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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Capela de Nossa Senhora da Conceição (Aboadela)


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
Lugar de Rua – Aboadela

Mandada construir por Baltazar Gonçalves e sua esposa, Ana André, no ano de 1639, a Capela de Nossa Senhora da Conceição situa-se a meio da rua de Ovelha e Honra do Marão, em Aboadela. O facto de a Igreja Paroquial se situar na parte alta da freguesia, e porque, durante o inverno, naquela região do Marão o clima era demasiado rigoroso para os fiéis que teriam de subir a íngreme encosta até à Igreja, terão sido as razões para a sua construção. Desta maneira, os fiéis podiam participar nos actos litúrgicos num local mais próximo e central, para além de ser, certamente, o lugar mais populoso da freguesia. Nesta capela que, segundo Craesbeeck, apesar de pequena era "a melhor que há na dita honra", era celebrada missa quotidianamente.

Capela de N. S.ra da Conceição (1.º plano à esquerda), em Aboadela
Obedecendo aos cânones renascentistas, a capela exibe, sobre a ampla porta de entrada, um arco de volta plena, com remate em empena da respetiva fachada e apresentando as fachadas laterais remate em cornija. De notar, também, a qualidade, de fino grão, do granito utilizado e o seu esmerado talhe.
De planta retangular e de uma só nave, a capela prima pela sua simplicidade e harmonia, bem ao gosto renascentista. No interior, onde se acede por dois degraus, encontravam-se, segundo Craesbeeck, três campas "com letreiros que disem: huma = de Baltesar Gonçalves; outra = de Anna Andre; outra = de Gaspar Ramalho".
De notar, ainda, que o ano da sua construção, 1639, aproxima-se da data em que foi construído o cruzeiro à entrada da ponte, 1630, o que me parece não ter sido mera coincidência.
Em 1726, Craesbeeck refere-se a esta capela num texto que, pelo seu interesse, passo a transcrever: "A capella de Nossa Senhora da Conceipção he pequena, mas he a melhor que há na dita honra. Está junto às casas de Manoel Teixeira Botelho e há nella missa quotidiana, porque a instituiu e mandou fazer com a dita obrigação Balthesar Gonçalves e sua mulher Anna Andre, no anno de 1639, como consta de hum letreiro deficultoso de ler, que está sobre a porta della, no arco de pedra, na forma seguinte:
ESTA. CAPELLA. MANDOU. FAZER. BALTHEZAR. / G(ONÇA)L(V)E(S). E SUA. MOLHER. ANA. ANDRE. CO(M). MI(S)A. C(U)OTIDIANA. / 1639." (1)
Também a "Memória Paroquial" de Ovelha do Marão, redigida, em 1758, pelo Padre Alexandre Pinto da Silva, refere esta capela, aqui designada como "Ermida da Senhora da Conceição" e pertencente a Manuel António de Sousa.
Na posse de particulares, a capela, encontra-se, atualmente, desafeta do culto litúrgico e convertida em armazém agrícola. Louvo, no entanto, o facto de a fachada principal se encontrar bem conservada e o proprietário ter mantido a porta principal em madeira, condizente com a importância do imóvel.

(1)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, "Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho No Ano de 1726", Ed. Carvalhos de Basto, vol.II, pág. 312-313.

Para mais informação: https://pt.wikipedia.org/wiki/Aboadela
Miguel Moreira

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Santo Amaro de Ovelhinha

SANTO AMARO DE OVELHINHA


Cronologia: séc. XVIII
Material: madeira policromada
Descrição: imagem masculina de vulto pleno.

Santo Amaro de Ovelhinha - Gondar
Figura de pé, em posição frontal, assente sobre base marmoreada de formato hexagonal.
O braço direito flete e ergue-se à altura do peito, estando o braço esquerdo igualmente fletido. Segura com a mão esquerda uma cruz.
Pé esquerdo ligeiramente avançado.
Corte em tonsura apresentando cabelo castanho e longas barbas da mesma cor.
Veste hábito negro em finas e ritmadas pregas até aos pés, sobreposto por manto com capuz, apertado no peito e nas mangas por botões dourados. Igualmente dourada a faixa que debrua o manto e o capuz.
Especial destaque ao tratamento das mangas que se alongam até à altura dos joelhos.
Na base, a legenda S.to Amaro.
Localização: Capela de Santo Amaro, no lugar de Ovelhinha, Gondar.

História e vida de Santo Amaro: Festejado a 15 de Janeiro, Santo Amaro - também chamado de Mauro - nasceu em Roma no século VI. De origem patrícia, era filho do senador romano Eutichio.
Com apenas doze anos de idade sai de Roma para o Monte Cassino, trazido por seus pais que, o entregam aos cuidados de São Bento, fundador da Ordem Beneditina, para que ali termine a sua formação. Verificando-lhe elevadas qualidades, corresponde de tal modo às expectativas do seu mestre, que se torna o seu homem de confiança e em pouco espaço de tempo, vai sendo encarado pelos outros religiosos como um exemplo a seguir. São Bento em reconhecimento dessas virtudes, escolhe-o para trabalhar na escola de jovens, anexa ao mosteiro de Monte Cassino.
São Gregório exaltou-o por se ter distinguido no amor, na oração e no silêncio, e que, a exemplo de São Pedro, foi recompensado pela sua obediência andando sobre as águas. Conta-se que certa vez um colega seu, de nome Plácido, estava a afogar-se longe de todos, no açude de Subiaco. São Bento teve a visão do perigo e pediu a Amaro que fosse salvar o irmão religioso: “Irmão Amaro, vai depressa procurar Plácido, que está prestes a afogar-se”. Obediente, Amaro pediu a São Bento que o abençoasse e, sem hesitar e com a graça de Deus, correu e andou sobre as águas sem se afundar, agarrou Plácido pelos cabelos e trouxe-o para a margem não se apercebendo sequer, Amaro, de ter saído de terra firme. Quando Amaro deu conta do que sucedera atribuiu os méritos ao seu mestre, São Bento. Teve portanto mais fé do que São Pedro que, por duvidar, se afundou nas águas do mar de Tiberíades.
Reconhecido o valor de Amaro, que cumpria tão bem o ideal da Ordem (dos beneditinos), o Patriarca dos monges incumbiu-o de importante missão: difundir na Gália (França) a Regra de São Bento, o que ele executou nos primeiros vinte anos do século VII.
Com alguma naturalidade, foi sendo encarado como o herdeiro espiritual de São Bento e seu eventual sucessor. Segundo uma tradição, foi mesmo Amaro quem ficou a substituir São Bento quando este foi viver para o Monte Cassino. A ele é atribuída a abertura da Ordem beneditina em França e a fundação do mosteiro de Granfeuil (Saint-Maur-sur-Loire). 
Faleceu em 584.
Miguel Moreira

quarta-feira, 8 de maio de 2019


Pintura Mural na Igreja do Mosteiro

de Santa Maria de Gondar


Foi Armando de Mattos quem pela primeira vez divulgou as pinturas de Gondar, apesar do avançado estado de ruína em que o edifício se encontrava já. Corria o ano de 1953 e este autor publicou uma série de fotografias realizadas alguns anos antes dessa data. 

Pintura Mural - Igreja Românica de Santa Maria de Gondar

"Durante muito tempo sujeitas às intempéries, delas nada mais sobreviveu até hoje além da pintura do intradorso do nicho da parede fundeira da abside. Foram aqui identificadas duas campanhas distintas, ambas bastante tardias. A segunda, a seco, foi executada diretamente sobre a primeira sem a presença de qualquer reboco. Segundo os técnicos da empresa Mural da História, a primeira camada corresponde a uma campanha barroca, conforme denunciam os enrolamentos e os motivos vegetalistas com grandes flores. A segunda camada, com uma linguagem mais simples, mostra almofadas envoltas por triplo risco, técnica usada para criar volume. No entanto, em 1953, Armando de Mattos ainda pôde identificar quatro pinturas. Na parede fundeira da capela-mor, ao lado do altar, do lado do Evangelho, São Lucas (a); na parede testeira da nave este autor identificou São Cristóvão, “figura gigantesca”, como convinha, e de elevada qualidade plástica (b), do lado da Epístola; um santo bispo, enquadrado por moldura, “rematada ao alto por vistoso frontão nitidamente renascentista, em cujo tímpano se vê, igualmente pintada, uma desconhecida madona” (c); e, por fim, Santo Antão, acompanhado por legenda que o identifica e cujo valor epigráfico permitiu a Armando de Mattos datar esta pintura de finais do século XV ou de inícios do século XVI (d). Além disso, conseguiu ainda este autor reconhecer alguns vestígios de pintura noutros pontos da nave, em camadas sobrepostas, pelo que considera que estas deveriam ocupar a totalidade das suas paredes (Mattos, 1953). Estas pinturas terão sido concebidas ao longo do século XVI (e)." (1)

 Em 1979, António Cardoso aludiu aos frescos que ainda eram visíveis na capela-mor, do lado do Evangelho. Tratava-se de uma imagem de São João Evangelista, de desenho firme, em tons escuros. Numa filactera a legenda João Evangelista. Molduras e zonas ladrilhadas, com cores comidas pelo tempo, eram ainda visíveis. (2)

Igreja Românica de Gondar - Pintura Mural

"Atualmente, apenas se conserva pintura mural no arcossólio que enquadrava o altar-mor. No intradorso do arco foram realizadas duas campanhas de pintura. Uma com folhas de acanto enroladas e grinaldas de flores, dois motivos característicos, respetivamente, da talha de “estilo nacional” (c. 1690-1725) e da de estilo joanino (c. 1725-1750). Como, aqui, estes motivos aparecem conjugados, podem indicar uma obra de transição do gosto ao modo do “estilo nacional” para o gosto joanino, ou seja, é possível que esta pintura tenha sido realizada algum tempo depois de 1725. A intervenção sobreposta é mais tardia e parece ter o objetivo de criar molduras, cujas formas sugerem a influência de um gosto rococó (gosto que se afirma entre nós depois do início do reinado de D. José I, em 1750), estimando formas finas (e não volumosas, como as de André Soares, que tanta influência tiveram no Minho, e que podemos apreciar na parede que envolve o arco triunfal da sacristia do Mosteiro do Salvador de Travanca, também no concelho de Amarante)." (3)

(1) – Lúcia Rosas e outros, “Rota do Românico”, 2014, pág. 299-316.
(2) – António Cardoso, “ A Igreja Românica de Gondar”, Câmara Municipal de Amarante, 1979, pág. 15.
(3) - Paula Bessa, “Pintura Mural na Rota do Românico”, edição Rota do Românico, 1.ª edição, 2012, pág. 21.

Notas:

(a) Segundo o autor, esta composição dataria do século XVI. Pelo facto de surgir representado com a cabeça de perfil e com auréola, Armando de Mattos (1953: 25) liga esta obra à oficina de Outeiro Seco (Chaves).
(b) A ausência do Menino pode, talvez , ser explicada por ter desaparecido parte da pintura (Mattos, 1953: 25).
(c) A figura, representando um santo bispo de uma qualquer ordem, surge mitrada e a segurar nas mãos um báculo e um livro. Poderá ser uma representação de São Bento ou de São Gonçalo ou, ainda, de Santo Agostinho (Mattos, 1953: 25).
(d) Além do caráter ingénuo do desenho, o autor valoriza o “interesse etnográfico” desta representação de Santo Antão por ser aqui “portador do símbolo da sua atitude de “advogado do vivo”. Como diz o povo, constituído por uma coleira com seu chocalho, que lhe pende do braço esquerdo” (Mattos, 1953: 26).
(e) Tendo em conta a má qualidade das fotografias editadas por Armando de Mattos e o facto de, para cúmulo, deixarem perceber a possibilidade de ter existido uma sobreposição de camadas, Luís Urbano Afonso (2009: 365-366) considera ser complicado proceder à filiação das pinturas destruídas dentro da produção de uma das oficinas que laborou na região, pelo que, na impossibilidade de dá-las a conhecer através da imagem, também nós optamos por lhes fazer apenas uma breve referência, isenta de qualquer desenvolvimento mais profundo.

terça-feira, 20 de novembro de 2018


CAPELA DE NOSSA SENHORA DO CARMO

OVELHINHA - GONDAR

"Capela de planta longitudinal simples, de espaço único, com cobertura homogénea em telhado de duas águas. Fachadas em alvenaria de granito aparente, flanqueadas por cunhais apilastrados toscanos, sobrepujados por pináculos galbados, assentes sobre plintos paralelepipédicos.

Capela de Nossa Senhora do Carmo (Ovelhinha - Gondar)
A fachada principal remata em frontão curvo entrecortado, interrompido por cruz latina sobre acrotério. É rasgada por portal de verga reta, com moldura de cantaria simples, rematada por cornija seguida de tabela almofadada, e frontão curvo. No mesmo eixo abre-se, interrompendo o friso da fachada, óculo protegido por ferro e rede. 
Fachada lateral esquerda rasgada por fresta retangular em capialço, parcialmente entaipada. 
Fachada lateral direita rasgada por porta e janela de verga reta, simples, entaipadas, encontrando-se esta fachada praticamente oculta pela fachada do edifício anexo, de construção posterior, quase encostada, deixando um pequeno espaço sombrio e escuro, com cerca de trinta centímetros. 
Fachada posterior cega, enquadrada por pilastras toscanas, e impostas salientes, firmadas por pináculos idênticos aos da fachada principal; remata em empena curva, interrompida por cruz latina sobre acrotério.

Capela de Nossa Senhora do Carmo de Ovelhinha (interior)
Interior com paredes em alvenaria de granito, pintadas de branco, com pavimento em lajeado de granito e cobertura em caixotões de madeira, pintados junto ao retábulo, com representações eucarísticas. Junto à porta principal, do lado direito apresenta pia de água benta, em cantaria, de perfil curvo, gomada e com bordo saliente. Coro alto de madeira, com guarda formando falsos balaústres também de madeira.

Retábulo (pormenor)
Do lado da epístola, púlpito de madeira, com base quadrangular pintada com fingidos marmóreos, assente sobre modilhão também de madeira, guardas plenas de madeira policroma, pintada com motivos florais, com acesso por escada também de madeira encostada à parede.
Sobre supedâneo granítico, de três degraus centrais, enquadrados por peanhas quadrangulares encimadas por anjos tocheiros, eleva-se retábulo-mor em talha dourada, de planta reta, e um eixo, definido por colunas torsas, decoradas com meninos, parras e folhas de uva e pássaros fénix, e capitéis coríntios, intercaladas por apainelados decorados por motivos vegetalistas e medalhões de folhas de acanto, que sustentam entablamento. 
Ao centro abre-se nicho em arco de volta perfeita com fundo ornado com motivos vegetalistas, albergando imaginária assente sobre base profusamente decorada com cabeças de anjos e meninos envolvidos por grinaldas e acantos. Remate em arquivoltas assentes sobre o entablamento, igualmente decoradas com cabeças de anjos, acantos e motivos florais. Banco marcado pelas mísulas paralelepipédicas com meninos, que sustentam as colunas, intercaladas por apainelados decorados com folhas de acanto, integrando sacrário.
Mesa paralelepipédica, com frontal lavrado com grinaldas de flores, acantos, fénix e ao centro, uma cabeça de anjo".

Fonte eletrónica:

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=17130

Fotografia: Miguel Moreira

quarta-feira, 19 de julho de 2017


"POLICROMIAS"


Em Gondar, 
a arte anda pelas ruas!


Moinhos do Salto (Gondar)


Porta  (Lugar das Chedas - Gondar)

Ponte e moinho da Casa do Ribeiro - Ovelhinha (Gondar)

Estendal em Ovelhinha - Gondar

Espigueiro (Vilela - Gondar)

Pintura mural (Igreja Românica de Gondar)

Soenga (Vila Seca - Gondar)



Uma ideia "Mem Gundar"
Recolha e selecção: Miguel Moreira





segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

PINTURA EM VIOLA AMARANTINA ALUSIVA A GONDAR

Gondar inspira este expressivo trabalho de Joana Antunes, evidenciando a igreja do Mosteiro e S.ta Maria de Gondar (N.a Senhora do Leite), personificada na figura de mulher. Parabéns!






 Nota: "A Viola Amarantina é umas das várias violas regionais portuguesas que vão resistindo à evolução, mantendo praticamente inalterada a sua estrutura original.
É uma viola de 5 ordens de cordas duplas, as 3 primeiras afinadas em uníssono e as restantes em oitavas. A escala é plana e em face com o tampo, facilitando assim o “rasgado” e tem a particularidade de ter alguns meios pontos já sobre o tampo (além dos 10 da escala) apenas para as cordas mais agudas permitindo assim aumentar a amplitude.
Talvez pelo facto de a aprendizagem da Viola Amarantina se basear na tradição oral, esta foi sendo tratada (por deturpação) como uma Viola Braguesa no que diz respeito à afinação, contudo, assim não é. Constatamos que há neste momento um esforço significativo em preservar a identidade desta viola, recuperando e registando as diferentes afinações e modos de tocar.

A boca da Viola Amarantina, constituída por 2 corações separados, está associada a uma história de amor ao estilo de Romeu e Julieta, vivida na cidade de Amarante".
in portoguitarra.com

sexta-feira, 17 de junho de 2016

"O ARTESÃO"

Eduardo Teixeira Pinto, fotógrafo amarantino, soube, como poucos, registar, com grande realismo, o quotidiano das nossas gentes que nos legou em inúmeras fotografias, algumas delas premiadas nacional e internacionalmente.

"O Artesão" (fotografia de Eduardo Teixeira Pinto)
“O Artesão”- a foto que aqui apresentamos - retrata, muito provavelmente, um oleiro de Gondar na sua árdua tarefa de moldar o barro.

Aqui fica a nossa homenagem ao mestre Eduardo e a todos os oleiros que, no passado e no presente, contribuíram para que o nome de Gondar fosse conhecido aquém e além fronteiras.



Eduardo Teixeira Pinto
Eduardo Teixeira Pinto nasceu na freguesia de S. Gonçalo, Amarante, em 1933.
Filho de fotógrafo, começou a tirar as suas primeiras fotografias profissionais em 1950, tornando-se expositor desde 1953 em vários salões de fotografia, nos cinco continentes.
Foi membro ativo de diversas comunidades de fotógrafos, nomeadamente “Associação Fotográfica do Porto”, “Grupo Câmara” (Coimbra) e da Associação Fotográfica do Sul (Évora).
Falecido em 2009, Eduardo Teixeira Pinto deixou-nos um espólio fotográfico de valor incalculável de que faz também parte uma vasta coleção de máquinas fotográficas.
Miguel Moreira

sexta-feira, 10 de junho de 2016


NOSSA SENHORA DO CARMO DE OVELHINHA

Desconhecida de muitos, a capela de Nossa Senhora do Carmo, em Ovelhinha, é uma pequena jóia do património artístico e cultural de Gondar.


Retábulo da Capela da S.ª do Carmo (Ovelhinha - Gondar)

De estilo barroco, o seu retábulo, em talha de madeira dourada e policromada, impressiona pela sua exuberante decoração baseada principalmente em parras e folhas de acanto que, espalhando-se e cobrindo todo o conjunto, se misturam, em perfeita harmonia, com grande quantidade de anjos, aves (fénices) e meninos alegóricos (“putti”). De cada lado, duas colunas torsas profusamente decoradas, com capitéis coríntios, suportam o entablamento que serve de apoio a dois arcos concêntricos que rematam o conjunto. 


Nossa Senhora do Carmo (Ovelhinha - Gondar)

No centro, um nicho alberga a imagem de Nossa Senhora do Carmo, também ela de estilo barroco.
Dois anjos tocheiros delimitam o corpo da capela e o espaço do altar. E, do lado do Evangelho, um púlpito, com uma expressiva decoração com flores de acanto, completa o cenário.
De salientar o equilíbrio e a harmonia de todo o conjunto, quer na decoração quer na forma, que julgamos poder datar-se da 1.ª metade do século XVIII.

Nossa Senhora do Carmo:


Nossa Senhora do Carmo tem origem no séc. XII, quando um grupo de eremitas se fixou no Monte Carmelo, na Palestina, iniciando um estilo de vida simples e pobre, seguindo o exemplo de Cristo. Ali construiram uma capela em honra de Nossa Senhora.
Tempos depois, os Carmelitas mudaram-se para a Europa, tendo passado por grandes dificuldades e perseguições. Em 16 de Julho de 1251, quando rezava no seu convento de Cambridge, Inglaterra, Simão Stock, superior geral da Ordem, pediu a Nossa Senhora um sinal de proteção. Apareceu-lhe, então, Nossa Senhora, trajando o hábito dos Carmelitas, que lhe ofereceu o escapulário, dizendo: “Recebe, filho amado, este escapulário. Todo o que com ele morrer, não padecerá a perdição no fogo eterno”.

Miguel Moreira (texto)
João Sardoeira (fotografia)

segunda-feira, 11 de abril de 2016

CAPELAS E ORAGOS DE GONDAR

Em 1758, segundo relatório do padre António Coelho Pedroza, nas “Memórias Paroquiais de Gondar”, existiam na freguesia cinco capelas:
“Tem esta Freguesia sinco capellas, huma da Freguesia que ademenistra o Excelentíssimo Conde de Redondo como Comendador e senhor dos frutos desta comenda, cujo orago hé Santo Amaro, em cujo dia acorrem a sua capella muntos devotos das vizinhanças com suas esmolinhas".

Capela de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)
"No lugar de Ovelhinha tem huma capella munto moderna feita a expensas do Doutor Manuel Pereira Valente, natural desta Freguesia e assistente na cidade do Porto pella sua grande Literatura …"


Capela de Nossa Senhora do Carmo (Ovelhinha - Gondar)


"Tem outra no lugar da Salida com  invocaçom do senhor Santo António que mandou eregir o Padre  Gonçallo Nunes Pereira Valente, vigário de Sam Martinho de Carvalho de Rei".


Capela de Santo António (Casa da Saída - Gondar)

"No lugar de Vilella há duas capellas, huma a mais antiga seu orago Sam João Baptista de que hé adeministradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstimo que há poucos annos  mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho.” (1)


Capela de S. João Baptista (Vilela - Gondar)

Quatro destas capelas (S.to Amaro, S.ra do Carmo, Santo António e S. João Batista) conservam-se; a de São João Crisóstomo, em Vilela, foi dessacralizada; e, entretanto, construiu-se a de Nossa Senhora das Dores, na Quinta do Encontro, em Vila Seca.

(1)- P.e António Coelho Pedroza in “Memórias Paroquiais de Gondar”, 1758.

Fontes eletrónicas:

- capela de São João Crisóstomo (Vilela): http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1272757&ht=
- capela de S. António (Saída): http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1289187&ht=carvalho
- capela de São João Batista (Vilela): http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1266249&ht=joao


Miguel Moreira (texto e fotografia)

quarta-feira, 9 de março de 2016

O CAMPANÁRIO DA IGREJA ROMÂNICA DE GONDAR

António Coelho Pedroza, nas "Memórias Paroquiais" (1758), descreve-nos desta forma maravilhosa o campanário e os sinos da igreja:

"Nesta parochia muito antigua há um campanário com seus sinos de vox muito suave e sonora, quando convidam os freguezes à palavra de Deus e a ouvir missa, mas triste e fúnebre quando os chama à sepultura.
O mais piqueno conserva ainda hoje o seu timbre porque sempre foi pouco gasto, o mayor foy bello contralto, mas hoje por quebrado ficou em tenor desemtoado, mas nas festas sempre participa de suas glórias quem os repica.”

Campanário (Igreja Românica de Gondar)


O campanário ergue-se na fachada lateral sul da igreja, sobre a cobertura. É um campanário de dupla sineira de arco de volta perfeita, assente em impostas salientes, encimado por cornija e coroado por dois pináculos piramidais.
Encontra-se, na atualidade, despojado dos seus sinos.

Fotografia: Rota do Românico
Fonte: Memórias Paroquiais de Gondar (1758)

Miguel Moreira

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

CAPELA DE SANTO AMARO DE OVELHINHA

As referências conhecidas à capela de Santo Amaro, em Ovelhinha, remontam ao início do séc. XVIII, mas é bem possível que a sua construção seja anterior. Na sua obra “Memórias Ressuscitadas…”, Craesbeeck, no ano de 1726, diz, referindo-se à Igreja matriz, que esta tem “huma capella filial de Santo Amaro, em o lugar de Ourelinha” e nas “Memórias Paroquiais” de 1758, António Coelho Pedroza faz referência à Capela de Santo Amaro, administrada pelo comendador Conde do Redondo (note-se que Gondar era Comenda da Ordem de Cristo). Não existe, por isso, a menor dúvida sobre a importância desta Capela onde, pela sua localização no centro da paróquia, era celebrada missa dominical e outros sacramentos.

Capela de santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)

As “Memórias Paroquiais” (1758) sublinham também a realização, neste local, de uma feira franca anual “de javalis mansos e coisas comestíveis”, no dia de santo Amaro, a 15 de Janeiro.
Altar de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)
A capela, simples e austera, denota os parcos recursos da paróquia aquando da sua construção, não possuindo elementos de valor artístico que mereçam ser destacados.
O altar, de feição neoclássica, tudo indica não ter sido construído de raiz para esta capela, pois o seu formato e dimensão não se coadunam com a parede à qual está adossado. No centro possui um nicho envidraçado, que alberga a imagem do santo, ladeado por duas colunas coríntias estriadas e encimado por um remate ondulado, no qual se insere uma pomba, símbolo do Espírito Santo.
Quanto à imagem de Santo Amaro, trata-se de uma escultura em madeira policromada, do século XVIII, assente sobre uma base marmoreada de formato hexagonal. Segura com a mão esquerda uma cruz, apresenta cabelo castanho com corte em tonsura e longas barbas da mesma cor e veste hábito negro sobreposto por manto com capuz, segundo as regras da Ordem de S. Bento à qual pertenceu.
Concluindo, pode dizer-se que a capela de Santo Amaro interessa mais pelo seu significado histórico-patrimonial do que pelo seu valor artístico.



Miguel Moreira

terça-feira, 29 de setembro de 2015

CRUZEIROS DE GONDAR


Cruzeiro da Igreja do Mosteiro de Gondar
Gondar possui dois cruzeiros paroquiais: um no Mosteiro, junto da Igreja românica, e outro nas proximidades da nova Igreja Paroquial. De épocas diferentes, possuem também caraterísticas distintas.
Utilizados desde a Idade Média, os cruzeiros paroquiais simbolizavam a autoridade paroquial, o poder eclesiástico instituído. Eram, tal como os pelourinhos, padrões de afirmação do poder e símbolos de jurisdição paroquial.
A maior parte dos cruzeiros têm uma estrutura comum, sendo constituídos por uma plataforma ou soco, de dois ou mais degraus, um pedestal, uma coluna e uma cruz.

Os de Gondar são em granito e apresentam as seguintes caraterísticas:

Cruzeiro Paroquial de Gondar


- O do MOSTEIRO, data da Idade Moderna (séc. XVII/XVIII) e é constituído por um soco de três degraus de planta quadrada e um plinto quadrangular com chanfros oblíquos, no qual assenta a coluna de fuste liso e de secção octogonal, com capitel cúbico com chanfros. A cruz é do tipo latino, lisa e de secção octogonal.

- O da IGREJA PAROQUIAL, data do início do séc. XX e é constituído por um soco de três degraus de planta quadrada, onde assenta um pedestal trapezoidal com cornija. Não possui coluna e a cruz, latina, simples e de braços quadrangulares, encaixa diretamente no pedestal.

O cruzeiro encontra-se num pequeno largo, à face da estrada, onde as procissões costumam dar a volta.

Existem, em Gondar, outros tipos de cruzes e cruzeiros de que falaremos oportunamente.



Miguel Moreira


sábado, 5 de setembro de 2015

JOALHEIRO RECRIA BARRO PRETO DE GONDAR

A olaria de barro preto de Gondar, cuja origem se perde no tempo e que tinha como principal centro olárico o lugar de Vila Seca (Gondar), tem conquistado, nos últimos tempos, uma nova dimensão – a dimensão artística.


O joalheiro Daniel Oliveira, em colaboração com o artesão César Teixeira, está a criar uma colecção de peças de joalharia, que têm por base a cor e as texturas das peças da olaria de Gondar.
Uma das artes tradicionais mais emblemáticas do concelho de Amarante, a olaria de Gondar com a sua técnica de cozedura e escurecimento do barro – na soenga – constitui o modo mais ancestral, elementar e natural de todos os tipos de cozedura para cerâmica.
Processo de cozedura das peças na soenga
As peças, de formatos e finalidades diversas, são sobretudo panelas, cântaros, púcaros, alguidares, chocolateiras, vinagreiras e outros objetos do quotidiano nas casas portuguesas.O barro utilizado, logo que extraído, é crivado para a gamela e amassado, num ato em tudo semelhante ao amassar do pão. Depois de culdrado, ou seja, depois de lhe serem retiradas as impurezas, é centrado no tampo da roda e modelado. Neste processo, usam-se os fanadoiros, o esquinante e trapos humedecidos com água. À modelação segue-se a decoração, simples, usando-se, geralmente, o “picado” - pequenos pontos feitos por punção, sem orientação pré-definida, com semelhança nas cerâmicas medievais.
Peças de olaria de barro preto de Gondar
Moldadas e decoradas, as peças são postas a secar durante alguns dias e, posteriormente, cozidas na soenga (forno escavado na terra). Esta operação, que demora cerca de 2 horas e meia, compreende 3 momentos distintos: 1º - aquecimento prévio das peças, para que não rachem quando submetidas a altas temperaturas; 2º - cozedura propriamente dita, em que a temperatura sobe até cerca de 900º e a louça fica ao rubro; 3º - abafamento, em que a fogueira é extinta e as peças cobertas com caruma e terra, bem compactada, para que não haja entrada de ar e o fumo penetre na louça dando-lhe a cor negra que lhe é característica.
César Teixeira (artesão)
César Teixeira, o único oleiro da freguesia de Gondar, é também o único artífice conhecido que, em Portugal, produz louça de barro, preta, modelada numa roda baixa e cozida numa soenga.
Joias de barro preto de Daniel Oliveira (joalheiro)
Estão de parabéns César Teixeira (artesão) e Daniel Oliveira (joalheiro) pela iniciativa e Gondar que vê o seu nome e as suas tradições reconhecidas e perpetuadas.
Miguel Moreira