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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

SALVADOR DO MONTE: a primitiva igreja e um insólito acontecimento

Documento da maior importância para a história da freguesia de Salvador do Monte, a “Memória Paroquial”, redigida em 1758, dá-nos, entre outras coisas, preciosas informações sobre a história da sua igreja, a saber:

“Esta igreja (Salvador do Monte) estava nos seus princípios situada no outeiro mais alto que tem esta freguezia donde se mudou para o sítio donde hoje está. Longe das casa da residencia hum tiro de espingarda, mas tem pegadas humas casas que mandei fazer em que mora o cura. Foy mudada a igreja no anno de 1646 por ordem do senhor Bispo que entam era do Porto o Ill.mo D. Joam de Souza; apareceu no altar mayor uma conta de algarimo romano de que constava ser fundada a Igreja no dito monte no anno de ICXXII. Esta hoje a igreja para baxo do dito monte, mas em sitio agreste ...” (1)

Igreja de Salvador do Monte
Sobre o mesmo assunto, já em 1726, Craesbeeck nas suas “Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho” dizia-nos o seguinte: 
“a igreja de São Salvador do Monte he abbadia do Padroado Real. Não tem sacrário he seu abbade hoje o Padre Alexandre de Queiros e Sousa. Tem somente huma capella fillial, a saber: Nossa Senhora de Mozellos. Não tem mais cousa digna de memoria em razão de que esta igreja foi mudada do sitio do alto do monte de Nossa Senhora de Louredo, para perto da residencia dos abbades, que he um citio muito mais abaixo do dito monte; e na antigua ficaram as campas das sepulturas, que haviam, e não são poucas; e ahi mesmo se levantou hum cruseiro de pedra, pera memoria de que naquele citio estivera  antiguamente a igreja e fora naquelle lugar sagrado; e no lugar de Louredo está no caminho hum padrão das almas, todo pintado, com sua caixa para as esmollas, que deixão os passageiros.” (2)

Que a primeira igreja de Salvador do Monte se situava no alto do monte e que, em 1646, foi transladada para o local onde hoje se encontra, perto da residência dos abades, é o que se pode concluir dos relatos destes dois importantes documentos.

Também sobre a mesma igreja, o “Archivo Histórico de Portugal”, publicado em setembro de 1889, relata-nos um insólito acontecimento que passo a transcrever não tanto pela sua originalidade mas pela minúcia da descrição, a saber:

“Em 29 de Maio de 1745, uns sacrilegos entraram na igreja de S. Slvador do Monte, e arrombando a porta do sacrario, tiraram d’ella o ciborio de prata, que levaram, espalhando as sagradas particulas pelo altar e pelo chão, achando-se umas nos pires das galhetas, outras n’um vazo e uma debaixo da pedra d’are. Levaram tambem a ambula dos santos oleos, que era de estanho, derramando-os sobre as mesmas particulas. De uma imagem de nossa senhora tiraram a corôa e a quebraram com grande incedencia, depois de conhecerem que era de latão.

Chegou esta notícia à cidade do Porto e logo d’ali sahiu o vigário geral com alguns desembargadores do senado, a syndicar do caso. A 18 de junho mandou o bispo publicar uma pastoral, para que na sé d’aquella cidade se fizessem preces com o Sacramento exposto, na segunda feira, 25 do dito mez, nos dois dias seguintes, e nos de 22, 23 e 24, em todas as igrejas do Porto e seus suburbios, como tambem em todas do bispado, depois de lhes chegar a noticia da mesma pastoral.” (3)

Considerando a sua importância e significado, publicaremos, oportunamente, na íntegra, a “Memória Paroquial de Salvador do Monte”, no ano de 1758.

Miguel Moreira

(1)- https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4240829

(2)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, “Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho no ano de 1726”, Vol. II, pág. 69, Edições Carvalho de Basto L.da

(3)- https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/ArchivoHistorico/ISerie/ISerie_master/ArchivoHistoricodePortugal_SerieI.pdf

sábado, 19 de dezembro de 2020

Memórias Paroquiais da Vila de Amarante (1758)

 

Dando continuidade à publicação das Memórias Paroquiais das freguesias que compõem o concelho de Amarante, publicamos, hoje, a da Vila de Amarante (S. Gonçalo), datada de 22 de Maio de 1758.

Dada a sua grande extensão dispensamo-nos de fazer qualquer comentário introdutório.

Villa de Amarante  

Esta villa de Amarante está situada em a Província de entre douro e minho Arcebispado de Braga Primaz, termo da comarqua da Villa de Guimaraiz donde dista sinco legoas entre o nascente e o meyo dia. Compoence de huma só rua muyto comprida e estreita com algumas travessas e bairros que a ella vam desembocar. Corre do nascente ao poente tendo principio a sua demarcaçam e destricto em hum cruzeiro que está no meyo da ponte do Rio Tâmega e deste athe outro cruzeiro que esta nos montes de Pinheiro adiante da forca na estrada que vay para Guimaraiz, tem de comprido 2120 varas em altura de quarenta e hum grãos e vinte e nove minutos de latitude. Esta situada em as apraziveis margens de hum valle o pe do rio Tâmega e sercada em distancia da eminência de alguns montes. Parte do nascente com o rio Tâmega do poente com a freguesia de Sam Veríssimo concelho de Santa Crus tendo por divisam hum piqueno regato e do norte com freguesia de Som João de Gatam concelho de Cirollico de Basto, em hum cruseiro que esta nos montes junto a quinta de Pascoaiz na estrada que vay para o mesmo concelho. A sua antiga fundaçam querem os autores fosse dos Turdetanos da Lusitânia 360 annos antes da vinda de Christo sem lhe descobrirem outro nome athe que ocupando os romanos os povos Bacraros a cuja jurisdiçam esta villa pertencia, o capitam Amaranto lhe deu o seu nome que athe o presente conserva. Jas sepultado este nobre cappitam romano no hospital de Sam Marcos da cidade de Braga com estas letras AMARANTVS SENECIONIS. Aqui jas sepultado Amaranto H.S.E. Seneçiones. Consta que totalmente foy destruída mas como neste reyno entraram varias imnundacoens de Bárbaros nam se sabe quais foram os instramentos da sua total ruina; nesta forma se conservou athe o anno de 1250, sendo seu primeiro habitador Sam Gonçallo em huma Capellinha de Nossa Senhora da Assumpçam em hum rochedo proximo eminente ao Rio Tâmega; neste sitio viveo alguns annos e fallecendo nelle foy sepultado e como a devoçam dos fieis comcorreyo a vesitar o sepulcro do Santo, foram povoando a villa que hoje se conserva.

Foy o transito de Sam Gonçallo a huma sesta feyra dez do mes de Janeyro de 1259, governando a Universal Igreja o Papa Alexandre 4.º e reynando em Portugal o Senhor Dom Afonço 3.º e a Matropolli Primaz o senhor Dom Martinho Geraldes.

O Orago desta villa he Sam Gonçallo e antigamente foy a matriz a Igreja da Freguesia de Sam Veríssimo próxima a ella pois também o Parocho della he por annual apresentaçam do Padre Prior e Relligiosos deste convento, que disfrutam os dízimos e como o povo da villa se foy aumentando e dividiram as freguesias.

Esta villa he del Rey Nosso Senhor deste Reyno de Portugal, e nam reconhesse outro senhor; em o Arquivo da Camera desta villa se acha hum termo de posse asinada pello Provedor da Torre de Moncorvo, Joam de Olliveira e notifícaçam que fes a camera em como o povo desta villa ellegia a Sua Magestade por Senhor della e nam queriam outro Senhor algum, em 10 de Setembro de 1639.

Tem a villa perto de quinhentos fogos; 1350 pessoas entre mayores e menores.

Esta situada em hum valle ainda que a rua tem alguma sobrada della e nam descobre mais do que montes, valles em redor e algumas casas dispersas de que nam se faz mençam por deminutas.

A villa nam tem termo, lugares, nem aldeyas, so algum lemitado arabalde como he a Vazeira, Real, e Ordiapires.

A sua Parochia he a mesma Igreja do Convento de Sam Gonçallo dos Relligiosos de Sam Domingos a qual esta o pé do Rio Tâmega, em o principio da villa da parte do nascente que antigamente foy uma Capellinha que deu a Rainha Donna Catarina molher Del Rey O Senhor D. Joam 3.º aos Relligiosos no anno de 1559. A Igreja he magnifica e foy principiada para três naves que se nam concluíram pois o corpo da Igreja esta forrado de madeira. Tem nobre Capella mor e bom arco cruzeiro de arcaria e hum elevado zimbório; a Capella mor he toda de abobada, com huma grande tribuna ao moderno detalhe dourada com seu trono e sacrário da comunidade, com duas collunas de quada parte entre as quais da parte de Epistolla esta Sam Domingos e do Envangello de Sam Francisco. O altar esta alto e com bom desafogo, porque do pavimento da Capella athe o supe do meio do altar se sobe huma escada que tem 13 degraos, aos lados do altar tem duas grades frestas de vidraças goarnecidas de talha douradas e dous Prisbitérios também emtalhados, e dourados debayxo dos quais no pavimento da Capella da parte da Epistolla esta hum altar de mármore goarnecido de prata e nella collocada a millagrosa imagem de Sam Gonçallo a qual tem habito e capello de prata batida na qual foy ingaltado o seu corpo no anno de 1681, na presença da Camera e testemunhas. Em correspondência deste da parte do Envangelho estam humas grades e dentro huma capellinha com retabollo, paredes, e tecto de painéis emtalhados e dourados e no meyo della posto em forma que se circunda, esta hum tumollo de pedra e no altar a imagem de Sam Gonçallo; he tradiçam, que no lugar desta capellinha estava a de que falamos onde se sepultou o Santo; e que no mesmo lugar se conserva na frente desta capellinha esta huma lampeda continuamente acesa.

No arco cruzeiro estam duas soberbas collunas, e sobre os capiteis dellas por remate estam as duas collunas da Igreja Sam Pedro em huma e na outra Sam Paullo e nas bases delias estam huns letreiros que sam os seguintes = Este convento fundou El Rey D. Joam Terceiro deste nome a honra do Glorioso Sam Gonçallo da Ordem dos Pregadores, digo da Ordem de Sam Domingos no anno de 1542 e depois El Rey D. Sebastiam seu neto alcansou licença do Papa Pio 4.º no anno de 1561, digo de 1562, para nestes Reynos se poder resar do dito Santo e no anno de 1595 El Rey D. Fellipe o 3.º deste nome e primeiro de Portugal mandou declarar por provisam sua que esta registada no libro da Camera desta villa como he Padroeyro deste Convento; e como tal defende que na Capella mor delle senam possa interrar ninguém como mais largamente consta da dita provisam que esta no arquivo deste convento por Ordem delle Rey O Senhor D. Joam 3.º seu fundador no anno de 1593. Lançou a primeira pedra o Padre Frei Joam de Ledesma vigário e filho da mesma rilligiam de Sam Domingos.

Tem o corpo desta Igreja oyto Capellas quatro de quada lado metidas em arcarias de abobeda com boa vallentia tendo a porta principal vezinha a hum rochedo que se mete de permeyo hum caminho de carro para a servidão do convento e hum cuberto de arcaria em que se sustenta o coro e a mam esquerda a portaria do convento.

Intrandosse pella porta principal pello lado direyto em hum arco debayxo do coro esta hum retabolluzinho de pinturas que he da Senhora da Guia.

Logo a primeyra Capella da Senhora do Popullo, onde esta a imagem de Sam Pedro Mártir, esta capella he dos Relligiosos.

No segundo arco esta a Capella de Sam Jacinto o Santo he de pintura, tem retabello de talha dourado, he seu Padroeyro Joam Ignacio Teixeira de Vasconcellos Queirós e Magalhais morador em a sua Quinta de Pascoaes.

No arco seguinte esta a porta travessa que dá saida para o terreyro com hum frontispício de admirável arquitetura com collunas labradas ao borril, as primeiras da Ordem debayxo de huma grandeza que sam quatro, entre as quais da parte direyta esta Sam Domingos e da esquerda sam Francisco. No segundo andar sam seis collunas tem no meyo Sam Gonçallo e dos lados Santo Thomas e Sam Pedro Mártir e no remate Nossa Senhora do Rosário; foy feita esta portada no anno de 1684. Entre esta portada e a porta principal esta huma varanda que chamão dos reis por estarem nella quatro figuras dos Senhores Reis de Portugal que sam as seguintes: O Senhor D. Joam 3.º; O Senhor D. Sebastiam; O Senhor Cardeal Henrique; O Senhor D. Fellipe Rey de Portugal.

Esta varanda serve de devertimento para os Relligiosos verem as feyras que se fazem no terreiro e as romagens que vem o Santo; a entrada della he pello coro.

Adiante desta porta travessa do mesmo lado a Capella de Santa Rosa com Retabollo dourado, he seu ademenistrador Francisco Xavier Ferreyra Gaviam morador na sua Quinta de Pinheyro.

Junto do arco cruzeiro da parte que incosta a Capella mor esta a Capella do Senhor Jesus, imagem muito antiga e devota e com ella se fazem presses por alguma necedade communa, tem retabollo dourado e a lâmpada de prata sempre aceza, he seu ademenistrador, o morgado da Casa de Fontellas que hoje vivem no Campo de Coimbra.

Nas costas desta Capella entre as paredes sem entrada nem servidam esta hum terreno que chamão a Capella do Pombal, há tradicam que os Relligiosos tem rendas a ella pertencentes.

Tornando a porta principal e discorrendo pello lado esquerdo debayxo de hum arco fichada com grades esta a Pia Baptismal da Freguezia.

A esta se segue a Capella de Santo António no primeiro arco que dotaram Francisco de Puga Pinto, Corrigidor do crime da Rellaçam do Porto, e seu irmão Gonçallo Borges Pinto Inquesidor que foy na Inquisição da Cidade de Coimbra e suas irmãs naturais desta villa e per instinçam desta famillia esta ademenistraçam desta capella hoje e bens a ella dotados no Padre Prior do Convento nomiado pellos instituidores com obrigaçam de casarem quada anno huma orfa com dote de trinta mil reys e fazerem a festa ao mesmo Santo. Tem retabollo dourado a imagem do santo e santicario das suas relliquias que se abre na sua novena e dia.

No segundo arco estão a capella de Nossa Senhora do Rosário que pertence aos Valladescas. Tem retabollo emtalhado e dourado e huma perfeitíssima imagem de Nossa Senhora do Rosário com três alampadas de prata e huma grande comfraria da mesma Senhora que teve principio no anno de 1626. O primeiro Domingo de quada mes tem pratica e prociçam, e todos os sábados missa e ladainha a que assiste toda a comunidade e a festa principal he o Domingo da Rosa que he o primeiro do mes de Mayo com o Senhor exposto e sermam de manham, e tarde, e neste dia fazem eleyçam de ofeciais, preside em mesa o Padre Prior, tem quada irmão que morre com missa.

No terceiro arco esta a Capella de Sam Thiago com a imagem do Santo, retabollo dourado, he seu ademenistrdor Francisco Cerqueira Mendes de Magalhais e Vasconcellos.

Segueçe a esta huma porta que da intrada para o claustro do convento; e junto ao arco cuzeyro na parte que incosta a capella mor, esta sercada de grades de ferro a Capella do Santíssimo Sacramento com o sacrário do povo onde o Parocho fas os actos Parochiais. Tem retabello dourado, três alampadas de prata feytas ao romano e a comfraria do Senhor, a sua festa he o segundo Domingo de Agosto e nella fazem elleyçam de offeciais, he ademenistrador desta Capella Alexandre Luis, morgado de Balsemam. Tem a Igreja dous púlpitos em correspondência de talla dourada com seus remates e figuras e no arco do cruzeyro dous grandes atallantes com vellas que alumeyam nas festividades.

Tem hum coro com duas ordens de cadeas e todo o espaldar de quadros de Santos da mesma Orde; e junto ao coro sobre a Igreja admirável Orgam ao moderno que tem 45 rezistos com caixa inda por dourar.

Huma grande e bem assiada sanchristia goarnecida de bellas pinturas com caixilhos dourados e huma em taboa dentro de huma vidraça do Senhor preso a huma cousa singullar que parece de vulto. Tem admiráveis relíquias em caixonzinhos e costodias de prata com que bemzem os romeiros.

Dous grandes claustros o primeiro de abobeda com hum chafariz de agoa perene.

He este convento dos magníficos que tem a relligiam de Sam Domingos e tem de presente assignados sincoenta e dous relligiosos. Entre os dormitórios tem hum de boa grandeza e porbayxo delle hum jardim de murtas cousa gallante a que se segue huma dillatada serca por sima do rio Tâmega que nas inchentes rega parte della com as suas agoas. Tem dentro, tem nella moinho de azeite por terem na mesma serca abundância delle.

O Parocho he sacerdote clérigo por apresentaçam anoal do Padre Prior e mais Relligiosos, tem seis mil reis de comgrua e com os mais meses insertos fará de renda quada anno pouco mais ou menos secenta mil reis e os Relligiosos comem os dízimos da freguesia.

He esta igreja dos santuários mais vesitados que tem este reyno de romagens todo o anno; no dia des de Janeiro que he o de Sam Gonçallo concorre imnumeravel povo e véspera do Espírito Santo vem muyta gente de Guimarais, na primeira oitava o Marquesado de Villa Real, quada freguesia separada com seu clamor e todos os homens e mulheres trazem vellas de cera que deixam de esmolla e no meyo das procicões trazem ramos de castinheiro e cheios de cera; que também deixam, no mesmo dia vem em procissam o Concelho de Mondim de Basto, e na primeira segunda feyra de Junho o concelho de Santa Cruz que tem vinte e cinco freguesias, o de Tuias e o de Canavezes em honze do mesmo mesmo mês, o de Filgueiras, em treze o de Unhão a dous de Julho vem a freguesia de Soalhais e no mesmo dia a do Grillo, Villa Martim, Teixeiró, Teixeira, Sediellos, e Mondroins, em Agosto vem o concelho de Montellongo, e as freguesias de Santa Marinha do Zêzere, Tizouras, Penajoya, Fontes e Resende, Viaris e Gestaço; em Setembro vem a freguesia de Barro, Sam Martinho de Mouros, Sam Pedro de Paos e Sam Joam de Ovil; em Outubro a freguesia de Lobrigos, nos sábados deste mês e no de Novembro um agente da terra da Feyra e concelho da Maya, que distão desta terra dez, doze, quinze legoas.

A mão esquerda da porta principal da igreja encostada ao rochedo que lhe fica eminente se levanta huma famosa torre feita ao romano onde estam os signos e rellogio, e tem esta entrada pello antecoro do Convento, foy situada em o anno de 1693.

Huma fresta da torre da entrada a hum passadeiro que camonica o convento, com huma capella que no alto do rochedo que chamão da rocha se fundou no anno de 1725 que he dos Terceiros de Sam Domingos com a invocaçam do Senhor dos Aflictos imagem devota e milagrosa a qual está collocada na capella mor que he estucada e da mesma forma toda a capella tem tribuna e toda a capella mor cobertas as paredes de talha douradas tem o pé da crus do Senhor, Nossa Senhora, O Envangelista e Madallena, da parte da Epistolla Sam Domingos e do Envangelho, Sam Francisco e no meyo sobre o altar Santa Catarina de Sena. Tem dous altares collaterals, em hum nossa Senhora das Dores e no outro Santa Rosa. As grades e as sacadas das frestas sam douradas. Esta capella he piquena e feyta a romana, mas no asseyo e perfeiçam he o mais corioso santuário que tem esta villa, o seu director he hum Relligioso do Convento.

Perto desta Capella esta o Mosteiro das Relligiosas de Santa Clara sogeitas ao Provencial de Sam Francisco. Hum piqueno terreyro da intrada para a Igreja a qual he piquena mas bem assiada. A capella mor esta readificada de novo, tem tribuna inda por dourar com o sacrário das Relligiosas, e nos lados a Senhora da Conceyçam e Santa Clara; he Padroeyro desta Capella mor o Conde de Redondo. Tem dous altares collatrais no dollado direyto esta o Senhor da Agonia e Santa Anna e no dollado esquerdo Nossa Senhora do Rosário e huma millagrosa imagem de Santo António, e outra de Sam Francisco da parte da Epistolla no corpo da Igreja esta hum altar de Sam Joam Envagellista e tem nelle hum Senhor com a Invocaçam dos desemparados os Terceyros de S. Francisco onde tem situada a sua Ordem Terceyra. O tecto da Igreja he apainellado de Santos e da mesma sorte o coro; tem bom mirante com ademiraveis vistas para o poente: he muyto bom mosteyro a porpeçam da villa tem 104 Relligiosas. O seu principio foy de biatas num se sabe quem foy seu fundador, he que a Rainha D. Mafalda foy sua bemfeytora e lhe dotou algumas rendas. Contodo o tempo floresceram nelle inmumeraveis Relligiosas em virtude e Santidade e de muytos annos por ser sadio, delle sahiram fundadoras para o Mosteyro da Ribeyra; que esta no Bispado de Lamego e pêra Santa Clara de Guimarais. E hoie se acha muyto atenuado nas rendas pois as Relligiosas não tem tensa, so quada huma tem quada semana hum lemitado pão. Defronte do altar dos terceyros na Igreja esta huma capellinha com grades de ferro toda de abobeda e no altar huma imagem do Senhor S. José. Tem capellam da missa cotidiana, he hoie seu ademenistador Manoel Cardoso de Loureiro do Bispado de Viseu. O Mosteyro tem huma serca com sua nora.

Deste Mosteyro e do Convento dos Relligiosos terreyro e capella dos terceyros domenicos, segue a rua do Covello que terá cento e sincoenta vezinhos que he do Bispado do Porto, concelho de Gouveya da outra parte do rio Tâmega, situada junto as suas correntes e contiga a ella a freguesia de Santa Maria Madallena que he da comarqua de Villa Real deste Arcebispado.

Na piquena sobida que faz a rua em pouca distancia esta hum terreyro e nella a Igreja de Sam Pedro, a sua entrada he por bayxo de huma torre que tem no frontespicio da igreja onde estam os sinos e rellogio; esta igreja he de perpocionada grandeza e esta decentemente fabricada. A capella mor he de abobeda tem tribuna e sacrário inda por dourar, nos lados tem Sam Pedro e Sam Paullo. Tem dous altares collatrais no da parte da Epistolla esta Santo André e Sam Goncallo abbade e no da parte do Envangelho Sam Fellipe. Tem mais dous altares no corpo da Igreja, hum de Nossa Senhora da Conceyçam com sua Irmandade que teve principio no anno de 1626. A sua festa he no dia da mesma Senhora e nelle fazem illeiçam em que preside o Protector da Irmandade. O outro altar he de Sam Martinho cujas festas sam da Misericórdia per neste sitio estar antigamente huma capellinha do mesmo Santo que deu a Irmandade da Misericórdia para nella se fundar esta Igreja. Tem este altar Nossa Senhora do Desterro e Sam José. Tem a Irmandade obrigaçam de huma missa cantada no dia do Santo pertençam da Misericórdia. A igreja he toda de azulejo e forrada de madeira apainellado, tem huma sanchristia huma casa de despacho e paramentos he esta Igreja de huma noblissima Irmandade de Clérigos e bem ademenistrada a sua festa he o primeiro dia de Agosto at vincolla e no mesmo dia fazem illeiçam de Protector e mais ofeciais para o governo delia tem obrigaçam de muytos legados, porque alem de outros muitos quada dia sam oyto capellas a dizer missa, tem dous legados de bem utellidade para o povo que sam a missa das honze horas e a missa da lua todos os domingos e dias santos.

Tem huma comfraria a que chamam dos padres ademenistrada pellos mesmos sacerdotes para todo o padre que falecer no destricto desta villa tem doze padres para o acompanhar a sepultura e lhe fazerem hum ofício e quada hum lhe dizer a sua missa.

Tem coro e Ecónomos que rezam nella nas horas custumadas com algumas obrigaçoens de missa comforme suas pençoens que sam deminutas, as duas mayores sam de quarenta mil reis, estes dous capellais alternativamente tem missa cotidiana, estes instituyo Frey António de Guadalupe e Bispo que foy do Rio de Janeyro irmam da Irmandade e natural desta villa, as mais sam humas de vinte e sinco outras de vinte, dezoyto, quinze e doze mil reis, vagando algumas destas capellanias se põem a comcurso e sam examinados os opositores em presença da mesa pello regente e apontados do coro e o eleyto as serve enquanto he vivo. He irmandade do coraçam de Jesus. Nesta Irmandade há quarenta horas e prociçam dos Passos a 3.º domingo da Quaresma.

O terreyro desta Igreja tem ademiraveis vistas por que delle se descobre muyta parte do rio, do concelho de Santa Cruz e de Gouveia.

A Igreja da Misericórdia tem seu terreyro, no fronstespicio a imagem de Nossa Senhora, he contigua e nam tem capella mor, no pano da parede onde avia de estar tem três altares, no do meyo esta pintada Nossa Senhora da Misericórdia, no do lado direyto hum crucifixo, e no esquerdo o Senhor Ecce homo. Para todas se sobe por duas escadas que estam encostadas as paredes, no pavimento esta hum altar das almas com Confraria e nelle a imagem de Santo André, estes altares estão separados do corpo da Igreja com grades de ferro, foy seu fundador Pedro da Cunha Coutinho do concelho de Gestaço.

Era costume nesta Igreja haver sermões na Quaresma às quartas feiras que hoje se mudaram para os domingos de tarde.

A sua festa principal he dia de Vesitaçam o segundo dia do mês de Julho e nelle fazem a sua illeyçam de Provedor e mais irmãos da mesa para o governo delia.

Tem muytas obrigaçois de legados e tem de renda quada anno hum conto, duzentos e tantos mil reys.

Seguesse huma descida que faz a rua a que chamam o Seixedo com huma piquena ponte de pedra de hum só arco porque neste sitio atravessa a rua hum lemitado ribeyro que nasce em o lugar de Maderne na freguesia de Sam Joam de Gatam, a este riosinho chamavam antigamente os autores Loçia, tem outro mais algum fundamento para este nome mais que estar o pe a mão esquerda huma capelinha de Santa Luzia com a imagem da Santa, retabollo por dourar que he dos Relligiosos do convento de Sam Gonçallo, que trazem arrendado as ofertas.

Em pouca distancia esta o pelourinho que antigamente esteve no terreyro da Misericórdia e por requerimento que os irmãos della fizeram a camera se mudou para este sitio no anno de 1617.

Logo a mam esquerda desta rua que se chama da orde esta a casa do Hospital a qual he sujeita a Misericórdia e Baltasar Vieyra Desembargador que foy do Passo e natural desta villa foy seu fundador; tem trinta mil reis de renda tem altar em que se diz missa todos os domingos e dias Santos pello seu capellam que também asacramenta os doentes. A sua invocaçam he do Spirito Santo.

No alto desta rua esta a Capella de Sam Joam Baptista que algum dia se dizia de Santo Estevão que he da Misericórdia e tem seus reditos. Tem a sua confraria de Sam Joam e festa no dia dos Santos e elleiçam de offeciais a que preside o Juiz de Fora da villa e o escrivam da Camera, na mesma capella esta collocada huma bellisima imagem com a invocaçam da Bandeyra com huma confraria de rapazes ignocentes que todos os sábados cantam de noute o terço pella rua e tem festa a oyto de Setembro. Neste sitio finda a rua devedindosse em duas estradas, hua que vay para Guimarais e a da mam esquerda para o Porto.

Atrás da Igreja da Misericórdia no Bayrro de Sam Joam Degollado esta huma capella muyto boa da Invocaçam do mesmo Santo de que he adeministrador Theotonio Manoel de Magalhais Meneses e Vasconcellos morador em sua quinta de Alvellos o qual tem obrigaçam de mandar dizer nella 150 missas de vincullo de Morgado.

No mais alto da villa esta hum campo que chamam da feyra e nelle huma capella que antigamente foy da invocaçam de Sam Sebastiam e nella esta a sua imagem a que se faz huma festa no seu dia; a qual capella hoje se diz de Nossa Senhora da Ajuda e tem sua comfraria e festa a oyto de Setembro; tem capella mayor fichada de grades de ferro e dous altares collatrais; no da parte do Envangelho esta Sam Caetano e no da Epistola Sam Benedito.

No fim deste campo onde chamam a Devesa o pe do Calvário onde acaba a via sacra estava huma capellinha da Senhora do pe da cruz e em hum tumello com vidraça o Senhor da Boua Morte que era da câmara e por suplica a deram aos terceiros de Sam Francisco e por ordem de sua Magestade que Deos guarde veyo o Provedor da villa de Guimarais e junto com o senado desta villa lhe demarcaram a terra nessezaria para os mesmos terceyros de Sam Francisco fazerem huma Igreja para a sua Ordem a qual esta de meyas paredes feitas e vendo a nam podiam concluir por falta de dinheyro unida a ella fizeram humas casas de despacho e duas cellas onde residem os seus commissarios e no terreno delias e de estuque hum bem ornado e decente Oratório onde estam colocadas as sobreditas imagens e nos lados dous alteres, em hum de Sam Francisco e no outro o Senhor Ecce Homo. Tem obrigaçam de dizerem quada anno por tençam da Camera huma missa.

Como este pais he lemitado nunca pode prudozir fructos necessários para sustento do povo mas a sua propoçam he fecunda de bastante azeite, pam vinho e abondantissimo naceram de fructos singularizandoce entre todas as milancias, melloiz e pesssegos, sendo estes dous altíssimos géneros em mayor grandesa e gosto neste reyno.

Tem Juiz de Fora que também serve de cappitam mor, vereadores, procurador, e escrivam da camera, cadeya e casa para os actos do senado e audiências as quais justiças estam sojeitas a rellaçam da cidade do Porto. O primeyro juiz de fora que houve foy no anno de 1604.

Nam he couto nem cabessa de concelho.

Foy natural desta villa D. Álvaro da Silva conigo regullar Arcebispo de Goa. D. Frey António de Guadallupe Relligioso de S. Francisco Bispo do Rio de Janeyro. António de Sousa Macedo inviado de Sua Majestade e secretario de estado do Senhor Rey Afonso Sexto. Gonçallo de Magalhaens Valleroso nas armas que fez maravillas nas índias.

Provinciais: Frey Fernando de Alcunho Caraça; Frey Joam de Deus = Frey Manoel de Sam Tiago = Frey Joam do Spirito Santo = Frey Joam da Presentaçam = Frey Gonçallo de Amarante Relligioso Leygo Mercenário que floresceu nas índias de Espanha em virtude e santidade. Santo Amaranto mártir que morreu em França = Frey Pedro de Amarante; Frey Diogo de Amarante falecido em Viseu = Frey José de Santa Maria Carmellita = Frey Gaspar do Spirito Santo, O padre António de Sousa da Companhia de Jesus, morreu indo para a índia.

Tem feyras de bois a seis e vinte de todos os meses, de porcos a 25 de Novembro, a 13 de Dezembro e dia de Sam Silvestre o ultimo dia do anno de mercearias a des de Janeyro e no dia e outavos do Espírito Santo, em todos se paga cisa.

Tem correyo que teve principio em o anno de 1632, vem na quinta feyra ao meyo dia de Villa Real leva as cartas desta villa para a cidade do Porto e chega a esta villa outra ves no domingo a noute e leva outras para Villa Real e trás dos Montes.

Dista esta villa da Catedral de Braga oyto legoas e de Lisboa capital do reyno 64 legoas.

Os privilégios que os Senhores Reys de Portugal tinham concedido pela devoçam que tinham o Senhor Sam Gonçallo dos seus romeiros não poderem ser presos se acham derogados.

Nam ha fonte que tenha especial virtude a sua agoa, ja os banhos do Rio Tâmega estam aprovadissimos pellos professores da medecina.

Nam padeceu esta villa a mínima ruyna no terramoto de 1755.

Rio

Nella não nasce rio algum o que a faz vistosa he o rio Tâmega que nasce em Galiza o pe do monte rey em huma fonte que chamam Tâmega elle o divide toma o nome que conserva athe se meter no mar a pouca distancia do seu nascimento recebe copiosas agoas de huma Lagoa distante da villa de Chaves 3 Legoas onde tem ponte de cantaria outra ponte em Cabez asima do Arco de Bagulho e outra na villa de Mondim de Basto em soberbecendosse em toda a sua distancia de vários rios que nelle se metem o faz caudelloso e no Inverno tem cheyas extraordinárias entra pella villa onde chamam o passo da Vaseyra e de fronte da cerca do Convento faz uma grande ínsoa devedindose por duas partes ficando a insoa no meyo a que chamam a insoa dos frades, rega esta villa e nella tem uma ponte de cantaria de três arcos junto a igreja que tem de comprido 320 palmos, de largo 14 e de altura athe a agoa 74. O arco do meyo 101 palmos o que da huns dos outros 65 palmos tem ameyas e no meyo delas tem hum cruzeyro que dévide este Arcebispado de Braga do Bispado do Porto e esta villa do concelho de Gouveya, o dito cuzeyro tem da parte desta freguesia a imagem de Nossa Senhora da Piedade e da outra parte hum Senhor crucificado, e no pe do cruzeyro este escudo. Tem hum lampiam aceso de noute no ambos da ponte para a parte desta villa dizem que antigamente estavam humas letras que se mandaram picar sem se saber para que motivo que diziam assim, ESTES PILARES FES P° F-co ANO DE 98.

Há tradiçam que Sam Gonçallo principiou a mandar fazer esta ponte no anno de mil duzentos quarenta e sete e que durou 30 meses a sua factura. Dizem que no meyo delia estava hum padram que hoje não aparece que tinha o letreyro seguinte,

PONSISTECHROSERVA T MARIAMATRIVIRGEDE I IPSISEAVENTIBUSABS O = LVTVSXXVOCTOBIAE A MCCLLI X POSTMENSXXXASVAI N CHOATION E CHREDEVSSERVAPONTE = MTVMINHONOEMETC O MMODVMSERVORUMTVO = RVMADEFICATUMAMENDE O G RS

Esta ponte se acha arruinada em termos de brevemente vir abayxo pellas cheyas lhe deitarem abayxo o forte que tinha no pe de arco do meyo da parte debayxo que todo se alagou e no pe do arco do meyo que he muito grande cahiram muytas pedras da sua firmeza será perda inconsideravel nam so para estas terras mas também por ser estrada continua para Trás dos Montes. Per suplicas que se fizeram a Sua Magestade fedelissima que Deos Goarde tem ávido informaçois do Provedor da Comarqua de Guimarais mas athe o presente nam tem suprido efeyto. O rio por razam das assudas que estam abayxo desta villa nas azenhas da quinta do Morlleyro faz huma grade emsiada e grande pego e sendo as azenhas inomeraveis perto da ponte as nam tem no destricto desta villa entre a ponte e a capella mor da igreja estam humas escadas que descem para o rio e no meyo delias em hum pátio esta a fonte que chamam de S. Gonçallo que dizem a sua agoa sabe azeyte pello Santo milagrosamente lho fazer deitar para os offeciais da ponte e comerem os peixes que elle com a sua bemça tirava do rio. Esta fonte tem huma imagem do Santo e hum letreyro que paresse antigo pella pouca collocaçam do latim que diz assim

Gonsalve ó Santissime; Qous pascis hic amplissime; Nos terge a piaculiz; Hic fonte miraculiz

Discurrendo vay o rio desta villa per varias partes passando em humas per bons valles e em outras per montes athe a distancia de duas Legoas onde tem huma ponte na villa de Canavezes e delia vay entre ambos os rios a juntarce com o Douro e com elle de socradade a Ribeyra do Porto e morre no mar de S. Joam da Foz.

Nam he navegável em rezão das muytas assudes, penedos e pesqueyras e se fosse seria de muyta utelidade e pella rezam em humas partes corre sereno em outras arebatado; os moradores em nenhuma partes se utelizam da sua agoa para regarem os campos por correr fundo as pescarias sam librés os peixes que produz sam grandes barbos, barbiscos, bogas, escallos, enguias, poucas trutas mas grandes e lampreyas no veram se fazem grandes cassadas com tresmalhos e barredouras, em todo o tempo a chambeyra e cana e em Fevereyro, Março e Abril e Mayo em pesqueyras alguns curiosos para o mesmo efeyto tem suas barquinhas para pescarem nesta villa o pe delle há hum sitio que chamam o rocio com muytos ollemos e boa fresca de veram para onde vay muyta gente devertirce nas tardes corre de norte para o sul.

Tem mais esta villa três engenhos de azeyte dous nos sítios da Vazeyra e hum em Ordiapires.

Esta he noticia que posso dar desta villa de Amarante, freguesia de Sam Gonçallo na forma dos interrogatórios, que vay na verdade, e per verdade aqui me assigney com os Parochos meus vezinhos.

Amarante de Mayo 22 de 1758.

O Pároco Silvestre Cerqueyra Ribeyro

O Pároco Manoel de Vasconcelos

O Padre João de Magalhães cura de S. João de Gatão

 

in ANTT - Dicionário Geográfico, Amarante. Volume 3, m. 57, fis. 423-457.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Memória Paroquial de S. Veríssimo (Amarante) - (1756)

 

A antiga freguesia de São Veríssimo foi curato de apresentação do convento dominicano de Amarante, ao qual fora doada pela rainha D. Catarina, mulher de D. João III. Tomou então a invocação de São Gonçalo, por ser este o patrono daquele mosteiro. Em 1840, no "Mapa Estatístico", estava anexa à de São Gonçalo. Posteriormente, em 1862, encontrava-se independente, mas em 1896 era outra vez anexada à mesma freguesia. Da diocese de Braga, passou para a do Porto em 1882.

Nas Memórias Paroquiais, datadas de 1756, a paróquia de S. Veríssimo é descrita da seguinte forma:

Da freguesia de S. Veríssimo

Matriz de Amarante

 "Esta freguesia de S. Veríssimo fica na província de Entre Douro e Minho no Arcebispado de Braga Primas do termo da comarca de Guimarães donde dista sinco Legoas e do concelho de Santa Cruz De Sima Tâmega.

O Senhor deste concelho de Santa Cruz he o Senhor Conde Meirinho Mor tem ouvidor feyto pello Senhor Conde de três em três tem juiz espadano dois veriadores elleytos pella Camera com asistencia com o Corregedor da mesma comarqua de Guimarães que governam nam mais que hum anno tem dois Almotaceys feytos pello Juis que não governam mays que três meses e findos elles ellegem outros do mesmo Concelho.

Esta freguesia de S.Veríssimo que comrespondendo com a villa de Amarante para a parte do Nascente em diante a mesma villa de Amarante e para a parte do poente fica comrespondendo com a a freguesia de Santa Maria de Fregim de Malta intermediando entre huma a outra hum valle de largo de metade de hum coarto de legoa e para a parte do poente fica correspondendo com as freguesias de Freyxo de Bayxo e com a de Santa Maria de Telões e para a parte do sul fica comrespondendo com o Rio Tâmega.

Esta situada a Igreja de S. Veríssimo no meyo da freguesia ao pe de hum lugar de coatro moradores entre campos nam planos por causa de ribades abundantes de arvores e silvados por causa dos quais delia se nam descobre mais que parte da villa de Amarante e os montes que ficam correspondendo a mesma igreja como he ou digo sam os montes do Maram e os montes que serquam a freguesia de Sepellos e da freguesia do Salvador que ficam para a parte do sul. Nam tem lugares vizinhos mais que os da mesma freguesia com quem fica imediatamente corespondendo.

Orago desta freguesia he o Senhor Sam Veríssimo o qual esta na capella Mor a parte esquerda e a direyta o Senhor Sam Gonçallo e no meyo a image da Senhora da Piedade da qual capella mor sam administradores os Relligiosos de Sam Domingos do Convento de Sam Gonçallo, pois elles sam os que dam os paramentos necessários e tudo o mais que faz mister para ornato da mesma Capella mor. Tem dois altares colatrais o da parte esquerda tem a imagem da Senhora de que o Mártir S [am] Sabesteam pertenesse administracam delia e freguesia sosim o que possuir a Casa de Relias da mesma freguesia he obrigado a dar para o mesmo altar a lampeda e o azeyte para elle arder todos os dias de guarda emquanto se esta a durar a missa com missal em casticays e sera para alumiar ao mesmo altar emquanto dura a missa Conventual do dia, o altar da parte direyta tem a imagem do Menino Deus. Sam administradores do osnato delle os fregueses tem este mesmo altar huma confraria do Menino Deus de que toma contas o Provedor da Comarqua de Guimarães faselle festa com sermam e missa cantada a conta de Mordomos que se ellegem todos os annos. Tem mais esta Igreja de Sam Veríssimo huma outra Ermandade da Senhora da Piedade de que tem Jubileo por Breve Pontefício concedido para o dia da purifícacam no qual dia se festeja a Senhora da Piedade he a Igreja propossionada feita ao antigo armada feito de madeira e cuberta de telha com hum sino posto por sima da porta principal.


Igreja Matriz de S. Veríssimo - Amarante

He esta Igreja de S[am] Veríssimo apresentada todos os annos pellos Relligiosos de Sam Domingos do Convento de S [am] Goncallo a qual Igreja foi antigamente dos Conigos Templários de Freyxo de Bayxo a qual Igreja lhe deo o Senhor Dom Joam 3.º por extincam dos mesmos Conigos Templários e elles comem as rendas delia so dam ao cura que nella apresentam todos os annos seis mil reis em dinheiro três libras de cera branca dois alqueires de trigo e dois almudes de vinho e com o pe da altar rendem para o cura sincoenta mil reis e em algum anno nam chegam nem a quarenta.


Capela de S. Lázaro - Amarante

Tem a freguesia de S. Veríssimo huma ermida no lugar da Granja de Joam de Magalhais da invocação da Senhora do Bom Sucesso. Tem obrigação todos os Domingos e dias Santos de nelle dizer uma missa para o que trás tresentos mil reis a juros para renderem para o Cappellam delia e tem esta Capella na villa de Amarante humas ortas he herdade que rendem para a fabrica delia. Tem outra Capella sita na quinta de Pinheyro de Manoel de Souza da Invocação da Senhora da Conceição que foy de Joam de Queirós não tem obrigação de missa tem outra Capella no lugar de Sam Lazaro com a imvocaçam do mesmo Santo pertence a fabrica delia a Misericórdia da villa de Amarante as esmolas pertencem a mesma Casa da Misericórdia em dia do Santo por parte do povo da mesma vila e da mesma freguesia e nam tem mais romagens de outra parte nem em outro dia. Tem outra Capella no Lugar de Pinheiro Dalém da invocação de Sam Francisco Xavier não tem obrigação de missa he obrigado a fabrica de Francisco Xavier Ferreira.

Terá esta freguesia de comprido do sul a norte três coartos de legoa e do nascente ao poente a metade de meio coarto de legoa. Componse esta freguesia dos lugares seguintes = Lugar do Acento que contem coatro moradores = Lugar de Sa que se compõem de três moradores = Lugar do Eydo que se compõem de seis moradores = Lugar da Granja que consta de coatro moradores = Lugar do Ribeyro que se compõem de treze moradores = Lugar da Torre que se compõem de vinte e sete moradores = Lugar do Morturio que consta de coatro moradores = Lugar de S [am] Lazaro que consta de três moradores = lugar de Pinheiro Dalém que se compõem de [F1.463] de sinco moradores = Lugar da Ferreira que se compõem de des moradores = Lugar das Relias que contem dois moradores. Tem mais moradores des pessoas pella freguesia que consta cada hum so morador que vem a ser o lugar e murada de Outeiro = Raposeira = Monge = Marantinho = Casas = Morleiros = Povoa = Relias = Pinheiro Daquem Pinheiro de Cima = Outeiro da freguesia Lugar da Devesa que consta de coatro moradores = contem pessoas de Sacramento trezentas e trinta e sinco.

Esta freguesia he abundante de frutos necesarios para o sustento como dos da freguesia como he de milho graúdo, milho miúdo, senteo, bastante vinho verde, azeite.

Dom Luiz António de Souza filho natural do Marques das Minas foi Cappitam de cavallos cuja companhia a Lembrança sua custa e depois comissário da Cavallaria Coronel e Governador das armas do Castello de Vianna e ultimamente Brigadeiro e Sargento mor de Batalhas. António de Queirós Masquarenhas sérvio na guerra da felles aclamação de Cappitam de Infantaria e ultimamente ordenouse de Presbítero e morreo Abbade de Real D[om] Luiz netto do sobreditto asima he mestre de Campo de Infantaria de auxiliares da Comarca do Porto e Senhor Donatário da villa de Ovelha do Maram Comendador da Comenda de Santa Maria Compromesa de huma alcaidaria mor. Joam de Queiroz Botelho do Lugar de Pinheiro foi Cappitam de Infantaria e Mestre de Campo de Auxiliares e seo Irmam Goncallo Pinto de Queiroz foi tenente de cavallos O Douctor Jacinto de Queiroz de Pinheiro Colegial de S [am] Pedro e Conductario na Universidade de Coimbra. O Douctor José Caetano de Moura e Vasconcellos do Lugar de Relias foi Juis de Fora de Freixo de Espada a Sintra e de Chaves e auditor da Veira Alta e Baixa ultimamente Provedor da Comarca de Torre de Monquorvo e Comissário das três Ordens Melitares.

O Correio desta terra he o que passa pela villa de Amarante immediata a esta freguesia quando vem do Porto pasima para Vila Real chega aqui o Domingo e no mesmo Domingo parte pasima e quando vem de sima para baixo chega aqui a esta villa a quinta feira e na mesma quinta feira parte para baixo.

Dista desta freguesia de S [am] Veríssimo a Cidade e Capital de Braga Primaz oito legoas e a Cidade Capital do Reino a Cidade de Lisboa sincoenta e sinco legoas.

Por esta freguesia de S. Veríssimo passa hum Ribeyro que atravessa a freguesia da parte do Norte para o Sul nasce na freguesia de Freixo de sima e bem acabar nesta freguesia no Rio Tâmega. Leva de Inverno bastante agoa de vram chega a nam moer hum moinho nam tem nome certo toma o nome do lugar por onde passa como toma o nome do rio Relias por passar por lugar assim chamado = Relias = e no mesmo lugar tem huma ponte de arco de hum so Ilhel ao pe do Rio Tâmega aonde fenece toma o nome do rio da Torre por se chamar assim o lugar da Torre este Rio ou Ribeiro neste lugar da Torre tem dezoito moinhos, que moem de Inverno e de vram muntos annos sendo sequos não moem por rezam de levar pouca agoa neste rio e nesta freguesia no lugar de Pinheiro moe agoa delle hum Ingenho de azeite.

O Rio Tâmega passa pelo pe desta freguesia pella parte do Sul nesta parte por onde passa nella tem dez rodas de azenhas com assudas e por causa das quais não pode ser navegável nesta parte he abundante de peixes chamados Bárbaros e Bogas e escallos e alguas trutas e nalguns annos algumas Lampreas e em todo o anno se pesca nelle a cana e chumbeira e no vram com toda a qualidade de lodos a de redor a com erdades ao Rio. Tem as agoas deste Rio espèce a vontade pêra nelle se tomarem banhos no mês de Agosto e Setembro para os que padesem calores como se tem ja exprementado. O Rio ou Ribeiro que atravasa esta freguesia de S. Veríssimo como já dise asima não tem nome como alguns lhe chamão em seo nascimento o Rio Locia corre por entre campos com curso menos arebatado".


E não tenho mais que responder aos interrogatórios por não haber o que se contem em muntos delles nesta freguesia hoje S. Veríssimo 22 de Mayo de 1756.

O PAROCHO MANUEL DE VASCONCELOS

O PAROCHO SILVESTRE CERQUEIRA RIBEIRO

 

ANTT - Dicionário Geográfico, Amarante (S. Veríssimo). Volume 3, m. 58, fls. 459-466.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Memória Paroquial de Cepelos


 MEMÓRIA PAROQUIAL DE CEPELOS (1758)

(AMARANTE)

Resposta aos interrogatórios que o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor e Bispo do Porto que mandou entregar por ordem de sua Majestade Fidellissima, em o primeyro de Março de mil e setecentos sincoenta e oito. Resposta ao que se quer saber desta terra

1. Esta Igreja Parrochial se chama Santa Maria de Cepellos esta na Província do Minho he Bispado do Porto, Comarca de Guimaraens termo do concelho de Gouvea;

2. Esta terra ou concelho de Gouvea he de Donatário que he o Conde de Redondo;

3. Tem esta freguesia cento trinta e seis visinhos e tem trezentas e oitenta pessoas de comunham menores trinta e nove;

4. Esta Igreja esta situada em monte, descobrece delia a villa de Amarante e dista delia perto de meya Legoa, mas não de toda a freguesia por que esta debayxo delia tem huma rua chamada a Rua de Gouvea, pegada ao Ryo Tâmega que nas emchentes de Inverno entra à mesma Rua e cazas e só dista da dita villa o Ryo que medeya em a dita villa, desta freguesia;

5. O termo desta freguesia he seu por ser a cabeça do concelho, aonde esta a caza do Furai, das audiências. Os lugares que comprehende no destrito de duas Legoas, este concelho, podem os Parrochos das freguezias numeralas com evidencia, a que tempo me nam dá lugar;

6. Este Parrochia esta so no fim de freguesia tem a rua de Gouvea, o lugar de Formam, o lugar de Figueyredo e o lugar do Tapado;

7. O urago deste Parochia he a Senhora da Assumpçam a quinze de Agosto; tem trez Altares o Altar Mayor, aonde esta a Padroeyra e das bandas Sam Vicente Ferreyra, a parte do Evangelho e a parte da Epistolla, Sam Joam de Deos; e doiz colatraez; o da parte do Evangelho tem Nossa Senhora do Rosário; e o da parte da Epistolla, Santa Anna; He só de huma nave; nam tem Irmandade, nem comfraria, por que os fregueses são Irmãos e confrades na villa de Amarante.


Igreja Matriz de Cepelos - Amarante

8. He esta Igreja Abdadia da mesa Episcopal em que o Convento dos Monges de Sam Bentode Pombeyro, tem alternativa e andam os dízimos e samjoaneyra arrendadas em 260 centoe trinta e coatro mil e coatro centos e e pé de Altar hum anno, por outro, oytente mil reis. 

11. Tem a Mezericordia da villa de Amarante nesta freguesia a ilharga da caza do Furai, huma Albergaria, para passageiros, instituída pella Sereníssima Senhora Mafalda; tem de renda secenta mil reis.

13. Tem esta freguesia na Rua de Gouvea a Cappella de Santa Anna, que he meya dos moradores da freguesia, e meya de José Navarro de Queiroz da freguesia da Magdalena, Concelho de Gestaço, tem outra Cappella na quinta de Fontelas, que he fora do povoado, he pertence aos herdeyros de Lourenço Mendez de Vasconcellos Senhor da quinta de Quimbrez freguesia de Sam Martinho de Axvere, no Campo de Coimbra.

15. Os frutos que se recolhem nesta terra em mais abundância he só o vinho verde, porque chega para os moradores e par vender para fora; os mais nam chegam para os moradores

16. Este concelho tem juiz ordinário, e camera e delia se aggrava para o corregedor e se apella e aggrava para a Rellaçam do Porto

17. He a cabeça do Concelho

19. Nesta freguesia todos os sábados antes de primeyra e segunda feira do mês que tem para entrar e se faz uma feyra do Linho, asim em rama, como curado, debayxo do Paço do Conde Redondo, Senhor Donatário da qual se paga portage.

20. Nam tem esta terra ou freguesia correyo e se servem do da Villa de Amarante, que dista só o que medeya o Ryo se passa pela ponte de Sam Gonçalo no meyo da qual esta hum cruzeyro que divide esta freguesia da de Sam Gonçalo; e este Bispado do Porto, do Arcebispado de Braga; Recebemos as cartas que vem pello Correyo do Porto, nas sigunda feira pella manham, e remetemos as respostas nas quintas feiras athe o meyo dia e as cartas que vam para Lamego e de Villa Real para cima recebemos as quintas feiras de tarde e respondemos no Domingo por todo o dia.

21. Dista esta terra dez legoas da cidade do Porto, capital do Bispado; e secenta e duas de Lisboa.

22. Nesta freguesia esta sito o Morgado e quinta de Fontellas que foi instituído no anno de mil e quinhentos e trinta e quatro e foy o primeyro pessuidor delle Ruy Mendes de Vasconcellos, he sollar desta família, com cazas antigas, que mostram a sua nobreza; e huma torre desta caza foy o valerozo Antonio de Queiroz e Mascarenhas cappitam de cavalos, no Reynado do Senhor Dom Joam o quarto, Tem huma quinta de grande extemçam, que rende muito pam e vinho, e azeite, e castanhas, e tem grandes soutos e devezas, e muita caça de coelhos, e perdizes, e pegado nas mesmas cazas esta a capella do dito Morgado.

27. Contigua aos passays desta Igreja, esta sita a quinta de Figueyredo que antiguamente foi pessuhida por Gonçalo Esteves, o grande de Figueyredo, por quem a dita quinta se chamou de Figueyredo; e foi pay de outro Gonçalo Esteves, que foi com cavalos e armas a sua custa as guerras de Azamor; e ambos Senhores da Casa e quinta de Figueyredo, que hoje pessuhe Thimoteo José de Queirós Figueyredo, cappittam mor do Concelho de Gestaço, de quem descende por varonia. A este Gonçalo Esteves fez prazo da dita quinta o Arcebispo de Braga Dom Luís a requerimento de Dom Pedro Vaz Prothonotario e admenistrador do mosteyro de Pombeyro, no anno de mil e quatro centos e setenta e sinco; a qual antigamente, se chamava a quinta de Cepellos pega quazi na beyra do Ryo Tâmega e athe o Ryo que vem Ovelha do Maram espacio quazi de huma Legoa se pode hir com pouca diferença sempre por terra de mesma quinta e hoje a tem o possuhidor acrescentada com bastantes compraz. He sollar de família dos Esteves Figueyredos e Queirozes de cuja procedem muitas cazas nobres de Amarante e seus arredores. Da muito vinho, pam e azeite e castanhas e frutas; bastantes caças de coelhos e perdizes, em rezam das grandes matas. Tem pesqueyras no Tâmega das milhores que nelle há em que se pescam bogas e barbos e eyroes e algumas vezes lampreas. Este terra ainda que montuoza nam he serra.

 Resposta aos interrogatórios do rio

1. O Ryo que corre pellas faldas deste freguesia he o Ryo chamado Tâmega nasce seis legoas por Galiza dentro e asima da praça de Chaves, em huma fonte chamada a fonte Tâmega.

2. Nasce da mesma fonte em quantidade de hum rego ordinário e corre todo o anno

3. Nesta freguezia nam entra nella Ryo algum. Nam he navegável, por causa das asudas que em se tem para azenhas de pam e para pesqueyras e era capas de navegarem barcos senam tiveze as ditas asudes e hum salto grande que tem abayxo da Ponte de Canavezes

5. He de curso arebasado em partes

6. Corre do Norte ao Poente, ou para milhor dizer do Nordeste ao Sudueste

7. Cria barbos, bogas, escalos e algumas trutas

9. As pescarias sam livres

10. As suas pescarias digo as suas margens em partes cultivamce e dam fruto de pam e vinho verde, em carvalhos, em salgueiros e nam tem arvores de outra casta, salvo amieyros.

12. Conserva sempre o mesmo nome do seu nascimento athe fenecer

13. Morre no Ryo Douro no sitio de Entre ambos os Ryos

14. Tem muitas asudes que embaraçam a ser navegável

15. Tem huma ponte de cantaria ao pé de Monforte, Villa de Brim, praça que confronta com Chaves três legoas distante delia; Tem outra em Chaves entre a praça e o forte da Magdalena, Outra chamada a ponte de Cabez, por bayxo de Ribeira de Penna; outra em Basto daqui sinco legoas; Outra a de Sam Gonçalo, outra em Canavezes todas de cantaria.

16. Tem azenhas de moer pam

17. Nam há noticia que delle se tirace ouro

18. Deste Ryo nam say agoa para se utilizar as terras

19. Tem este Ryo vinte e sete Legoas de donde nasce athe donde fenece e passa pella Villa de Brim em Galiza de que he Senhor o Duque de Alva e por Chaves e pella Villa de Amarante e por Canavezes

Abbade de Cepellos 

Francisco Pereyra de Sampayo

ANTT - Dicionário Geográfico, Cepellos. Volume 10, n.º 262.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Memória Paroquial de S. Pedro da Lomba


MEMÓRIA PAROQUIAL DE S. PEDRO DA LOMBA (1758)

AMARANTE

Em cumprimento da ordem do Ex.º e Rev.º Sr. Bispo, deste Bispado, respondo aos interrogatórios, do que requer saber desta freguezia:
1. Fica esta freguezia de São Pedro da Lomba quasi no fim da Província de Entre Douro e Minho, he Bispado do Porto, comarca de Sobretâmega, do termo de Guimarães, concelho de Gouvea.
3. Tem cento e oitenta pessoas, por todos.
4. Está situada em hum monte e dele se descobrem vários montes e serras; os quais são, para a parte do nascente, a serra do Maram, que fica daqui duas legoas, para a parte do sul, a serra da Boboreira, que fica distante huma grande legoa; para a parte do poente, hum monte chamado da Feira da quaresma , por se fazer nella, todos os annos huma, a qual fica na freguezia de Freixo deste mesmo Bispado; e para a parte do norte, vários montes, como são, o monte de São Gens, o monte de santa Cruz, que ficam por baixo da Lixa, o monte Farinha, todos do Arcebispado de Braga, os quais ficam distantes duas legoas.
5. Está esta Igreja fora de todos os lugares, tendo só ao pé della dous fogos, sendo que atendendo ao seu terreno, está quasi no meyo, tendo todos os seus lugares para a parte do Poente, não lhe ficando nenhum para a parte do Nascente, pela qual razão fica a Igreja, com a sua residencia no fim destes moradores e lugares, os quais, principiando por ella mesma, são os seguintes
6. O lugar da Igreja, o lugar do Fontam, o lugar da Lama, o da Quelha, o do Souto, o dos Chãos, o da Levada, o da Teixeira, o do Reguengo, o do Lodeiro, o do Pereiro, o de Locaia, o do Posso Negro, o da Ribeira, o do Pontão, o da Lagoa, o do Collaceiro, o de Campezinhos, que me he mieiro seis meses, com a Igreja do Senhor do Monte, que parte com esta freguezia; advetindo que alguns desses lugares asima, não tem mais que huma casa e essa bem fraca de construção; não tem termo nem Aldea; he concelho de Gouvea, do qual he senhor o Excl.mo Conde do Redondo.

Igreja Paroquial de S. Pedro da Lomba - Amarante
7. O seu orago he o Principe dos Apostollos São Pedro; tem tres Altares, o Altar mor que tem o Santíssimo Sacramento, e seu Patrom o Snr São Pedro, que he de Pedra, da parte do Evangelho, o menino Jesus, com sua Santíssima Mãi, e sua avó, a Snr.a Santa Anna, de madeira estofada, e da parte da Epistolla, Santa Quitéria da mesma fabrica; não tem nava nenhuma, tem huma Irmandade do Santíssimo Rosário, muito antiga, e outra do santíssimo Sacramento.
8. O Parocho desta pobre ermida he Abbade, havendo curas que tem mais rendimento. (...) O seu rendimento andará hao anno por volta de duzentos e dez, athe duzentos e vinte mil reis.
9. Não ha beneficiados
10 Não tem conventos, nem he citio para elles.
11. Não tem Hospital
12. Não tem Casa de Misericordia, só aguenta com os pobres.
13. Não tem Ermida, nem Capella, nem Oratório.
14. Não tem romagem alguma, mais do que em dia do Principe dos Apostollos, e Patrom della, o Snr São Pedro, vem a ella em clamores a freguezia do Senhor do Monte, São Simão de Gouvea, São João da Folhada, todas desta Comarca e Bispado e São João Baptista de Gatão, arcebispado de Braga, que nas vizinhanças da villa de Amarante, no concelho de Basto.
15. Os frutos destes montes são  de todos, porem a maior quantidade são senteios.
16. Tem esta terra Juiz ordinário com seu ouvidor, tudo feito pello snr delle, como já disse, que he donde depende, senhor do Concelho de Gouvea.
17. Não he couto, nem Cabeça de Concelho.
18. Não ha memória que desta terra ouvesse Homem que tivesse nome, nem por Armas, nem por letrado.
19. Não tem feira, nem franca, nem cativa.
20. Não tem Correio, mais do que na villa de Amarante.
21. Ficam estes montes distantes da cidade capital, que he a cidade do Porto, dez legoas grandes, e da capital do Reino, que he Lisboa cincoenta e tantas.
22. Não tem privilégio, nem Antiguidade, nem outra atenção.
23. Não tem, nem há nas suas vezinhanças Fonte, nem Lagoa especial.
25. Não ha, nem tem, nem nunca teve Castello, nem muralha, nem Praça de Armas.
Sobre os interrogatórios de terra nada há nesta freguezia que se responda, senão, que tudo são montes.
Sobre os rios
Passa hum rio pelo destrito desta freguezia, ao qual chamão o rio de Ovelha, o qual nasce lá para essas serras do Maram.
Corre arrebatado, e só em tres asudes que tem, para tirar agoa para huns moinhos, corre mais quieto.
Corre do Nascente para o Poente.
Cria variedade de Peixes, como tambem bastantes trutas, tudo de gosto especial.
Todo o anno dá peixe, porem de veram mais, porque leva menos Agoa.
He livre, para toda a pessoa pescar nelle.
As margens desse rio, no que toca no destrito desta freguezia, todas dão fruto de senteio, algum vinho, e milham; porem não se rega com elle, pois corre baixo, só se tira em todo esse destrito huma levada, para regar hum só campo, que fica por baixo de huns moinhos.
Não tem virtude alguma a agoa deste rio.
Sempre conserva o mesmo nome o Rio de Ovelha do Maram, athe chegar à ponte da Liviada, que fica daqui duas légoas, para a parte do Poente desta mesma Comarca, Concelho, e Bispado, donde entra no Rio Tamega.
Morre no rio Tamega, como asima digo.
Tem tres açudes, ou levadas, donde se tira agoa para tres casas de moinhos.
Tem este rio no destrito desta freguezia huma ponte de pau, no lugar de Locaia, e por essa razão chamada a Ponte de Locaia, e fica nos fins desta freguezia para a parte do Poente; e para a parte do Nascente, que he donde principia os lemites desta freguezia, ha outra ponte tambem de pau a qual chamam a ponte de Rui Mendes, que fica nos lemites da freguezia de Santo Andre de Padornello, da Comarca de Villa Rial e Arcebispado de Braga.
Tem como já disse este rio de Ovelha, nos lemites desta freguezia, tres casas de moinhos, que há nellas nove ou dez rodas, porem nenhuma moe trigo; as quais estão principiando do nascente para o poente, no lugar do Combo huma casa com duas rodas; no lugar do Posso Negro huma casa com tres rodas; no lugar da Locaia outra casa com quatro rodas; e não tem outra casa mais de engenho, porque corre munto fundo.
Usão os povos livremente deste rio, e estes povos que se servem das suas agoas, como asima digo, não pagam foro, nem penção da tal serventia.
O rio no que toca, do que passa por esta freguezia terá uma quarta de legoa, e quanto tem donde nasce athe donde acaba, não sei sua certeza, serão quatro pra sinco legoas.

A respeito do 7.º Interrogatório, que Altares tem esta Igreja, já disse do seu Altar mor, tem mais dous collaterais somente; o da parte do Evangelho tem huma imagem de Christo Crucificado de altura de tres palmos, e por baixo em huma banqueta o Menino Jesus, Maria José vestidos de seda; e da parte da Epistolla huma imagem de Nossa Snra do Rosário, da altura de quatro palmos, estofada sobre ouro, couza admirável, tem sua Irmandade na forma que asima digo.
Não tem mais interrogatórios o papel que me foi entregue, nem eu tenho destes montes, desta Igreja e desta terra cousa mais alguma que seja digna (...).

São Pedro da Lomba, 20 de Abril de 1758.
O Abbade Balthazar da Silva Moura