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domingo, 27 de março de 2022

Romeiros de S. Gonçalo de Amarante

 

(Cliché do distinto fotógrafo sr. Vitorino Melo, de Penafiel, gentilmente enviada à Ilustração Portugueza pelo solícito correspondente de O Século naquela cidade, sr. Miranda da Veiga)

«Ilustração Portuguesa» - nº698 - 7 de Julho de 1919

Segundo a Memória Paroquial de Amarante, em 1758,

«Hé esta igreja dos santuarios mais vezitados que tem este Reino de romagens todo o anno. No dia dez de Janeiro que hé o de Sam Gonçallo, concorre innumeravel povo. De vespora do Espiricto Santo vem muita gente de Guimarais; na primeira oitava o Marquezado de Villa Real, quada freguezia separada com seu clamor e todos os homens e mulheres trazem vellas de cera que deixam de esmola. E no meio das procições trazem ramos de castinheiro cheios de cera que também deixam. No mesmo dia vem em procissam o concelho de Mondim de Basto e na mesma forma vem na primeira Segunda Feira de Junho o concelho de Santa Cruz, que tem vinte e sinco freguezias, o de Tuias e o de Canavezes em honze do mesmo mês, o de Felgueiras em treze, o de Unham, a dous de Julho vem a freguezia de Soalhais e no mesmo dia a do Grillo, Villa Marim, Teixeiró, Teixeira, Sediellos, Mondrois. Em Agosto vem o concelho de Montellongo e as freguezias de Santa Marinha do Zezere, Trezouras, Penajoia, Fontes e Resende, Viariz e Gestaçô. Em Setembro vem a freguezia de Barro, Sam Martinho de Mouros, Sam Pedro de Paos e Sam Joam de Ouvil. Em Outubro a freguezia de Lobrigos, nos Sabados deste mês e no de Novembro vem gente da Terra da Feira e concelhos da Maia, que distam desta terra dez, doze e quinze legoas».

in Memória Paroquial de Amarante, 1758

«Ilustração Portuguesa» - nº698 - 7 de Julho de 1919



domingo, 20 de março de 2022

Capela de Nossa Senhora de Moreira (Ansiães)

 No coração da serra do Marão, num dos seus sítios mais bonitos e aprazíveis, encontramos a capela de Nossa Senhora de Moreira, na freguesia de Ansiães.

Nossa Senhora de Moreira (Ansiães)


De tradição muito antiga, o culto a Nossa Senhora de Moreira já vem referido nas Memórias Paroquiais de 1758, nestes termos: “ no dia da ascensão do Senhor, vêm com cruzes e clamor grande concurso de gente à capela de Santo António, onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Moreira, que antes existia numa capela no alto da serra do Marão, no sítio de Moreira, mas que se acha arruinada e cuja imagem foi transladada para a dita capela.”

Desconhecemos a data da construção da primeira capela mas, segundo as Memórias Paroquiais de 1758, ela ficou arruinada 40 anos antes, isto é, por volta de 1718. Podemos assim concluir que seria uma construção do séc. XVII. Já quanto à sua reedificação, sabemos que aconteceu nos primeiros meses de 1783, pois que, no Arquivo Distrital de Braga, se encontra uma provisão, da Mitra Arquiepiscopal de Braga, “de licença para se reedificar a capela de Nossa Senhora de Moreira, da freguesia de São Paio de Anciaes, a favor dos moradores da dita freguesia”. Este documento data de 4/01/1783. Também no mesmo Arquivo, e com data de 19/05/1783, se encontra outra “Provisão de licença para se benzer a Capela de Nossa Senhora de Moreira, da freguesia de São Pelágio de Anciaes, a favor dos moradores da dita freguesia, da comarca de Vila Real.” Assim sendo, a reconstrução da capela ocorreu entre Janeiro e Maio de 1783.

Capela de N. S.ra de Moreira (Ansiães)

A Comissão de Festas de Nossa Senhora de Moreira, eleita por mandatos de um ano, é responsável pela organização das festas que se realizam no 2.º Domingo de Agosto. Duram três dias, com muita animação, música e jogos populares. No principal dia de festa, domingo, o andor de Nossa Senhora da Lameira sai em procissão da capela de Santo António e é levado em ombros, por um ancestral caminho de montanha, até ao cimo do monte Moreira, à capela da Santa. Aí, há missa solene em honra de Nossa Senhora e, cumpridas as promessas, ao fim da tarde, o andor regressa à capela de origem, no lugar do Eido, onde permanece até à festa do ano seguinte.


Andor de Nossa Senhora a caminho da capela de Moreira

De referir, ainda, que a capela da Senhora de Moreira se situa num dos mais deslumbrantes miradouros da serra do Marão. Com horizontes a perder de vista, podemos observar, encravadas na montanha, aldeias vizinhas, como Murgido e Póvoa, e, lá bem longe, as freguesias de Bustelo e Carvalho de Rei, esta já na serra da Aboboreira. De salientar, ainda, que, desta capela, avistamos, em redor, outras ermidas marianas como a da S.ra  de Corvachã, a da S.ra da Serra e a da S.ra do Castelo.

Para apoio aos romeiros, existe, bem perto do monte Moreira, um agradável e bem cuidado parque, o Parque da Lameira e, não muito longe, a Pousada Turística de S. Gonçalo.

Miguel Moreira (texto)

Fotografias de Rodrigo Oliveira (Águas Turvas)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Capela e Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira (Baião)

No coração da serra da Aboboreira, num dos seus pontos mais elevados e com vistas privilegiadas para o vale do rio Ovil, encontramos a capela de Nossa Senhora da Guia.

Capela de Nossa Senhora da Guia - Aboboreira

Segundo uma lenda que remonta aos anos 70 do século passado, um pastor de Baião terá avistado, por diversas vezes, no local onde se encontra a capela, a imagem de Nossa Senhora. Esta suposta aparição tornou-se assunto das conversas entre os populares e as peregrinações ao local sucederam-se, havendo até relatos de supostos milagres. Por tal motivo, acabou por ser construída, neste local da serra, uma capela com evocação de Nossa Senhora da Guia. No local, conserva-se, ainda, o penedo onde, supostamente, ocorreram as aparições.

Em cada ano, no primeiro domingo de agosto, centenas de peregrinos das freguesias vizinhas dos concelhos de Baião e Amarante, acorrem ao local para honrar Nossa Senhora. Num dia de muita alegria e convívio, os romeiros, depois de participar na missa campal e cumprir as suas promessas, espalham-se pelos montes em redor, estendem as mantas e toalhas e partilham os seus farnéis com os familiares e amigos. Fazem-se jogos tradicionais e ouve-se música popular.

Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira

No local, merece ainda destaque um miradouro natural, enquadrado por dois cruzeiros, de onde se alcança um vasto e impressionante horizonte, avistando-se todo o vale do rio Ovil, desde Loivos do Monte e São João de Ovil até Campelo.

O acesso a este miradouro permite aos romeiros visitar algumas aldeias tradicionais, muito bem conservadas, tais como Almofrela, Currais, Eido e Telões. No trajeto, por caminhos de montanha, alguns monumentos megalíticos (antas e mamoas), no campo arqueológico da Aboboreira, merecem também uma enriquecedora visita.

Miguel Moreira (texto)

Fotografia de Rota do Românico

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018


SÃO BRÁS DE VÁRZEA

As romarias são uma das principais manifestações da religiosidade popular. Doenças e dificuldades no acesso a cuidados de saúde levavam as pessoas a recorrer à ajuda divina e à intercecção dos santos. Daí, nas sociedades de antanho, vermos as populações, sobretudo as rurais, acorrerem em grande número a estes locais de culto: São Brás de Várzea, Senhora do Castelo, Senhora da Guia, Senhora de Corvachã, Santo Amaro, contam-se entre os muitos locais de romagem. Hoje vamos falar de São Brás.
Tendo realizado vários milagres em animais e em doentes, como, por exemplo, retirar um espinho da garganta de uma criança somente por olhar para o céu e rezar a Deus, São Brás, médico popular que viveu entre os séculos III e IV na Arménia, tornou-se no santo padroeiro dos animais, dos veterinários e das doenças da garganta, entre outras. Foi padre e, também, bispo de Sebaste, na Arménia. Capturado pelos Romanos, morreu como mártir, tendo sido decapitado no ano de 316.
A partir do século VIII, o seu culto expande-se um pouco por todo o mundo cristão, invocando-se as suas bênçãos para doentes e animais, por associação aos milagres que lhe foram atribuídos.
No calendário litúrgico, o seu dia celebra-se a 3 de Fevereiro.

Capela de São Brás de Várzea - Aboadela (Amarante)

Capela de S. Brás de Várzea - Aboadela (Amarante)

Localizada no cimo da pitoresca aldeia de Várzea, em Aboadela, a capela de S. Brás, no dia da festa do santo, atrai um elevado número de devotos que, em romaria, vão à pequena capela cumprir as suas promessas ou, simplesmente, pedir as bênçãos do santo. Não fosse ele advogado das doenças de garganta, tão frequentes nesta altura do ano. 
De Gondar, são muitos os romeiros que aí se dirigem.
Capela de proporções e construção modesta, vem referida, pelo padre Alexandre Pinto da Silva, na “Memória Paroquial” de Ovelha do Marão, em 1758, como “pertencente aos religiosos de S. Bento do convento de Tibães” e acrescenta que “no dia da sua festa, junta-se algum povo em romaria”. Documento que atesta a antiguidade e importância do culto a S. Brás nesta abençoada região do Marão.

Aldeia de Várzea - Aboadela
Festa religiosa, tem também a sua vertente profana, sendo como que um prenúncio do Carnaval que se avizinha. Na festa não faltam o vinho verde da região, as cavacas, os rosquilhos e o afamado e sempre presente “biscoito da Teixeira”.


Miguel Moreira (texto e fotografia)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

SÃO JOÃO DE VILELA

Vilela e São João são indissociáveis.
Anualmente, numa festa onde o sagrado e o profano se confundem, Vilela recebe o povo de Gondar para festejar este santo popular. 


Capela de São João Baptista

Baile de São João - Vilela (Gondar)

O espaçoso largo, que se estende da capela ao fontanário, é o palco dos festejos: ao lado do tanque, a tradicional “cascatinha de S. João”, não fosse ele o Baptista; defronte, o palco de onde um grupo de música popular anima o baile que se estende noite fora; e, no extremo oposto, o pequeno templo que alberga o santo, onde, no dia 24 de junho, é celebrada missa em sua honra.
A capela que lhe é dedicada, data do séc. XVIII e possui um belo retábulo em talha de madeira dourada e policromada,um apreciável exemplar do barroco joanino. A imagem do santo, também barroca, remonta à mesma época.

Altar de São João Baptista (Capela da Casa da Barroca)

Caminho para Cimo de Vila (Vilela - Gondar)

Mas Vilela não é apenas São João. Com um passado que remonta à romanização, Vilela criou uma identidade muito própria: a capela e a casa senhorial da Barroca, o que resta do antigo Calvário, as casas rústicas exemplarmente restauradas, as reminiscências de uma próspera comunidade agrícola, os velhos espigueiros empoleirados nos outeiros, fazem de Vilela um lugar apetecível, asseado, bonito de se ver.
Miguel Moreira


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

GONDAR FESTEJA SANTO AMARO

Hoje, 15 de Janeiro, é dia de Santo Amaro.
Cumprindo uma secular tradição, os gondarenses e, em particular, a população de Ovelhinha festeja no próximo fim-de-semana, dias 16 e 17 de Janeiro, Santo Amaro. Com missa e procissão em honra do santo e muita animação, os festejos decorrem na capela que lhe é dedicada no lugar de Ovelhinha e no amplo terreiro que ladeia o pequeno templo.
Longe vão os tempos em que o largo se apinhava de gente que fazia desta festa, que se realizava no "domingo gordo", uma espécie de Carnaval antecipado. Misturando o sagrado com o profano, os romeiros divertiam-se com jogos carnavalescos em que os "poses" e os jogos de água entre rapazes e raparigas eram o prato forte. Claro que não faltava a pipa do vinho, esquiçado no dia e vendido à caneca, os rosquilhos, as cavacas e o afamado biscoito da Teixeira.
Quanto à música, utilizava-se a prata da casa: uma concertina e dois cantadores faziam a festa e animavam o baile.
Outros tempos, outras gentes, outras tradições... mas a festa continua e isso é bom.
Viva Santo Amaro!
Capela de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)

Altar de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)

Uma notícia do Jornal Flor do Tâmega n.º 2088 (ano 41) sobre a festa de Santo Amaro anuncia o seguinte: "Festa de santo Amaro - no próximo Domingo, 16 do corrente. Realiza-se no lugar da Ovelhinha, da freguesia de Gondar, a festividade ao milagreiro Santo Amaro que constará de missa cantada às 10 horas, sermão, procissão e arraial e missa cantada. A procissão é oferta do Sr Albano Moreira, do lugar de Vila Seca.". Fica aqui este registo como elemento para a história do culto a Santo Amaro.
Registo, ainda, que o sr Albano Moreira, que ofereceu a procissão, era meu avô paterno. 
Miguel Moreira

domingo, 6 de setembro de 2015

A ROMARIA DE SÃO GENS

Capela de São Gens (Nossa Senhora do Leite)

Louça de Barcelos

Galos de Barcelos

Gaitas e assobios

Barraca de "comes e bebes"

A romaria de São Gens, uma das maiores do país, realiza-se, anualmente, em Setembro, tendo o seu ponto alto no dia 8, com a missa e procissão solene em honra de Nossa Senhora do Leite. 
As festas, que decorrem em Freixo de Cima, num aprazível local povoado de carvalhas centenárias, incluem uma feira anual especializada em louças de vários tipos e proveniências, e é visitada por muitos emigrantes em final de férias, mas também pelos residentes e muitos forasteiros. Outra atracção são as muitas “barracas de comes e bebes” que ali se instalam e onde é habitual provar-se os primeiros vinhos do ano. 
A Capela, cuja fundação remonta a 1545, é referida por Craesbeeck, em 1726, como sendo “a capela de Nossa Senhora da Graça, do lugar de São Gens” (1). A velha ermida foi, entretanto, substituída pela atual, em 1986, e adquirida a nova imagem de Nossa Senhora do Leite.

Também, as “Memórias Paroquiais” (1758) se referem a “uma Ermida no lugar que chamam de Sangens, que fica na estrada que vai para a Villa de Amarante, a qual Ermida é da invocação de Nossa Senhora da Graça, e a esta Ermida correm algumas romagens de várias partes vizinhas porque a dita Senhora da Graça faz favores especiais às mulheres a quem falta o leite para alimentar as crianças. E também vêm à dita ermida algumas freguesias vizinhas com seus clamores. Está a dita ermida nos limites desta freguesia (de Freixo de Cima). Nos Sábados da Quaresma e da Páscoa até o Santo António é que os clamores lhe acodem as mais viagens da circunvizinhança e em quaisquer dias santos do ano, maiormente no tempo de Verão”. (2)
José Augusto Vieira, em “O Minho Pittoresco” (1887), descreve a “esplanada de São Gens”, na freguesia de Freixo de Cima, como “esplanada notável… pela sua concorrida feira mensal de gado e sobretudo pela sua feira anual de 8 de Setembro, aonde concorrem todos os fabricantes de utensílios de lavoura e os oleiros da província, levando além das louças próprias para os usos domésticos, assobios, gaitas e pífaros de barro, que são o encanto do rapazio. Ahí pois, como em nenhuma outra parte, pode o leitor estudar os curiosos typos de instrumentos agrícolas, que o uso faz adoptar n’esta região acidentada, alguns dos quais têm formas artísticas notáveis, além das qualidades úteis que os distinguem”. (3)


Miguel Moreira

(1)- Craesbeeck, Francico Xavier da Serra, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho, Ponte de Lima, 1992.
(2)- Memórias Paroquiais, vol. 16, n.º 188, p. 1135-1142.
(3)- Vieira, José Augusto, O Minho Pittoresco, Lisboa, 1887.