo ou, ainda, de Santo Agostinho (Mattos, 1953: 25).
(d) Além do caráter ingénuo do desenho, o autor valoriza o “interesse etnográfico” desta representação de Santo Antão por ser aqui “portador do símbolo da sua atitude de “advogado do vivo”. Como diz o povo, constituído por uma coleira com seu chocalho, que lhe pende do braço esquerdo” (Mattos, 1953: 26).
(e) Tendo em conta a má qualidade das fotografias editadas por Armando de Mattos e o facto de, para cúmulo, deixarem perceber a possibilidade de ter existido uma sobreposição de camadas, Luís Urbano Afonso (2009: 365-366) considera ser complicado proceder à filiação das pinturas destruídas dentro da produção de uma das oficinas que laborou na região, pelo que, na impossibilidade de dá-las a conhecer através da imagem, também nós optamos por lhes fazer apenas uma breve referência, isenta de qualquer desenvolvimento mais profundo.

terça-feira, 20 de novembro de 2018


CAPELA DE NOSSA SENHORA DO CARMO

OVELHINHA - GONDAR

"Capela de planta longitudinal simples, de espaço único, com cobertura homogénea em telhado de duas águas. Fachadas em alvenaria de granito aparente, flanqueadas por cunhais apilastrados toscanos, sobrepujados por pináculos galbados, assentes sobre plintos paralelepipédicos.

Capela de Nossa Senhora do Carmo (Ovelhinha - Gondar)
A fachada principal remata em frontão curvo entrecortado, interrompido por cruz latina sobre acrotério. É rasgada por portal de verga reta, com moldura de cantaria simples, rematada por cornija seguida de tabela almofadada, e frontão curvo. No mesmo eixo abre-se, interrompendo o friso da fachada, óculo protegido por ferro e rede. 
Fachada lateral esquerda rasgada por fresta retangular em capialço, parcialmente entaipada. 
Fachada lateral direita rasgada por porta e janela de verga reta, simples, entaipadas, encontrando-se esta fachada praticamente oculta pela fachada do edifício anexo, de construção posterior, quase encostada, deixando um pequeno espaço sombrio e escuro, com cerca de trinta centímetros. 
Fachada posterior cega, enquadrada por pilastras toscanas, e impostas salientes, firmadas por pináculos idênticos aos da fachada principal; remata em empena curva, interrompida por cruz latina sobre acrotério.

Capela de Nossa Senhora do Carmo de Ovelhinha (interior)
Interior com paredes em alvenaria de granito, pintadas de branco, com pavimento em lajeado de granito e cobertura em caixotões de madeira, pintados junto ao retábulo, com representações eucarísticas. Junto à porta principal, do lado direito apresenta pia de água benta, em cantaria, de perfil curvo, gomada e com bordo saliente. Coro alto de madeira, com guarda formando falsos balaústres também de madeira.

Retábulo (pormenor)
Do lado da epístola, púlpito de madeira, com base quadrangular pintada com fingidos marmóreos, assente sobre modilhão também de madeira, guardas plenas de madeira policroma, pintada com motivos florais, com acesso por escada também de madeira encostada à parede.
Sobre supedâneo granítico, de três degraus centrais, enquadrados por peanhas quadrangulares encimadas por anjos tocheiros, eleva-se retábulo-mor em talha dourada, de planta reta, e um eixo, definido por colunas torsas, decoradas com meninos, parras e folhas de uva e pássaros fénix, e capitéis coríntios, intercaladas por apainelados decorados por motivos vegetalistas e medalhões de folhas de acanto, que sustentam entablamento. 
Ao centro abre-se nicho em arco de volta perfeita com fundo ornado com motivos vegetalistas, albergando imaginária assente sobre base profusamente decorada com cabeças de anjos e meninos envolvidos por grinaldas e acantos. Remate em arquivoltas assentes sobre o entablamento, igualmente decoradas com cabeças de anjos, acantos e motivos florais. Banco marcado pelas mísulas paralelepipédicas com meninos, que sustentam as colunas, intercaladas por apainelados decorados com folhas de acanto, integrando sacrário.
Mesa paralelepipédica, com frontal lavrado com grinaldas de flores, acantos, fénix e ao centro, uma cabeça de anjo".

Fonte eletrónica:

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=17130

Fotografia: Miguel Moreira

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Casa da Barroca - Gondar


CASA DA BARROCA - GONDAR

(Família Brochado)

Não pertencendo originariamente à família Brochado, esta casa entrou na sua posse com o casamento de Francisco Martins Brochado com D. Ana Nogueira da casa da Barroca, filha do ouvidor de Gestaço, Francisco João. Após este casamento, a casa da Barroca permaneceu, ininterruptamente, na posse da família Brochado.
A casa, profundamente remodelada nos anos 60 do século passado, data do século XVII e é constituída por dois corpos: a habitação e a capela.


Casa da Barroca - Gondar - Amarante
À habitação, de cariz senhorial, está adossada uma torre ameada que lhe confere um certo ar dominial que a posse, por esta casa, de uma vasta área agrícola e florestal da freguesia de Gondar vem confirmar. A implantação da casa permite visualizar esse vasto domínio territorial que, ao longo das duas margens da ribeira que desce de Bustelo, se estende até ao vale do rio Ovelha, em Ovelhinha.


Registo de óbito de João Brochado Ribeiro

A capela, de inquestionável valor arquitetónico e patrimonial, data do século XVIII e é dedicada  a S. João Baptista. Foi mandada edificar por João Brochado Ribeiro, por volta dos anos trinta de setecentos, pois, em 1721, “sobrevindo-lhe huma gravíssima enfermidade, há mais de vinte anos não ouvia missa porque nem levado em braços podia ir e que pelo discurso do tempo veio a poder ir assentado em humas andilhas... pela consolação da sua alma e recuperar os tempos em que lhe não foi possível assistir ao culto santo e saráfico da missa... queria fazer uma capella na sua quinta de Villela em que vive e será esta obra muito mais fermosa para o serviço de Deus”, envia uma petição ao Arcebispo de Braga solicitando autorização para a construção da referida capela. É nesta mesma capela que é sepultado, após falecer aos sete dias de Dezembro de mil setecentos e quarenta e cinco (ver registo de óbito). A licença para aí se sepultar foi-lhe concedida por uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, datada de 18/03/1741, (ver em
  http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1266249&ht=joao ).

Com uma fachada elegante e bem proporcionada, a capela possui no seu interior um belo retábulo em talha de madeira dourada de estilo barroco joanino. Esta capela será objecto de uma publicação neste blogue, logo que as obras de restauro, em curso, estejam concluídas.

Retábulo mor da Capela de São João Baptista

Miguel Moreira

sexta-feira, 20 de julho de 2018


MEMÓRIA PAROQUIAL DE CARVALHO DE REI (1758)

(AMARANTE)

Terá sido a capela de Nossa Senhora do Castelo a primeira Igreja Matriz de Carvalho de Rei? 
Fontanário (Castelo - Carvalho de Rei)
A acreditar neste documento assinado por Gonçalo Nunes Veloso, vigário de Carvalho de Rei em 1758, é muito provável que sim. Uma pia batismal serve ainda de base a um fontanário situado muito próximo da referida capela, o que demonstra que aí se efetuavam batismos. Esta é uma das curiosidades da Memória Paroquial de Carvalho de Rei que hoje publicamos.
Também interessante é saber que o culto a Nossa Senhora do Castelo é muito antigo e que os devotos das paróquias vizinhas romavam a esta ermida, no dia de santo António, com os seus clamores, como ainda hoje o fazem.
Como curiosidade, o padre Gonçalo Nunes Veloso (1691-1762), que assina o documento, era natural da freguesia de Gondar, onde mandou erigir a capela de Santo António na quinta da Saída.

Passamos a transcrever, na íntegra, o texto da Memória Paroquial (1758):


“Relação do que há na freguesia de São Martinho de Carvalho de Rey.
1- He esta freguesia cita no distrito de Entre Douro e Minho, na Comarca de Villa Real, do Arcebispado de Braga, no concelho de Gestasso, e tão bem pelo secular na Comarca de Guimarães.
2- He Sua Magestade Fidelissima Senhor do dito concelho de Gestasso, são as justiças do mesmo concelho feitas por eleição que ao mesmo vem fazer o Douto Corregedor da villa de Guimarães de três em três anos, a qual se faz com adjuntos das pessoas principais do mesmo concelho que servem de pautas.
3- Tem esta freguesia sinquenta e dous fogos, pessoas de sacramento cento e trinta e duas, menores dezanove e absentes catro.
4- Esta a dita freguesia cituada no alto de hua cerra áspera, donde se avista a do Marão e outros vários montes que ocultam muitos lugares e freguesias. Do adro desta freguesia se descobre a cerra de Santa Catarina junto a Guimarães e parte da da Falperra junto a Braga que dista desta nove legoas e daquella sinco.

Igreja Matriz de Carvalho de Rei - Amarante
5- Tem esta freguesia o Lugar de Carvalho de Rey ao pé do qual em distancia de dous tiros de espingarda está a Igreja Matriz, na qual está a residência do Parocho; tem tambem o lugar do Castello, que dista da Igreja Matriz hum bom quarto, o lugar de Perredondo, e da Guarda e de Paredinhas. Parte esta freguesia pella parte do Sul com o Bispado do Porto, da parte do Nascente parte com a freguesia de São Mamede de Bostelo e do Norte com a de Santa Maria de Gondar.
7- O santo do orago desta freguesia he São Martinho que está no Altar Mayor, tem esta igreja mais dous altares colaterais, hum da parte do Evangelho, que tem a imagem do Menino Jesus e a de São Sebastião, e o da parte da Epístola que tem a imagem de Nossa Senhora do Rozario.
Não tem a Igreja mais do que hum arco entre a capella mayor e o corpo da Igreja; não tem Irmandades, mais do que esmollas que os moradores juntão para alguns festeijos dos santos.
8- O Parocho desta igreja he vigário colado, he apresentação da dita vigagaria do Reytor de Santa Maria de Gondar, donde he esta anexa capella comenda de que he comandador o Excelentíssimo Conde do Redondo; rende esta esta igreja para o Parocho cento quarenta e sinco mil reys.
9- Não tem esta igreja beneficiados, nem conventos, Hospitais, nem Casa de Misericórdia tem esta freguesia.
Ermida de Nossa Senhora do Castelo - Carvalho de Rei
13- Tem esta freguesia huã Ermida no lugar do Castello com a imagem de Nossa Senhora, ainda que esta próxima do dito lugar em distância de dous tiros de espingarda e oculta com a cabeça de hum monte que está entre ella e o mesmo lugar, he antiquíssima a mesma ermida e dizem fora em algum tempo Igreja Matriz, e ainda nella se conserva huã pia baptismal, pertence a fabrica della ao Comendador assima dito. Em dia de Santo António  concorre à dita capella vários povos com suas procissões, como são as freguesias de Santa Maria de Gondar, Bostelo, S. Salvador de Lufrei e de S. João de Gatão a visitão. E os da freguesia de S. Simão, do bispado do Porto, fazem o mesmo em huã das oitavas do Espírito Santo, e as mais quando as move a devoção.
15- Os frutos que costuma frutificar a terra da sobredita freguesia são milhão, senteio, trigo, milho alvo, painço e feijão, mas de tudo isto pouco por ser terra montanhosa e de aver muy frio e muyta neve em alguns meses do anno por confrontar com a cerra do Marão; he muy abundante de gestas e de tojo para alimentação e sustento dos animais que os comem.

Espigueiros no lugar do Castelo - Carvalho de Rei
Da parte do nascente confronta com hum vale que desce da cerra para bayxo onde o rio que vem de Carneyro chamado a Reboreda, cujo vale em alguns tempos do anno sustenta javalizes, lobos, raposas, coelhos, perdizes, mas poucas escapam naquele citio a huãs aves de rapina a que chamão milhafres. He este vale muyto montanhoso...
Tem este vale em si huã cova chamada a Lagoa do Beyrão cujas possas cobrem três penedos e na entrada da dita cova pode entrar hum homem a cavallo, o fim della não se descobre pela escuridade que na entrada o oculta.
16- O concelho de Gestasso donde está esta freguesia tem Juiz Ordinário que se elege com a Câmara pelo povo.
18- Não há memória que nesta freguesia florescessem homens insignes em letras ou armas ou virtudes.
Dista esta freguesia da cidade de Braga cabeça do Arcebispado Primaz nove legoas e da capital do Reyno Lisboa sessenta legoas pouco mays ou menos.
Esta freguesia de Carvalho de Rey está no alto do monte chamado do mesmo nome da freguesia. Da parte do sul parte com a cerra que he do bispado do Porto com que confina; tem a freguesia huã legoa pouco mays ou menos de comprido e de largo mais de outra. Não tem rios, so sim agoas pluviais  que descem dos montes...


Lugar do Castelo - Carvalho de Reio
Nesta freguesia se cria gado a saber vacas, cabras, ovelhas, mas pouca quantidade pelo áspero e pobreza da freguesia. Tambem se criam nos montes della coelhos, perdizes e algumas lebres.
Tem esta freguesia um pizão em hum ribeyro que esta junto ao lugar da Guarda, onde nos meses de inverno por juntar alguma agoa se pisam mantas para o uso dos labradores.”
Com o que refiro assima declaro o que posso dizer desta freguezia de Carvalho de Rey e aos mais interrrogatórios que se pede não tenho que responder.

Carvalho de Rey de Março 15 de 1758
O Vig.º  Gonçallo Nunes Velloso
Miguel Moreira