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domingo, 21 de julho de 2019

Capela de São João Crisóstomo

CAPELA DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

(VILELA – GONDAR)


Em 1758, a “Memória Paroquial de Gondar”, num relatório assinado pelo P.e António Coelho Pedroza, referia que "no lugar de Vilella há duas capellas, huma, a mais antiga, seu orago Sam João Baptista de que hé administradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstimo que há poucos annos mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho.” (1)
Todos os gondarenses sabem da existência da capela de São João Batista, da casa da Barroca, a que já nos referimos, mais que uma vez, neste blogue. Porém, creio que poucos saberão que existiu, no mesmo lugar de Vilela, outra capela, cujo orago era São João Crisóstomo.

Vilela - Localização da Capela de S. João Crisóstomo
Datada de 31/05/1752, uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, que se conserva no Arquivo Distrital de Braga, concedeu uma “licença para a feitura de capela com a invocacao de Sao Joao Crisostomo, novamente erigida, a favor do Padre Joao Pereira Sobrinho, da freguesia de Santa Maria de Gondar, comarca de Vila Real”.(2) Este importante documento para além de referir o seu patrono, São João Crisóstomo, refere também a pessoa que a mandou erigir, o Padre João Pereira Sobrinho. No documento diz-se, ainda, que a capela foi “novamente erigida”, o que pressupõe ter existido outra anterior a esta. De qualquer forma, esta nova capela, mandada erigir pelo P.e João Pereira Sobrinho, foi construída entre os anos de 1752, data da provisão da Mitra, e 1758, data da “Memória Paroquial”, que a dá como já existente.
A capela faria parte da Casa do Covêlo, uma habitação e quinta de dimensões consideráveis, que lhe fica mesmo em frente, do outro lado do caminho público.
Nasci muito próximo desta capela e, nos anos 50 do século passado, esta já não estava ao serviço do culto. Era um espaço para arrecadação de produtos e alfaias agrícolas. Lamentável é que, mais tarde, sobre as paredes da capela tenham construído um palheiro que desfigurou, por completo, este exemplar da memória e do património dos Gondarenses.


São João Crisóstomo
Nasceu em Antioquia, cerca do ano 349. Depois de ter recebido uma excelente educação, dedicou-se à vida ascética; e, tendo sido ordenado sacerdote, consagrou-se, com grande fruto, ao ministério da pregação. Eleito bispo de Constantinopla no ano 397, revelou grande zelo e competência nesse cargo pastoral, atendendo em particular à reforma dos costumes, tanto do clero como dos fiéis. A oposição da corte imperial e de outros inimigos pessoais levou-o por duas vezes ao exílio. Perseguido por tantas tribulações, morreu em Comana (Ponto, Ásia Menor) no dia 14 de Setembro do ano 407. A sua notável diligência e competência na arte de falar e escrever, para expor a doutrina católica e formar os fiéis na vida cristã, mereceu lhe o apelativo de Crisóstomo, «boca de ouro».

(1)- P.e António Coelho Pedroza in “Memórias Paroquiais de Gondar”, 1758.


Miguel Moreira

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Casa da Barroca - Gondar


CASA DA BARROCA - GONDAR

(Família Brochado)

Não pertencendo originariamente à família Brochado, esta casa entrou na sua posse com o casamento de Francisco Martins Brochado com D. Ana Nogueira da casa da Barroca, filha do ouvidor de Gestaço, Francisco João. Após este casamento, a casa da Barroca permaneceu, ininterruptamente, na posse da família Brochado.
A casa, profundamente remodelada nos anos 60 do século passado, data do século XVII e é constituída por dois corpos: a habitação e a capela.


Casa da Barroca - Gondar - Amarante
À habitação, de cariz senhorial, está adossada uma torre ameada que lhe confere um certo ar dominial que a posse, por esta casa, de uma vasta área agrícola e florestal da freguesia de Gondar vem confirmar. A implantação da casa permite visualizar esse vasto domínio territorial que, ao longo das duas margens da ribeira que desce de Bustelo, se estende até ao vale do rio Ovelha, em Ovelhinha.


Registo de óbito de João Brochado Ribeiro

A capela, de inquestionável valor arquitetónico e patrimonial, data do século XVIII e é dedicada  a S. João Baptista. Foi mandada edificar por João Brochado Ribeiro, por volta dos anos trinta de setecentos, pois, em 1721, “sobrevindo-lhe huma gravíssima enfermidade, há mais de vinte anos não ouvia missa porque nem levado em braços podia ir e que pelo discurso do tempo veio a poder ir assentado em humas andilhas... pela consolação da sua alma e recuperar os tempos em que lhe não foi possível assistir ao culto santo e saráfico da missa... queria fazer uma capella na sua quinta de Villela em que vive e será esta obra muito mais fermosa para o serviço de Deus”, envia uma petição ao Arcebispo de Braga solicitando autorização para a construção da referida capela. É nesta mesma capela que é sepultado, após falecer aos sete dias de Dezembro de mil setecentos e quarenta e cinco (ver registo de óbito). A licença para aí se sepultar foi-lhe concedida por uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, datada de 18/03/1741, (ver em
  http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1266249&ht=joao ).

Com uma fachada elegante e bem proporcionada, a capela possui no seu interior um belo retábulo em talha de madeira dourada de estilo barroco joanino. Esta capela será objecto de uma publicação neste blogue, logo que as obras de restauro, em curso, estejam concluídas.

Retábulo mor da Capela de São João Baptista

Miguel Moreira

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OS PILOUCOS DA PONTE DE VILELA

Sabe de onde vieram estes piloucos?


Igreja de São Gonçalo de Amarante (finais do séc. XIX)

Pois, estes piloucos têm mais de um século e, como podemos confirmar pela fotografia de Frederick William Flower (finais do sé. XIX), estiveram frente à Igreja de S. Gonçalo, criando um espaço entre a Igreja e o Largo (adro), onde existiam bancos em pedra para as pessoas se sentarem enquanto esperavam pelas cerimónias religiosas.


Ponte de Vilela (Gondar - Amarante)

Com o arranjo do Largo, estes piloucos foram retirados e, como estava em construção o lanço de estrada entre Vilela e Vila Seca, foram aproveitados para colocar na guarda da ponte de Vilela. Para que tal acontecesse, foi determinante a influência do Dr. Álvaro Pereira Teixeira de Vasconcelos, que habitava a casa do Encontro, em Vila Seca, e que pertencia à família dos Pascoaes. Foi também a ele que se deveu a construção deste lanço de estrada.
Alguns dos piloucos já caíram, mas, uma vez que o tabuleiro da ponte vai ser alargado, era bom que, os poucos que restam, dado o seu valor histórico-cultural, fossem lá conservados, ou devidamente protegidos noutro local da freguesia.

Miguel Moreira

sexta-feira, 24 de junho de 2016

SÃO JOÃO DE VILELA

Vilela e São João são indissociáveis.
Anualmente, numa festa onde o sagrado e o profano se confundem, Vilela recebe o povo de Gondar para festejar este santo popular. 


Capela de São João Baptista

Baile de São João - Vilela (Gondar)

O espaçoso largo, que se estende da capela ao fontanário, é o palco dos festejos: ao lado do tanque, a tradicional “cascatinha de S. João”, não fosse ele o Baptista; defronte, o palco de onde um grupo de música popular anima o baile que se estende noite fora; e, no extremo oposto, o pequeno templo que alberga o santo, onde, no dia 24 de junho, é celebrada missa em sua honra.
A capela que lhe é dedicada, data do séc. XVIII e possui um belo retábulo em talha de madeira dourada e policromada,um apreciável exemplar do barroco joanino. A imagem do santo, também barroca, remonta à mesma época.

Altar de São João Baptista (Capela da Casa da Barroca)

Caminho para Cimo de Vila (Vilela - Gondar)

Mas Vilela não é apenas São João. Com um passado que remonta à romanização, Vilela criou uma identidade muito própria: a capela e a casa senhorial da Barroca, o que resta do antigo Calvário, as casas rústicas exemplarmente restauradas, as reminiscências de uma próspera comunidade agrícola, os velhos espigueiros empoleirados nos outeiros, fazem de Vilela um lugar apetecível, asseado, bonito de se ver.
Miguel Moreira


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O CALVÁRIO DE VILELA

Calvário era o nome da colina onde Jesus Cristo foi crucificado. Até lá chegar, carregando a sua própria cruz, Cristo teve de percorrer um íngreme e longo caminho que ficou conhecido como “via crucis” ou “via sacra”. Segundo a prática católica este percurso é constituído por catorze “passos” ou “estações” que recordam os momentos mais marcantes desse caminho.
A Igreja Católica, no sentido de reviver os passos da Paixão de Cristo, construiu, sobretudo no norte de Portugal, monumentos que tentam imitar o Calvário e a “via crucis”. Na semana Santa ou em momentos de grande aflição, os fiéis percorrem este percurso, parando nas diversas estações onde refletem sobre os vários “passos” do sofrimento de Cristo. É o caso do Calvário de Vilela.

Calvário de Vilela - Gondar

Na maior parte dos casos, estes monumentos eram construídos na encosta de uma colina, ao longo da qual, espaçadas de forma regular, eram colocadas catorze cruzes, tantas quantas as estações da Paixão de Cristo. Na última estação ou, em alguns casos, na 12.ª - "Jesus é morto na cruz", eram colocadas três cruzes: a de Cristo, ao centro, ladeada pelas do bom e do mau ladrões.

Capela de S. João Batista (Vilela - Gondar)
No caso de Vilela, julga-se que a Via Sacra se iniciava no cruzeiro que se encontra adossado à capela de S. João Batista, pertença da Casa da Barroca, e terminava no Monte do Calvário, designação que o local ainda mantém. De toda a construção apenas restam as cruzes da Capela e a do Calvário e algumas bases nas quais eram apoiadas as cruzes. As restantes terão sido pilhadas por particulares, desconhecendo-se o seu paradeiro.
Quanto à sua datação, esta não se torna fácil devido à forma tosca e atípica da cruz do Calvário que não nos permite situá-la numa época determinada. No entanto, porque estas construções e as cerimónias da Via Sacra eram da responsabilidade da “Confraria do Senhor dos Passos” e esta já existia em Gondar, em 1758, conforme nos é relatado nas “Memórias Paroquiais”, isto leva-nos a situar esta construção na segunda metade do século XVIII ou no século XIX.
Seria bom que o pouco que nos resta deste Património religioso e histórico-cultural fosse devidamente cuidado e acautelado.

Miguel Moreira