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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Ponte de Fundo de Rua - Aboadela

 


Ponte de Fundo de Rua (Aboadela) - Fotografia de João Sardoeira

Ponte de pedra sobre o rio Ovelha, sustentada por quatro arcos de volta perfeita com dimensões desiguais, sobre os quais assenta um tabuleiro ligeiramente levantado acima do arco maior. Os pilares são protegidos a montante por talha-mares aguçados e a jusante por contrafortes. Não sendo um exemplar puro de construção românica, possui, contudo, todos os elementos que a caracterizam, sendo, ainda, um dos mais interessantes e mais bem conservados modelos de atravessamento regional.

À entrada da ponte, na margem esquerda, um cruzeiro assinala, talvez, a data (1630) da construção ou reedificação da ponte, herdeira da travessia medieval que assegurava a passagem do trânsito entre Amarante e Vila Real.1630 é também a data da construção da Ponte de Larim, sobre o mesmo rio, em Gondar.

Miguel Moreira

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Pelourinho de Ovelha do Marão

O PELOURINHO E O CRUZEIRO DE ABOADELA


O surgimento dos pelourinhos está intimamente associado à criação dos concelhos. À outorga de um foral a uma comunidade local segue-se, normalmente, o levantamento de um pelourinho, símbolo da sua personalidade jurídica e da sua independência. Invariavelmente é implantado numa praça ou num largo central da povoação e em frente ao edifício dos Paços do Concelho.
A renovação dos forais efetuada por D. Manuel I é frequentemente associada ao fulgor construtivo de pelourinhos verificado no século XVI (1). Considerando que, em 1514, D. Manuel concede novo foral a Ovelha do Marão, e, em 1550, D. João III transformou a Beetria em Honra, a Casa da Câmara e o pelourinho devem ter sido construídos por essa altura. Também se depreende que a primeira Câmara de Ovelha terá sido próxima da ponte, onde se encontra o pelourinho, e não no edifício ao cimo da rua, construído em meados do século XVIII pelos Morgados de Mateus. Em 1726, Craesbeeck escreveu o seguinte: a Honra de Ovelha “tem sufficiente caza de câmara, perto da ponte, por onde se passa o dito rio, dentro do lugar, com sua cadea e pelourinho”. (2)


Pelourinho e Cruzeiro de Ovelha do Marão - Aboadela
O pelourinho de Ovelha do Marão levanta-se num pequeno largo da freguesia, junto à ponte, sobre plataforma de cinco degraus quadrangulares. A coluna é composta por grossa base circular e fuste cilíndrico e liso. Este é rematado por capitel constituído por uma peça tronco-cilíndrica, encimada por ábaco em tabuleiro, formado por três molduras quadradas crescentes. No topo assenta uma pirâmide de secção quadrangular. (3)
Na coluna são visíveis marcas dos furos onde seriam engatados os ferros de sujeição. O pelourinho, símbolo concelhio e instrumento penal, era o local onde se aplicavam as penas. Os presos eram amarrados às argolas e açoutados ou mutilados, consoante a gravidade do delito e os costumes da época.
Pelo Decreto n.º 23 122, DG, 1.ª série, n.º 231, de 11 de outubro de 1933,  o pelourinho de Ovelha foi classificado como IIP-Imóvel de Interesse Público. 

 Adossado ao parapeito da ponte, na margem esquerda do rio, encontra-se o cruzeiro. É constituído por um plinto de planta quadrada, com a inscrição “1630 / RMO” na face frontal, e moldura superior em quato de círculo invertido com encaixe central para o fuste cilíndrico liso. O capitel é em forma de esfera achatada, sustentando uma cruz latina lisa, de secção circular.
A data, 1630, inscrita na base do cruzeiro, poderá ser a data da (re)construção da ponte. E porquê? Porque coincide com o reinado de D. Filipe III, que governou entre 1621 e 1640, que foi um dos monarcas que mais contribuiu para a construção de pontes e estradas. A de Larim, em Gondar, terá sido construída pela mesma altura.
Os cruzeiros, símbolos de jurisdição paroquial, estavam, muitas vezes, associados às pontes, como era o caso da ponte de S. Gonçalo, em Amarante, que tinha um cruzeiro a meio. O cruzeiro, nestes casos, simbolizava a protecção aos viajantes e romeiros e à própria ponte. Refira-se o facto de Amarante ser, na Idade Moderna, o epicentro de várias vias para diversos centros espirituais regionais, como São Gonçalo, Santa Senhorinha de Basto, Senhora da Lapa ou mesmo na ligação aos caminhos de Santiago de Compostela.

(1)- Rosa, António Manuel Amaro, Os Pelourinhos da Lusitânia, Universidade Aberta, Lisboa, 2014, p. 13.
(2)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho n ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, vol. II, p. 311.

Miguel Moreira

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Capela de Nossa Senhora da Conceição (Aboadela)


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
Lugar de Rua – Aboadela

Mandada construir por Baltazar Gonçalves e sua esposa, Ana André, no ano de 1639, a Capela de Nossa Senhora da Conceição situa-se a meio da rua de Ovelha e Honra do Marão, em Aboadela. O facto de a Igreja Paroquial se situar na parte alta da freguesia, e porque, durante o inverno, naquela região do Marão o clima era demasiado rigoroso para os fiéis que teriam de subir a íngreme encosta até à Igreja, terão sido as razões para a sua construção. Desta maneira, os fiéis podiam participar nos actos litúrgicos num local mais próximo e central, para além de ser, certamente, o lugar mais populoso da freguesia. Nesta capela que, segundo Craesbeeck, apesar de pequena era "a melhor que há na dita honra", era celebrada missa quotidianamente.

Capela de N. S.ra da Conceição (1.º plano à esquerda), em Aboadela
Obedecendo aos cânones renascentistas, a capela exibe, sobre a ampla porta de entrada, um arco de volta plena, com remate em empena da respetiva fachada e apresentando as fachadas laterais remate em cornija. De notar, também, a qualidade, de fino grão, do granito utilizado e o seu esmerado talhe.
De planta retangular e de uma só nave, a capela prima pela sua simplicidade e harmonia, bem ao gosto renascentista. No interior, onde se acede por dois degraus, encontravam-se, segundo Craesbeeck, três campas "com letreiros que disem: huma = de Baltesar Gonçalves; outra = de Anna Andre; outra = de Gaspar Ramalho".
De notar, ainda, que o ano da sua construção, 1639, aproxima-se da data em que foi construído o cruzeiro à entrada da ponte, 1630, o que me parece não ter sido mera coincidência.
Em 1726, Craesbeeck refere-se a esta capela num texto que, pelo seu interesse, passo a transcrever: "A capella de Nossa Senhora da Conceipção he pequena, mas he a melhor que há na dita honra. Está junto às casas de Manoel Teixeira Botelho e há nella missa quotidiana, porque a instituiu e mandou fazer com a dita obrigação Balthesar Gonçalves e sua mulher Anna Andre, no anno de 1639, como consta de hum letreiro deficultoso de ler, que está sobre a porta della, no arco de pedra, na forma seguinte:
ESTA. CAPELLA. MANDOU. FAZER. BALTHEZAR. / G(ONÇA)L(V)E(S). E SUA. MOLHER. ANA. ANDRE. CO(M). MI(S)A. C(U)OTIDIANA. / 1639." (1)
Também a "Memória Paroquial" de Ovelha do Marão, redigida, em 1758, pelo Padre Alexandre Pinto da Silva, refere esta capela, aqui designada como "Ermida da Senhora da Conceição" e pertencente a Manuel António de Sousa.
Na posse de particulares, a capela, encontra-se, atualmente, desafeta do culto litúrgico e convertida em armazém agrícola. Louvo, no entanto, o facto de a fachada principal se encontrar bem conservada e o proprietário ter mantido a porta principal em madeira, condizente com a importância do imóvel.

(1)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, "Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho No Ano de 1726", Ed. Carvalhos de Basto, vol.II, pág. 312-313.

Para mais informação: https://pt.wikipedia.org/wiki/Aboadela
Miguel Moreira

quinta-feira, 2 de junho de 2016

PONTE DE FUNDO DE RUA (OVELHA DO MARÃO)

A antiga honra de Ovelha integrava a localidade medieval de Santa Maria de Bobadela, depois conhecida como Ovelha do Marão, ou Ovelhinha, hoje constituindo a freguesia de Aboadela. Foi uma das poucas beetrias do reino. Teve foral dado por D. Sancho I, em 1196, e foral novo de D. Manuel, em 1514. Conserva ainda um pelourinho, muito singelo, seguramente posterior à outorga de foral manuelino, ainda que de datação incerta. 



Ponte de Fundo de Rua (Aboadela)
A ponte, de inspiração românica, é sustida por quatro arcos de volta perfeita com dimensões desiguais, sobre os quais corre um tabuleiro ligeiramente levantado acima do arco maior. Os pilares são protegidos a montante por três talha-mares aguçados e a jusante por contrafortes.
A inscrição que se encontra na base do cruzeiro construído à entrada da Ponte, na margem esquerda, e que refere o ano de 1630, remete-nos a sua (re)construção para o século XVII.



Lugar de Rua (Aboadela)
Pelourinho e Cruzeiro de Ovelha do Marão
O pelourinho levanta-se num pequeno largo da freguesia, sobre plataforma de quatro degraus quadrangulares, toscamente aparelhados, que ficam abaixo da cota do caminho empedrado à beira do qual se situam. A coluna é composta por grossa base circular e fuste cilíndrico e liso. Este é rematado por capitel constituído por uma peça tronco-cilíndrica, encimada por ábaco em tabuleiro, formado por três molduras quadradas crescentes. No topo assenta uma pirâmide de secção quadrangular. A singeleza do conjunto não permite datação muito rigorosa, mas é provável que se trate de um pelourinho seiscentista. 

Miguel Moreira (texto e fotos)