Mostrar mensagens com a etiqueta Turismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Turismo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Capela e Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira (Baião)

No coração da serra da Aboboreira, num dos seus pontos mais elevados e com vistas privilegiadas para o vale do rio Ovil, encontramos a capela de Nossa Senhora da Guia.

Capela de Nossa Senhora da Guia - Aboboreira

Segundo uma lenda que remonta aos anos 70 do século passado, um pastor de Baião terá avistado, por diversas vezes, no local onde se encontra a capela, a imagem de Nossa Senhora. Esta suposta aparição tornou-se assunto das conversas entre os populares e as peregrinações ao local sucederam-se, havendo até relatos de supostos milagres. Por tal motivo, acabou por ser construída, neste local da serra, uma capela com evocação de Nossa Senhora da Guia. No local, conserva-se, ainda, o penedo onde, supostamente, ocorreram as aparições.

Em cada ano, no primeiro domingo de agosto, centenas de peregrinos das freguesias vizinhas dos concelhos de Baião e Amarante, acorrem ao local para honrar Nossa Senhora. Num dia de muita alegria e convívio, os romeiros, depois de participar na missa campal e cumprir as suas promessas, espalham-se pelos montes em redor, estendem as mantas e toalhas e partilham os seus farnéis com os familiares e amigos. Fazem-se jogos tradicionais e ouve-se música popular.

Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira

No local, merece ainda destaque um miradouro natural, enquadrado por dois cruzeiros, de onde se alcança um vasto e impressionante horizonte, avistando-se todo o vale do rio Ovil, desde Loivos do Monte e São João de Ovil até Campelo.

O acesso a este miradouro permite aos romeiros visitar algumas aldeias tradicionais, muito bem conservadas, tais como Almofrela, Currais, Eido e Telões. No trajeto, por caminhos de montanha, alguns monumentos megalíticos (antas e mamoas), no campo arqueológico da Aboboreira, merecem também uma enriquecedora visita.

Miguel Moreira (texto)

Fotografia de Rota do Românico

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

7 Razões para visitar Gondar


 A 5 kilómetros de Amarante e a 60 da cidade do Porto, esta pequena aldeia, plasmada nos vales dos rios Ovelha e Carneiro, tem motivos capazes de surpreender quem a visita. Com um passado que remonta aos primórdios da nacionalidade - Mem Gundar, a quem a freguesia deve o seu nome, acompanhou o conde D. Henrique nos tempos do Condado Portucalense - Gondar possui um passado e um património admiráveis: monumentos, aldeias preservadas, quintas e casas senhoriais, artesanato, um museu rural, a “casa do oleiro”, praias fluviais… e muito mais.

De entre muitos, selecionamos 7 motivos que, certamente, não deixarão de fascinar o visitante mais exigente.

1- A IGREJA ROMÂNICA DE GONDAR


Igreja Românica de Gondar - Amarante


Integrada na Rota do Românico, esta Igreja, edificada no século XIII, conserva ainda a traça românica na sua quase totalidade, apesar das transformações que sofreu durante a Época Moderna.

Fez parte de um antigo Mosteiro de monjas bentas, fundado por Dom Mem Gundar que fez desta abadia mariana local de acolhimento das suas filhas e de panteão familiar. Foi Reitoria e Comenda da Ordem de Cristo e, de 1455 até 1904, foi igreja matriz da freguesia.

 2- A IGREJA MATRIZ DE GONDAR


Igreja Matriz de Gondar - Amarante


Inaugurada em 1904, a atual Igreja Matriz, com uma localização mais central, veio substituir a Igreja românica, situada num extremo da paróquia.

De traçado muito simples e de uma só nave, o novo templo ostenta, no seu interior, peças de elevado valor artístico e cultural: um retábulo de estilo barroco (séc. XVII/XVIII) e uma belíssima escultura de Nossa Senhora, de estilo gótico (século XV), ambos  provenientes da secular igreja românica de Gondar.

 3- O MUSEU RURAL DO MARÃO


Museu Rural do Marão em Gondar - Amarante


Inaugurado em 2009, este Museu, nas instalações de um antigo Engenho de Azeite, que aqui funcionava e se mantém em bom estado de conservação, tem patente ao público uma vasta colecção de alfaias agrícolas, utensílios de cozinha, teares, diversas peças de olaria de barro preto e muitos outros utensílios do dia-a-dia da comunidade local.

O visitante poderá ainda visitar, mesmo ao lado, a capela de Nossa Senhora das Dores, integrada numa bonita quinta, propriedade da família de Pascoais.

 4- O LUGAR DE OVELHINHA


Capela de Nossa Senhora do Carmo em Ovelhinha - Gondar


Integrada na Rota das “Aldeias de Portugal”, Ovelhinha é de uma beleza invejável. Com o seu casario ribeirinho, as suas pequenas pontes sobre o rio Carneiro, os açudes e os moinhos de outrora, Ovelhinha é um desafio aos sentidos, um hino à natureza e ao homem que, aqui, tão harmoniosamente convivem.

Mas Ovelhinha não é apenas o casario e o rio. Ovelhinha é também história. História da crueldade dos soldados de Napoleão que velhos pardieiros ainda testemunham. História de um passado senhorial que um solar e sua capela evidenciam. História do trigo de cantos que aqui teve as suas origens.

Ovelhinha tem, ainda, a Senhora do Carmo com seu belíssimo retábulo em talha dourada; e Santa Amaro com sua festa de pendor carnavalesco. E tem uma escola, mas não uma qualquer escola. Tem uma escola linda, centenária, do tipo Adães Bermudes.

Ovelhinha é, por tudo isto, uma aldeia repeleta de encantos e de histórias que vale a pena desvendar. Percorrê-la vagarosamente, descobrir os seus recantos, sentir os seus cheiros, observar o estilo de vida calmo e tranquilo dos seus habitantes é algo que nos enleva os sentidos e nos acalenta a alma.

Não desperdice o convite e venha desfrutar esta dádiva da natureza.

 5- OS LUGARES DO RIO E OUTEIRINHO


Rio e outeirinho - Gondar


Localizados frente a frente e separados apenas pelo rio Carneiro, estes dois lugares, outrora terra de oleiros e agricultores, preservam ainda o seu carácter genuinamente rural.

Percorra a pé os seus caminhos estreitos e sinuosos, observe as suas graciosas construções graníticas, pare sobre a pequena ponte e deixe-se embalar pelo som da água que corre célere por entre os seixos. E, se for no verão, não deixe de se refrescar na praia fluvial da "levada nova" ou, simplesmente, contemplar a natureza que, aqui, se conserva no seu estado mais puro.

 6- OS LAGARES RUPESTRES DE ALDEIA E DO TAPADO


Lagar medieval do Tapado - Gondar


Remontando muito provavelmente à idade média, estes lagares são, porventura, as construções mais antigas da freguesia. Destinados à pisa das uvas, são a evidência de que a cultura da vinha e do vinho remontam aos primórdios desta comunidade que, hoje, produ z dos melhores vinhos da região.

O lagar do Tapado é constituído por dois tanques de pisa que comunicam, respetivamente, com dois pios, localizados a uma cota inferior, para recolha do mosto. De cada lado dos tanques, existe uma outra estrutura, menos profunda, onde se instalava a prensa. À volta do conjunto, vários entalhes na rocha indiciam a montagem de uma estrutura de suporte de uma cobertura ou alpendre. A existência, lado a lado, de dois tanques e duas pias permitia o funcionamento, em simultâneo, de duas pisas, do mesmo ou de diferentes proprietários.

Muito perto, no lugar de Aldeia, existe um outro lagar do mesmo tipo, embora mais pequeno.

 7- A GASTRONOMIA: BOA COMIDA E BONS VINHOS

Gondar afirma-se, hoje, como uma das grandes referências de Amarante na produção de vinho verde.

Localizada num profundo vale, entre as elevações montanhosas de Carvalho de Rei e de Bustelo e com uma excelente exposição solar, Gondar beneficia de um micro-clima que proporciona às uvas excelente maturação e, consequentemente, vinhos de ótima qualidade.

Pode degustar estes vinhos de excelência numa das várias tabernas e restaurantes da freguesia, acompanhando deliciosos petiscos e pratos típicos da região: o cabrito ou o anho assado com arroz no forno, o arroz de cabidela, o cozido à portuguesa, são sugestões que aqui lhe deixamos.

 Como vê, há motivos de sobra para visitar Gondar. Em família ou com amigos, não hesite, faça-se à estrada.

Miguel Moreira

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Ovelhinha - Gondar

OVELHINHA

a magia de uma aldeia

O topónimo Ovelhinha deriva de Ourelinha, diminutivo de ourela que significa estreita faixa de terreno na orla de um rio. É isso que Ovelhinha é: uma idílica aldeia a beijar o rio Fornelo.

Lugar de Ovelhinha - Gondar
Mas Ovelhinha não é apenas o casario e o rio com as suas  pequenas pontes e velhos moinhos. Ovelhinha é também história. História da crueldade dos soldados de Napoleão que velhos pardieiros ainda testemunham. História de um passado senhorial que um solar e sua capela evidenciam. História do trigo de cantos que todos adoramos e teve aqui as suas origens.
Ovelhinha tem, ainda, a Senhora do Carmo com seu belíssimo retábulo em talha dourada; e Santo Amaro com sua festa de sabor carnavalesco, onde o sagrado e o profano convivem pacificamente. E tem uma escola, mas não uma qualquer escola. Tem uma escola linda, centenária, do tipo Adães Bermudes, de boa memória para muitos de nós.
Ovelhinha é, por tudo isto, uma aldeia repeleta de encantos e de histórias que vale a pena desvendar. Percorrê-la vagarosamente, descobrir os seus recantos, sentir os seus cheiros, observar o estilo de vida calmo e tranquilo dos seus habitantes é algo que nos enleva os sentidos e nos acalenta a alma.
Não desperdice o convite e venha desfrutar esta dádiva da natureza.

Miguel Moreira

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Vila Seca - Gondar


ALDEIA DE VILA SECA

um pouco da sua história

As origens de Vila Seca remontam, no mínimo, ao período da romanização. A prová-lo estão as descobertas, neste lugar, em 1904, de cerâmica comum romana, designadamente, um jarro, um potinho, um pote e um prato, em depósito no Museu Nacional de Arqueologia. Também em Tubirei, uma localidade muito próxima de Vila Seca, foram descobertos vestígios do que se julga ter sido uma necrópole romana. Pode, até, tratar-se de um castro romanizado. Aqui foram encontradas, em meados do século XX, bilhas, jarros, pratos, mós de moinhos manuais, pregos, um colar de ferro e castanhas. Material depositado no Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (1).
Também sabemos que muito próximo do local passava uma via romana que, bifurcando-se da via de Marancinho, seguia por Vilela, Vila Seca e Corvachã em direcção às minas romanas do Teixo.
Considerando o que acabamos de dizer, há mesmo quem ponha a hipótese de Vila Seca, aproveitando as condições do vale drenado pelo rio Fornelo, ter sido um vicus ou até uma villa romana (2).

Vila Seca, Gondar - Amarante
Escrever sobre Vila Seca sem referir a sua maior referência - a olaria – seria algo impensável. Não fosse essa a razão do nome pelo qual foi conhecida a aldeia durante largos anos – lugar de Paneleiros!
Manuel Teixeira (oleiro)
Com origens que remontam ao século XVII – a arte terá sido introduzida em Gondar por migrantes oriundos de terras distantes como São Martinho de Paus, na altura freguesia de São Martinho de Mouros. A partir de então, o trabalho do barro tornou-se a principal ocupação e meio de sustento das famílias do lugar até meados do século XX. Contudo, a dureza da profissão e os parcos rendimentos que dela advinham fizeram com que, paulatinamente, a actividade da olaria fosse abandonada. Em 1945 ainda se registavam 18 rodas a funcionar em Vila Seca, Rio e Corujeiras. Em 1962 já só restavam 4 oficinas e 6 oleiros a trabalhar. Em 1991 já só trabalhava um oleiro em Vila Seca, Manuel Teixeira. Atualmente, em Gondar apenas existe um oleiro a trabalhar e de forma esporádica, César Teixeira (3). Todavia, recentemente, tendo-se candidatado ao concurso das “7 Maravilhas da Cultura Popular”, o Barro Negro de Gondar recebeu, pelo Conselho Científico, o selo de nomeado na categoria de Artesanato, em concurso a realizar ainda este ano de 2020. Bravo, Gondar!
 Unidos na defesa da sua aldeia e unidos, tantas vezes, pelos casamentos entre famílias de oleiros, estes homens e mulheres também souberam estar unidos na luta contra as investidas que, em 1809, as tropas do exército napoleónico faziam contra as populações, durante a II Invasão Francesa. Os “Paneleiros”, como eram designados, são por diversas vezes elogiados pela sua bravura e valentia. Um autor da época refere-se-lhes como os “esforçados Paneleiros” quando em Mesão Frio se apoderaram de “quatro caixões de pinho, dous baús de couro e duas malas”, pertences do general  Loison (4).

Capela de Nossa Senhora das Dores - Vila Seca
A ligação de Vila Seca aos “Pascoaes” é outro tema que importa considerar. Um irmão do poeta Teixeira de Pascoaes, Álvaro Pereira Teixeira de Vasconcelos, herdou a Casa do Encontro e fez dela a sua residência. Pouca importância isso teria, não tivesse ele enriquecido a sua capela, de Nossa Senhora das Dores; descoberto e divulgado todo o espólio da necrópole de Tubirei; e, não menos importante, mandado construir um engenho de azeite, a “menina dos seus olhos” que ele próprio dirigia. Não esqueçamos que o lugar era um dos principais produtores de azeite da freguesia.

Museu Rural do Marão - Vila Seca (Gondar)
Já que se fala do engenho, é nas suas instalações que está instalado o “Museu Rural do Marão”. Inaugurado a 21 de Fevereiro de 2009, o museu, fiel às origens do edifício, manteve todo o equipamento relacionado com o engenho e reuniu um vasto espólio que inclui todo o tipo de alfaias agrícolas, móveis e utensílios domésticos, artesanato, carpintaria, olaria, e muito mais. Enfim, um local que preserva e mantém viva a memória das gentes de Gondar.
Também no ensino Vila Seca merece destaque: na década de cinquenta começa a funcionar, com duas salas, a escola primária de Vila Seca. Encerrada, recentemente, para as atividades lectivas, foi-lhe atribuída uma nova missão: perpetuar a arte de modelar o barro preto de Gondar.

UDCG em visita de estudo com alunos das escolas
Por fim, o desporto. Fundada em 8 de Janeiro de 1980, a União Desportiva e Cultural de Gondar tem a sua sede e campo de Jogos em Vila seca. Com uma intensa actividade, quer no âmbito desportivo quer no âmbito cultural, a UDCG tem desempenhado um importantíssimo papel na formação da juventude gondarense, designadamente na ocupação dos seus tempos livres.
Em jeito de conclusão, podemos afirmar que Vila Seca, pelo seu passado, pelo seu contributo na afirmação de Gondar, tem lugar merecido no podium dos lugares mais importantes da freguesia.

(1)- MOREIRA, Miguel, “Necrópole Romana de Tubirei”, Sentir Gondar, blogue, 2019.
(2)- DIAS, Lino Tavares, "Tongobriga", Monografia, Ipar, 1997, Lisboa.
(3)- VAZ, Hugo Miguel Soares da Costa, “Barro Preto de Gondar: o design na olaria tradicional”, tese de Mestrado, Instituto Politécnico do Porto, 1918, pg. 49.
(4)- P. F. de A. C. de M., “História Antiga e Moderna da Sempre Leal e Antiquíssima Villa de Amarante”, Edição do Autor, 1814, pg. 89.

Miguel Moreira

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Lenda da Ponte da Aliviada


LENDA DA PONTE DA ALIVIADA


“Existe sobre o Tâmega, na região do Marco de Canavezes, uma velha ponte, a da Aliviada, à qual está ligada uma lenda curiosa e várias superstições populares.
Há muito tempo atrás, a velha ponte romana estava em vias de ruir. S. Gonçalo de Amarante, condoído pelas sucessivas catástrofes que a falta da ponte infligia às populações, decidiu construir uma nova que servisse toda a gente. O local da edificação foi escolhido por um anjo, que em sonhos indicou a Gonçalo em que ponto de Amarante deveria ser erguida para que bem servisse no presente e no futuro.
Uma outra razão, porém, levava o santo à realização da sua obra: competir com o Diabo, que andava a construir uma ponte identica na Aliviada.
A obra do Diabo estava perfeita e corria muito mais veloz do que a do Santo. Tendo consciência disto, o Diabo quis aborrecer S. Gonçalo obrigando-o a confrontar a sua ponte com a dele e convidou-o a visitar a obra da Aliviada.

Ao Santo agradou o convite, uma vez que andava cheio de curiosidade, e, por cortesia, retribuíu-o. O Diabo aceitou imediatamente, e quando viu a obra de S. Gonçalo desatou a rir. O homem, humilhado com as risadas desatinadas do outro, decidiu vingar-se, e como tinha aceitado visitar a obra da Aliviada, não quis perder mais tempo.
E lá foram de caminho, o Diabo conversando alegremente, o Santo intimamente preocupado com o que o esperava. Estava Gonçalo a pensar em como tiraria a sua desforra, quando o outro lhe apresentou a solução ao pedir-lhe que não benzesse a ponte. O Santo esteve a ponto de dar um salto de contentamento ante o que o Diabo lhe pedia. Com Esforço, dominou a sua alegria e prometeu não dar a benção à nova obra.

Ponte do Arco (Aliviada)
Realmente, frente à ponte da Aliviada, o Santo sentiu-se envergonhado: a sua obra comparada com aquela era mesquinha e amadorística. Assim, com mais razão ainda, começou a pôr em prática a sua vingança. Primeiro, elogiou muito a obra, depois passeou-se sobre a ponte, de um lado para o outro. E dando os parabéns ao Diabo pela bela obra que realizara, despediu-se dele levantando o seu cajado amodo de saudação, desenhando disfarçadamente uma cruz no ar, enquanto dizia:
- Se tu fosses por aqui, como vais por ali...
A ponte começou imediatamente a tremer até que ruíu com um estrondoso fragor. O Diabo, esse, correu dali para o alto de um monte, desatando a apedrejar o Santo e a vociferar palavras só dele conhecidas.
Na Aliviada existe um caminho para o Inferno e aí há tudo o que se dá ao Diabo, menos pão.
Diz a tradição que nesta ponte o Diabo frita sardinhas cujo chiadouro é ouvido por que passa.
A pessoa que cair à água debaixo da ponte, nunca mais aparece. Nesse mesmo sítio, pela meia noite em ponto, vagueia o seu fantasma embrulhado num lençol.
Segundo consta, quando um pai diz a um filho “diabos te levem!” à hora a que o padre diz na missa “Amem”, o Diabo leva a criança para a ponte da Aliviada. Depois é preciso lá ir o padrinho, a madrinha e um padre. O Diabo pergunta dentre os penedos:
- Como queres a criança? Como veio ou como está?
Se lhe respondem “como veio”, a criança sai bem; se lhe dizem “como está”, sai negra e comendo bichos, que é o sustento que o Diabo lhe dava.”

Frazão, Fernanda, Lendas Portuguesas, vol. 1, pp. 77-80, Ed. Multilar, Lisboa, 1988

domingo, 29 de março de 2020

Lenda do Penedo dos Cornudos

LENDA DO PENEDO DOS CORNUDOS


Na localidade de Travanca do Monte, em Amarante, há uma rocha com fama de desvendar se a sua parceira lhe é fiel ou infiel: o penedo dos cornudos.

“Fiel ou infiel? A resposta, em Travanca do Monte, é dada por uma pedra: o Penedo dos Cornudos. Na fria e amorável aldeia de Travanca do Monte, na Serra da Aboboreira, há uma volumosa rocha granítica. Os mais velhos dão-lhe um nome curioso: Penedo dos Cornudos. Porquê? Porque lhes dá luz acerca da fidelidade ou infidelidade das suas mulheres.

Travanca do Monte - Amarante
Dizem as pessoas de maior idade que ali iam os homens saber se as mulheres se estavam a comportar de acordo com a promessa católica que fizeram.
Uma pedra que mexe? Poderá ser essa a explicação para as tradições que giram à volta do Penedo dos Cornudos. No que toca ao ritual feito, ouvi duas versões: uma primeira, que defendia que todo o rapaz que ali passasse teria de olhar o penedo de cima a baixo, e atirar-lhe um pedregulho para garantir que a esposa não lhe seria infiel; e uma segunda, que afirma que todo o homem deveria atirar um pedregulho, sim, mas que esse pedregulho teria de se manter em cima do penedo, e por cada um que caísse, essas foram as vezes em que a mulher tinha sido infiel.
Não querendo dizer que a primeira versão está errada, parece-me mais provável que a segunda fosse a mais verosímil de se agarrar às crenças de Travanca do Monte – não só por se assemelhar mais a ritos já vistos noutras terras portuguesas, como também pelo número de pequenas pedrinhas que, com alguma dificuldade, conseguimos contar no seu topo.
É difícil descodificar este rito que se instalou por aqui. Conheço vários penedos ao qual ficaram associadas tradições ligadas à fecundidade, mas sempre alimentadas por mulheres – já falámos da Pedra ou Rocha dos Namorados, no Alto-Alentejo, e conheço outro muito semelhante no caminho para o Santuário da Senhora de Anamão, em Castro Laboreiro.
No entanto, o Penedo dos Cornudos, sobretudo se visto pelo lado norte, enquadra-se naquilo que se conhece, em Portugal, como uma Pedra Baloiçante, ou seja, uma rocha que, naturalmente ou por mão humana, está colocada em cima de uma outra.
Nesse sentido, conseguimos construir pontes entre este afloramento de granito e alguns outros que se encontram nestas situações particulares. As Pedras Baloiçantes, pela forma que têm (a pedra superior mal se encaixa na inferior), são famosas por se mexerem caso lhes toquemos, e em muitos casos, a forma como se mexem é, nas crenças locais, anunciadora do futuro.
Há dezenas de exemplos, maioritariamente no centro e no norte do país, de rochas que, pelo movimento que fazem, dizem à pessoa que a empurrou qual a direcção do seu destino em relação a determinadas situações da vida – sendo a sorte, o amor, e a morte, os temas mais desejados de ouvir.
O Penedo dos Cornudos, embora pesadíssimo e por isso difícil de se mover, poderá ir buscar o ritual de anunciar a fidelidade ou infidelidade de alguém a essas pedras que baloiçam e decidem fados, localizadas um pouco por todo o país.

O Penedo dos Cornudos hoje

Penedo dos Cornudos - Travanca do Monte (Amarante)
Na verdade, quando perguntei por ele em Travanca do Monte, apenas a terceira idade mo soube apontar. Perguntei por ele a um senhor que guiava um tractor, que parecia andar pelos cinquenta anos de idade, bem como a um outro com aparência de quarentão, e ninguém percebeu do que é que falava.
Fiz o mesmo a duas mulheres e a um homem que estavam seguramente acima dos oitenta e nenhum deles teve dúvidas quanto à pedra de que falava.
Se por um lado isso mostra que a tradição de se atirar pedras à rocha estagnou e se ficou por determinada geração, isso parece ser negado pelo facto de, em bicos dos pés, conseguirmos descortinar vários calhaus pequenos em cima do penedo.
Pessoalmente, penso que se este hábito tivesse cessado há dezenas de anos atrás, não se veriam tantos pedregulhos por lá – pelo declive e exposição ao vento que o rochedo tem, a maioria já teria caído.
De resto, sejamos ou não cornudos, e queiramos ou não atirar-lhe pedrinhas, poderemos sempre dirigir-nos lá porque conhecer Travanca do Monte vale a pena.
Se corrermos a aldeia toda, passando o cemitério e deixando-o do nosso lado direito, há uma estrada de terra batida que nos dirige até ao penedo. Ele fica no limite norte da terra, e de lá, não havendo nevoeiro, temos vista desabrigada para as neves invernais da mítica Serra do Marão.”

Fontes: VortexMag.net e portugalnummapa.com
Miguel Moreira

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Caminho Torres de Santiago


GONDAR NA ROTA DOS CAMINHOS DE

SANTIAGO


Não passa despercebida a sinalética que, instalada recentemente, colocou Gondar na rota dos caminhos portugueses de Santiago de Compostela.
Numa iniciativa da Câmara Municipal de Amarante, a sinalização deste traçado pretende reanimar um antigo caminho, conhecido por “Caminho Torres”, que tem início em Salamanca e que, depois de entrar em Portugal por Almeida, passa por Amarante e prossegue, por Braga, em direcção a Ponte de Lima, onde entronca no Caminho Central Português de Santiago.

Caminho de Santiago em Larim - Gondar

No troço que atravessa Gondar, o itinerário, depois de entrar na freguesia pelo lugar de Bailadouro, prossegue pela antiga estrada pombalina, atravessando os lugares de Cabana, Real, Ovelhinha e Larim, em direcção a Padronelo e Amarante.

Mapa do Camino Torres
Todavia, este não terá sido o percurso original, já que, à data em que Diego de Torres Villarroel  iniciou este "caminho" (1737), a estrada pombalina ainda não tinha sido construída. A estrada de Amarante para Mesão Frio seguia por Bustelo em direcção a Carneiro e Padrões da Teixeira e, pela Teixeira, chegava a Mesão Frio. 
A "Memória Paroquial de Gondar", em 1758, já referia o elevado número de viajantes que, a pé ou a cavalo, transitavam por esta estrada que atravessava Gondar, muitos deles peregrinos de São Gonçalo ou de Santiago: “por esta freguesia (Gondar) passa uma estrada do nascente ao poente, tão povoada de passageiros pedestres e equestres que com eles se comunicam não só o nosso Reino, mas também toda a Castela Velha e nessa com todas as suas Províncias, Reinos e cidades, mas também a França, a Itália, a Palestina ou Roma” .
Com a abertura da estrada pombalina, o caminho passou a fazer-se por esta estrada que, para além de encurtar o percurso e possuir melhor piso, era servida por algumas estalagens e albergues de apoio a viajantes e peregrinos.
O tramo do Caminho de Santiago em Amarante tem cerca de 28 quilómetros e resulta de um longo processo de investigação e de averiguação dos locais percorridos e frequentados pelos peregrinos ao longo dos tempos. Do percurso merecem destaque alguns locais e monumentos, designadamente a estrada pombalina e a estalagem em Carneiro, a aldeia de Ovelhinha, em Gondar,  a ponte e a igreja de São Gonçalo, com um altar dedicado a S. Tiago, e o Mosteiro de Telões.
Na cidade de Amarante, o traçado está indicado com sinalética vertical e horizontal (no piso) e o percurso é, em alguns troços, distinto para peregrinos que se desloquem a pé e para peregrinos que se desloquem de bicicleta ou a cavalo.

Para saber mais sobre o Caminho Torres consulte:

http://caminosantiago.usal.es/torres/
Miguel Moreira

segunda-feira, 25 de junho de 2018


CRUZEIRO DAS TRANDEIRAS – BUSTELO


Perdido entre os matos, na velha estrada medieval que, de Amarante, seguia para o Douro
Cruzeiro das Trandeiras - Bustelo
e Beira Alta, encontramos um bonito e bem conservado cruzeiro, ali mandado erigir em memória de um milagre que devolveu a fala a um menino que, acompanhado por "huma pessoa principal do reino", se dirigia em romagem a S. Gonçalo de Amarante.
Há, felizmente, documentos antigos que referem a existência deste cruzeiro e que aqui vamos transcrever:

“… No lugar de Trendeiras, no meio da estrada, está hum cruzeiro; e no alto hum escudo das armas dos Sylvas, muito gasto; e no pee do cruseiro, num letreiro que tomou três faces delle, muito gasto e difícil de se ler, mas esperamos conseguir a memoria do que ell cothem; e tendo-o, aqui a copiaremos com toda a pureza.” (1)

(1)-Craesbeech, Francisco Xavier da Serra, MEMÓRIAS RESSUSCITADAS da Província de Entre Douro e Minho no anno de 1726, Ed. Carvalho de Basto, Ponte de Lima, 1992, vol. II, pág. 58.

e na Memória Paroquial de São Mamede de Bustelo relata-nos o Padre Manoel Campello de Miranda (1758):


“… tem sim hum cruseiro no sitio de Trandeiras que fica na estrada que vai para o Douro e toda a Beira Alta, muito bem feito. E tem por Armas hum Leam e o tempo lhe tem gasto as letras que se nam podem ler, mas a tradissam que achei nesta freguezia de homens velhos que a seus antepassados tinham ouvido, que vindo huma pessoa principal do Reino com hum menino mudo que vinha em romaria a São Gonçalo de Amarante e avistando-se daquelle citio o convento do dito Santo, o menino falara e que para memoria do milagre lhe mandara fazer aquelle cruseiro.” (2)

(2)-Dicionário Geográfico de Portugal, Tomo 7, B 2, Cód. de Referência PT/TT/MPRQ/7, Torre do Tombo (1758).

Miguel Moreira (pesquisa e fotografias)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

LARIM

Larim, através da sua ponte quase tetracentenária, é a porta de entrada em Gondar.


Larim (Gondar - Amarante)

Este lugar, outrora designado de Vau (1), começou a crescer sobretudo após a construção da sua ponte, em 1630. Mais tarde, em 1867, o tabuleiro é alargado e a via transformada em “Estrada Real”, ligando as cidades do Porto e Vila Real. Mais recentemente, com a ligação a Mesão Frio e à Régua a partir da A4, Larim viu reforçada a sua estratégica localização na rede viária regional.
Larim possui uma bela praia fluvial, um aprazível parque de merendas, uma piscina (privada), cafés, restaurantes e tabernas. Enfim, tudo o que é necessário para uma visita, em família ou com amigos, que, certamente, registará no seu álbum de memórias.

Ponte de Larim (pormenor)
Descrição da ponte:

Ponte de granito em aparelho isódomo terminado em friso, sobre o qual assenta o tabuleiro horizontal, projetado para o exterior.
Possui quatro arcos de volta perfeita, iguais, com aduelas estreitas e compridas de formato regular. Os arcos são sustentados por pilares, estando os dos extremos assentes nas margens. Os pilares centrais são protegidos por talhamares a montante e por talhantes, superiormente escalonados, a jusante.
Guardas em gradeamento de ferro, apresentando nos encontros quatro pedestais encimados por plinto galbado e elemento ovóide. Um dos pedestais apresenta na face frontal uma inscrição moldurada “OP 1867” (data da adaptação do tabuleiro a estrada real).

Mestre pedreiro: João Lopes de Amorim (1630).

Miguel Moreira
(1)- sítio pouco profundo de um rio, onde se pode atravessar a pé.

sábado, 21 de maio de 2016

RIO E OUTEIRINHO 
- Gondar Profundo -


Localizados frente a frente e separados apenas pelo rio Carneiro, estes dois lugares, outrora terra de oleiros e agricultores, preservam ainda o seu carácter genuinamente rural.

Lugar do Rio - Gondar
Lugar do Outeirinho - Gondar

Percorra a pé os seus caminhos estreitos e sinuosos, observe as suas graciosas construções graníticas, pare sobre a pequena ponte e deixe-se embalar pelo som da água que corre célere por entre os seixos e, se for no verão, não deixe de se refrescar na praia fluvial da "levada nova" ou, simplesmente, contemplar a natureza que, aqui, se conserva no seu estado mais puro.



Miguel Moreira (texto e fotografia)