sábado, 21 de maio de 2016

RIO E OUTEIRINHO 
- Gondar Profundo -


Localizados frente a frente e separados apenas pelo rio Carneiro, estes dois lugares, outrora terra de oleiros e agricultores, preservam ainda o seu carácter genuinamente rural.

Lugar do Rio - Gondar
Lugar do Outeirinho - Gondar

Percorra a pé os seus caminhos estreitos e sinuosos, observe as suas graciosas construções graníticas, pare sobre a pequena ponte e deixe-se embalar pelo som da água que corre célere por entre os seixos e, se for no verão, não deixe de se refrescar na praia fluvial da "levada nova" ou, simplesmente, contemplar a natureza que, aqui, se conserva no seu estado mais puro.



Miguel Moreira (texto e fotografia)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

OVELHINHA E A II INVASÃO FRANCESA


Foi em Maio de 1809. Ovelhinha viveu os piores dias da sua existência: casas incendiadas, os haveres pilhados e a população barbaramente martirizada. Um autor fala em trinta e cinco mortos: “Quando passei na freguesia de Santa Maria de Gondar, que chorava ainda a tirana morte de trinta e cinco dos seus habitantes...” e, continua... “Ovelhinha foi reduzida a cinzas. Real foi tratada semelhantemente”. (1)
Em Gondar, os mortos foram tantos que tiveram de ser enterrados nos campos. (2)

Ruínas da II Invasão Francesa em Ovelhinha - Gondar
A 2 de Maio, e após catorze dias de resistência das forças portuguesas comandadas pelo general Silveira, as tropas de Napoleão conseguiram passar a ponte de São Gonçalo, em Amarante. Depois,  a fim de garantir uma possível retirada do exército francês para Espanha através das Beiras, tentam controlar toda a margem esquerda do Tâmega, nomeadamente a estratégica estrada pombalina que, pelo Cavalinho, conduzia a Mesão Frio e à Régua. É neste contexto que as tropas francesas, comandadas pelo sanguinário Loison, conhecido por “Maneta”, aterrorizam as populações, atacando-as, incendiando as suas casas e pilhando os seus haveres. Palmazões, Real, Cabanas, Reboreda, Carneiro, Ovelha do Marão e Ovelhinha foram das aldeias mais sacrificadas.
Só a 12 de Maio, com a vitória das forças do general Silveira, na batalha do Marancinho, e a derrota e consequente retirada das tropas de Loison, as populações se viram livres do terror infligido pelos franceses.
Para trás, ficou, no entanto, um povo destroçado, com as habitações destruídas, os seus haveres pilhados e a chorar os seus mortos. Algumas casas de Ovelhinha, que não chegaram a ser reconstruídas, atestam, ainda hoje, essa onda de destruição e barbárie.

Miguel Moreira

(         (1)- Frei Tomás de Santa Teresa, “Viagem Sentimental à Província do Minho em Agosto e Setembro de 1809”, Lisboa, Impressão Régia, 1809.
- Azeredo, Carlos de, “Invasão do Norte 1809”, Tribuna da História, Lisboa, 2004.
- Azeredo, Carlos de, “Aqui Não Passaram”, Civilização Editora, Porto, 2006.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

OLEIROS DE SANTA MARIA DE GONDAR

Estamos perante um dos mais antigos documentos retratados, conhecidos até à data, sobre a arte da olaria em Gondar. Trata-se de um Bilhete Postal, a partir de uma fotografia de A. T. Carneiro, com cerca de um século. No verso pode lêr-se: “Amarante (Portugal) – Olaria Grossa – Aldeia dos Paneleiros – Ferreira de Gondar”. “Photographia de A. T. Carneiro (n.º 29) – Amarante”. A data do carimbo dos Correios é de 15/5/1920.


Oleiros de Santa Maria de Gondar
Bilhete Postal (verso)

A família aqui retratada fazia da olaria a sua principal ocupação e, como podemos constatar, desde muito novos os filhos do sexo masculino eram iniciados na actividade. A imagem permite-nos, além disso, concluir sobre a tipologia de algumas das peças então produzidas, bem como sobre o tipo de roda de oleiro utilizada: baixa e movimentada com as mãos.
Nota: Tentarei identificar a família aqui representada, já que não tenho dúvidas quanto ao local onde a fotografia foi tirada: trata-se da “casa da figueira”, no lugar do Outeirinho. A figueira já não existe e sobre o telhado que se vê na imagem foi construída uma habitação. Ao fundo, na imagem, conseguimos ainda identificar algumas habitações do lugar do Rio.

Miguel Moreira

sábado, 23 de abril de 2016

A FEIRA DO CAVALINHO

Estamos em Abril e era em Abril que, no Cavalinho, para além das habituais feiras a 12 e 28 de cada mês, se realizava, no dia 29, a feira franca anual conhecida por “Feira dos Burros”. Nesta, em vez do gado bovino e suíno, os “reis da festa” eram o gado cavalar e o muar. A tradicional “corrida dos burros”, muito concorrida, era a grande atração, para gáudio e divertimento dos feirantes e da populaça. O vinho verde da região, servido nas tradicionais canecas de porcelana e acompanhado por um naco de anho assado ou pelo biscoito da Teixeira, ajudava a animar a festa.


Feira do Cavalinho (Anos 50) - Foto de Eduardo Teixeira Pinto
Feira do Cavalinho - Gondar (Fotografia de Eduardo Teixeira Pinto)


As fotos que apresentamos, da autoria do fotógrafo amarantino Eduardo Teixeira Pinto, datam dos anos 50 e 60, do séc. XX, e ilustram bem a afluência que a feira tinha nos seus tempos áureos.
A propósito, transcrevemos da página da JFG o texto seguinte:
"A Feira do Cavalinho, em Gondar, tem raízes ancestrais e a sua fundação está relativamente bem documentada.
Os registos que dela persistem datam da época das Invasões Francesas e atestam que se realizava no dia 12 de cada mês pelo facto de no lugar de Ovelhinha existir uma outra feira que se realizava mensalmente no dia 17.
No entanto, no reinado de D. Maria II, por imposição régia, a Feira do Cavalinho teria que ser mudada para a cidade de Amarante pelo que a Rainha mandou as tropas necessárias para que o seu mandato fosse seguido. Contudo, a população reagiu e opôs-se a tal decisão bloqueando todas as passagens possíveis a fim de impedir que a feira fosse deslocada. Tal intento foi conseguido dado que a Feira que acabou por ser transferida foi a que se realizava no lugar de Ovelhinha. Perante esta situação um fidalgo conhecido por “Alexandre Velho” solicitou à Monarca que esta concedesse mais um dia de feira, presentemente o dia 28 de cada mês.
A Feira do Cavalinho é bastante conhecida, pois a ela acorrem muitas pessoas que não são locais, especialmente agricultores e negociantes de gado. Esta afluência aumenta em determinadas épocas do ano, nomeadamente pelo S. Miguel, pelo Santo André e pelo Carnaval e prende-se com o facto de, nestas alturas, existirem maior número de produtos ligados à agricultura para comercializar. Predomina o comércio de gado especialmente bovino e suíno mas, também se comercializam utensílios agrícolas e legumes para plantar, confecções, pão regional, peixe e o famoso Biscoito da Teixeira."

Quanto à data da sua criação, desconhecemos a data exacta, mas sabemos que é posterior a 1758, já que a "Memória Paroquial de Gondar" não a refere, fazendo apenas referência à que se realizava em Ovelhinha aos 17 dias de cada mês. Estamos em crer que a do Cavalinho foi criada após a abertura da estrada pombalina, pelos finais do século XVIII.



Miguel Moreira

segunda-feira, 11 de abril de 2016

CAPELAS E ORAGOS DE GONDAR

Em 1758, segundo relatório do padre António Coelho Pedroza, nas “Memórias Paroquiais de Gondar”, existiam na freguesia cinco capelas:
“Tem esta Freguesia sinco capellas, huma da Freguesia que ademenistra o Excelentíssimo Conde de Redondo como Comendador e senhor dos frutos desta comenda, cujo orago hé Santo Amaro, em cujo dia acorrem a sua capella muntos devotos das vizinhanças com suas esmolinhas".

Capela de Santo Amaro (Ovelhinha - Gondar)
"No lugar de Ovelhinha tem huma capella munto moderna feita a expensas do Doutor Manuel Pereira Valente, natural desta Freguesia e assistente na cidade do Porto pella sua grande Literatura …"


Capela de Nossa Senhora do Carmo (Ovelhinha - Gondar)


"Tem outra no lugar da Salida com  invocaçom do senhor Santo António que mandou eregir o Padre  Gonçallo Nunes Pereira Valente, vigário de Sam Martinho de Carvalho de Rei".


Capela de Santo António (Casa da Saída - Gondar)

"No lugar de Vilella há duas capellas, huma a mais antiga seu orago Sam João Baptista de que hé adeministradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstimo que há poucos annos  mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho.” (1)


Capela de S. João Baptista (Vilela - Gondar)

Quatro destas capelas (S.to Amaro, S.ra do Carmo, Santo António e S. João Batista) conservam-se; a de São João Crisóstomo, em Vilela, foi dessacralizada; e, entretanto, construiu-se a de Nossa Senhora das Dores, na Quinta do Encontro, em Vila Seca.

(1)- P.e António Coelho Pedroza in “Memórias Paroquiais de Gondar”, 1758.

Fontes eletrónicas:

- capela de São João Crisóstomo (Vilela): http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1272757&ht=
- capela de S. António (Saída): http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1289187&ht=carvalho
- capela de São João Batista (Vilela): http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1266249&ht=joao


Miguel Moreira (texto e fotografia)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

RIO CARNEIRO NA “PONTE DA PASSAGEM”

É dos trechos mais bonitos do rio Carneiro. Já perto da partilha com Bustelo, a “ponte da passagem” é, porventura, uma das mais antigas de Gondar. Para além de permitir o acesso aos férteis campos que ladeiam o rio, esta ponte serviria, também, de ligação aos lugares da Reboreda, Pardinhas e Travanca do Monte.


"Ponte da Passagem" - Gondar

Rio Carneiro - Gondar

A propósito, transcrevo um documento, de meados do séc. XVIII, que se refere a este rio como “ribeira da Reboreda”:
“Tem este rio (Ovelha) para sul huma ribeira maior, cujo nome toma de hum bosque chamado A Reboreda. Corre esta do nascente para poente; tem a sua urigem nos padrões da Teixeira e logo corre apressada pellos despinhados montes por donde passa” (1).
(1)-In “Memórias Paroquiais de Gondar”, 1758.
Miguel Moreira

terça-feira, 22 de março de 2016

RIO CARNEIRO

Também conhecido como rio Fornelo, o Carneiro é, tal como o Ovelha, um dos rios estruturantes de Gondar.

Rio Carneiro em Ovelhinha - Gondar
Rio Carneiro em Ovelhinha - Gondar

Nasce nos Padrões da Teixeira e, depois de atravessar a freguesia de Carneiro, que lhe empresta o nome, desce de forma abrupta até Gondar onde desagua no rio Ovelha.
Já em Gondar, de forma mais suave, o rio flui por entre fecundas várzeas que irriga com as suas águas despoluídas. Era também aqui que a força das suas águas fazia mover muitos moinhos, hoje votados ao mais completo abandono.
Em Ovelhinha, uma pitoresca aldeia preservada, o rio exibe a plenitude da sua graça para encanto e deleite de quem a visita, para pouco depois, em Larim, juntando-se ao Ovelha, se despedir de Gondar.
Texto e fotografia: Miguel Moreira