terça-feira, 23 de junho de 2020

Memória Paroquial de S. Simão de Gouveia


MEMÓRIA PAROQUIAL DE SÃO SIMÃO DE GOUVEIA (1758)

(AMARANTE)

"Satisfazendo à peritíssima ordem de V. Exmª, e a resposta dos Interrogatórios inclusos, digo o seguinte:
1. Esta Parochia de São Simão de Gouvea fica em a Provincia de Entre Douro e Minho, Bispado do Porto, Comarca de Sobretamega, termo do concelho de Gouvea Ribatamega.
2. He Senhor deste termo Fernando de Souza Coutinho Castello Branco e Meneses, Conde de Redondo da Corte da Cidade de Lisboa.
3. Tem = 183 = vezinhos, e he o numero de pessoas = 577 =.
4. Esta situada em campina debayxo de altos oiteyros, e assim não se descobrem della povoaçoens algumas.

5. Não tem termo privativo mais do que o referido.
6. Esta parochia está em o Lugar da Igreja, e comprehende os lugares seguintes: Villanova, Lourosa, Assento da Igreja, Bugalheyra, Aldeavelha, Infesta, Paredes, Belleçe, e Friande.
7. O orago desta Parochia he São Simão Apostolo: tem sete Altares digo sinco Altares, silicet, o Altar Mor de São Simão, e Santa Anna, Nossa Senhora com o Minino Deos, e o Altar Colateral da parte da Epistola com a imagem do Senhor Crucificado, São Sebastião, e o Minino Deos; e outro colateral da parte do Evangelho, aonde esta colocada a Imagem da Senhora do Rosário, e dous subcolaterais, hum da parte da Epístola da Invocação do Senhor Jesus, de que he administrador o Religioso Dom António de São Gonçalo da Ordem dos Cruzios tem somente huma nave; tem mais da parte do Evangelho hum Altar subcolateral da Invocação das Almas, privillegiado em o dia de segunda feyra de cada semana com o retábulo das Almas pintadas: tem duas Irmandades, huma das Almas, e outra de Nossa Senhora.

Igreja Matriz de São Simão de Gouveia - Amarante

O Parocho desta Parochia he cura por apresentação do Reverendo Reytor de Santo Eloy da cidade do Porto, cuja renda comimmente consta de quinhentos e sessenta e sete mil reis.
Tem esta parochia quatro Ermidas, huma da invocação do Patriarcha São Domingos, outra da invocação de São Martinho, e outra da invocação da Senhora do Campo, e pertencem ao povo desta Parochia e outra da invocação do Senhor Jesus, e pertence ao Reverendo Presbytero Pantaleão Marques Barreto do Habito do Apostolo São Pedro. As primeiras três estão separadas do povo, a ultima esta contígua as casas da residência do dito Padre.
À Ermida de São Domingos acode huma romagem da freguezia de São Martinho de Carvalho de Rey, Arcebispado de Braga em o primeyro Sabbado do mês de Junho de cada hum anno; à da Senhora do Campo acode outra romagem da dita freguezia do Arcebispado em o dia décimo do mês de Agosto de cada hum anno; e outras mais em diversos dias do anno.
Os frutos da terra, que os moradores recolhem em Mayor abundância são milho grosso, centeyo, e vinho verde.
Não tem correyo e serve do correyo da villa de Amarante, donde dista huma Legoa.
Dista esta Parochia do Bispado da Cidade do Porto onze legoas e da Cidade de Lisboa sessenta legoas.
Chamasse esta Parochia São Simão de Gouveia: tem de comprimento huma legoa, e de largura meya legoa: principia em a aldea Villanova, e acaba em a aldea de Bugalheyra.
Não nascem nella rios.
Alguma parte da Serra há nesta Parochia, e se cultiva de nove em nove anos, e o mais que produz he centeyo.
He fria e ventosa do Oriente, Ocidente, e Norte.
Sim há creaçoens de vacas, egoas, ovelhas, e cabras, e caça de lebres, coelhos, perdizes e galinholas”.

ANTT – Dicionário Geográfico, São Simão de Gouveia, volume 17, m. 90, fls. 501-504.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Memória Paroquial de Cabeceiras de Gestaço (Madalena)

Já referida nas Inquirições de 1258, a Igreja de Santa Maria Madalena do Covêlo era abadia do Mosteiro de S. Salvador de Lufrei que, tempos depois, viria a tornar-se dependente do de Gondar. 

Madalena ou Cabeceiras de Gestaço, como também era designada, foi sede do concelho de Gestaço até à sua extinção, em 1836, e recebeu Carta de Foral de D. Manuel I, a 15 de Maio de 1514. Santa Maria de Gondar foi uma das 14 freguesias deste concelho.
Sobre a freguesia da Madalena, diz a Memória Paroquial, assinada pelo vigário João Pinto Soares:

“Em observância da ordem e interrogatórios que me foram entregues o que sei e achei he o seguinte.
1. Esta freguezia de Santa Maria Magdalena de Amarante he província do Minho, comarqua de Vila Real, Arcebispado de Braga, termo do concelho de Gestaço, comarqua de Guimarãis.
2. He justiça posta por Elrei, e feita a eleiçom pello Corregedor da comarqua.
3. Tem esta freguezia oitenta e oito fogos, e pessoas de sacramento duzentas e vinte e oito, e menores vinte e coatro.
4. Está situada esta freguezia em hum vale pegado ao rio Tamega de cujo senam descobre mais que a vila de Amarante que fica da outra parte do dito rio.
5. He esta freguezia do termo do dito concelho de Gestaço que compreende quatorze freguezias.

Freguesia de Santa Maria Madalena - Amarante
6. A Igreja Paroquial desta freguezia está pegada ao rio Tamega no meio da freguezia na rua da Magdalena e tem mais o Bairro do pelourinho, a rua do Cabo, o Bairro do queimado, o Bairro da Borralheira, o Bairro da portelinha, o Bairro da feitoria, o lugar da Bulgoza, o lugar de Paredes, o lugar das Caldas e o lugar da Ribeira.
7. He o orago desta freguezia Santa Maria Magdalena de Amarante, tem dois altares colaterais com imagem de Nossa Senhora hum e com a de Sam Sebastiam outro.
8. He vigagaria ad natum por apresentasam do Reverendo Reytor de santa Maria de Gundar, comenda do ilustrissimo Conde do Redondo, e tem de renda hum anno por outro setenta mil reis de fructus sertos e incertos.

13. Tem duas Ermidas, huma da Senhora do Pilar sita no Bairro da portelinha, que he de dona Christina Barbosa Cabral, e outra de Santo António da boa vista de que he administrador Manoel Cardozo de Loureiro capitam mor de Viseu.
14. À dita ermida de Santo António acode muita romagem das freguezias vezinhas no seu dia e na véspera e alguns dias do anno, por ser santo milagroso.
15. Os fructos desta freguezia em maior abundancia são azeite, vinho, e ham algum milho miúdo senteio e trigo, feijam e painso.
16. Tem juiz ordinário, dois veriadores e procurador e escrivam da camara e nam estam sujeitos senam ao corregedor da comarqua.
18. Nesta freguezia tem havido muitos eclesiásticos tanto seculares como regulares e Provinsiais e menistros da justisa.
20. Servese esta freguezia do correio da vila de Amarante que vem da sidade do Porto para Vila Real que de huma a outra parte sam quinze legoas.
21. Desta freguezia à sidade capital deste Arcebispado de Braga sam oito legoas e dela ou desta freguezia à sidade de Lisboa sessenta legoas.

1. O rio Tamega que pasa por parte desta freguezia nasce em Galiza e pasa por Chaves.
2. No seu nascimento nam he caudeloso, porem nesta freguesia sim pois em 28 de janeiro de mil e setecentos e corenta este creceu em termos que chegou à capela mor desta freguezia que senam recorda outra e corre em abundancia todo o anno. He de curso arrebatado e innavegavel.
6. Corre este rio de norte a sul. 
7. He abundante de todo o género de peixe e algumas trutas e alguns anos lampreias.
8. Nele se pesca à cana e com chumbeira quem quer em todo o tempo do anno.
9. No destricto desta freguezia nam há pesqueiras particulares.
10. No destricto desta freguezia se cultivam suas margens e só tem arbores de vinho e ortelices.
11. À agoa deste rio Tamega vem muita gente por concelho de médicos tomar banhos no tempo de veram.
12. Sempre se conservou com o nome de rio Tamega desde o seu nascimento.
13. Vai finalizar ao rio Douro ao sítio de entre ambos os rios e dahi ao Porto para o mar.
16. No destricto desta freguezia tem o rio Tamega hua azenha com duas rodas, também ha nesta freguesia hum lagar de azeite.

Amarante, 15 de Março de 1758.
O vigário João Pinto Soares

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Ovelhinha - Gondar

OVELHINHA

a magia de uma aldeia

O topónimo Ovelhinha deriva de Ourelinha, diminutivo de ourela que significa estreita faixa de terreno na orla de um rio. É isso que Ovelhinha é: uma idílica aldeia a beijar o rio Fornelo.

Lugar de Ovelhinha - Gondar
Mas Ovelhinha não é apenas o casario e o rio com as suas  pequenas pontes e velhos moinhos. Ovelhinha é também história. História da crueldade dos soldados de Napoleão que velhos pardieiros ainda testemunham. História de um passado senhorial que um solar e sua capela evidenciam. História do trigo de cantos que todos adoramos e teve aqui as suas origens.
Ovelhinha tem, ainda, a Senhora do Carmo com seu belíssimo retábulo em talha dourada; e Santo Amaro com sua festa de sabor carnavalesco, onde o sagrado e o profano convivem pacificamente. E tem uma escola, mas não uma qualquer escola. Tem uma escola linda, centenária, do tipo Adães Bermudes, de boa memória para muitos de nós.
Ovelhinha é, por tudo isto, uma aldeia repeleta de encantos e de histórias que vale a pena desvendar. Percorrê-la vagarosamente, descobrir os seus recantos, sentir os seus cheiros, observar o estilo de vida calmo e tranquilo dos seus habitantes é algo que nos enleva os sentidos e nos acalenta a alma.
Não desperdice o convite e venha desfrutar esta dádiva da natureza.

Miguel Moreira

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Memória Paroquial de Santa Maria de Gondar - Amarante


GONDAR EM 1758


A “Memória Paroquial de Gondar”, descrita pelo P.e António Coelho Pedroza, a 20 de Março de 1758, é, porventura, o mais importante documento para a história de Gondar, no século XVIII.
Transcrevemos alguns excertos desse valioso documento (manuscrito):

“Descriçom desta Freguezia de Sancta Maria de Gundar, feita pelo encomendado della António Coelho Pedroza, natural da Villa de Murça, desta Comarca de Villa Real.

1. He esta Freguezia da Província de Entre Douro e Minho, do Arcebispado de Braga Primaz, da Comarca de Villa Real, do Concelho de Gestaço.
2. Sua Magestade que Deos guarde he senhor della.
4. Está esta Freguezia situada entre montes com distância do Marão duas légoas e tão baixa que della se não descobre povoaçom alguma.
5. He esta Freguezia membro do Concelho de Gestaço.

Lugares
“Os povos de que se compõe o corpo desta Freguezia sam – Mosteiro, Aldea, Larim, Vau, Palmazões, Real, Curjeiras, Outeirinho, Rio, Villa Seca, Valinhas, Villela, Crispellos, Areas, Salida, Quintam”.

População
“Tem esta Freguezia, conforme o rol dos confessados que nella achei, duzentos e vinte fogos, pessoas de sacramento seiscentos e trinta e huma, menores sessenta e oito”.


Igreja do Mosteiro de Gondar - Amarante

Igreja do Mosteiro
“A Igreja desta Parochia esta em huma das bordas da Freguezia em hum dos povos della que lhe chamamos o Mosteyro, cuja dominaçom tomou por ser nos séculos passados de Religiosas Beneditinas, que consta por tradiçom fazer constar de muitos archivos.
Seu orago he de Sancta Maria de Gundar, tem três altares, o mor donde se conserva o Sacrário com o Santíssimo Sacramento, e dois colaterais, o da parte direita do santo Nome de Jezus, e da parte esquerda do Senhor Sam Sebastiam; tem huma Irmandade das Almas.
Nesta Parochia muito antigua há hum campanário com seus sinos de vox muito suave e sonora quando convidam os freguezes à palavra de Deos e a ouvir missa, mas triste e fúnebre quando os chama à sepultura. O mais piqueno conserva ainda hoje o seu timbre porque foi sempre pouco gasto; o maior foi bello contralto, mas hoje por quebrado ficou em tenor desentoado, mas nas festas sempre participa de sua glória quem os repica”.

Capelas
“Tem esta Freguesia sinco capellas, huma da Freguesia que ademenistra o Excelentíssimo Conde de Redondo como Comendador e senhor dos frutos desta comenda, cujo orago hé Santo Amaro, em cujo dia acorrem a sua capella muntos devotos das vizinhanças com suas esmolinhas.
No lugar de Ovelhinha tem huma capella muito moderna feita a expensas do Doutor Manuel Pereira Valente, natural desta Freguesia e assistente na cidade do Porto pella sua grande Literatura …
Tem outra no lugar da Salida com  invocaçom do senhor Santo António que mandou eregir o Padre  Gonçallo Nunes Pereira Valente, vigário de Sam Martinho de Carvalho de Rei.
No lugar de Vilella há duas capellas, huma a mais antiga seu orago Sam João Baptista de que hé adeministradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstomo que há poucos annos  mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho”.

Feiras
“Tem esta Freguesia três feiras no anno, aos dezassete de Novembro, de Setembro e Janeiro, que só consta de javalis mansos e algumas cousas comestíveis, e outra do mesmo no dia do senhor Santo Amaro, a quinze de Janeiro, e todas francas”.

Geografia
“Toda esta Freguezia he composta de bosques, penhascos, outeiros, ribanceiras e arvoredos frutíferos, de espinho e silvestres...

Rio / Pesca
"O rio... hé rico em trutas excelentes, algumas de suficiente grandeza, bellos escalos, estupendas bogas e peixinhos...
Não tem pesqueira particular, hé comum todo o anno, e por isso percorrido por vários pescadores de chumbeira, redes de arco, tresmalhas e barredouras".

Moinhos e outros engenhos
“Tem vários moinhos alveiros (trigo) e broeiros (milho), nenhum lagar de azeite, nem pizão, nem nora, nem outro algum engenho...

Estradas
“Por esta freguesia passa uma estrada do nascente ao poente, tão povoada de passageiros pedestres e equestres que com eles se comunicam não só o nosso Reino, mas também toda a Castela Velha e nessa com todas as suas Províncias, Reinos e cidades, mas também a França, a Itália, a Palestina ou Roma”.

Pontes
“Tem nesta freguesia uma ponte que chamam de Larim, de cantaria, terá de comprido um tiro de mosquete, tem quatro arcos, da parte superior tem três cortamares com que se defende nas enchentes; na inferior três baluartes...

Data e assinatura do documento

Notas: Os títulos a negrito são acrescentos da minha responsabilidade.
Mantivemos a ortografia do documento.
Miguel Moreira

segunda-feira, 18 de maio de 2020

A Torre da Lagariça e os Gundares


A TORRE DA LAGARIÇA E OS GUNDARES


Imortalizada por Eça de Queiroz, no romance “A Ilustre Casa de Ramires”, a Torre da Lagariça esteve associada, durante muito tempo, à linhagem dos Gundares.

Torre da Lagariça, em Resende
Um filho de Mem Gundar, Egas Mendes de Gundar, casou com Maior Pais Pinto, filha de Paio Soares Pinto, senhor de muitos bens nas Terras da Feira. O seu filho Gonçalo Rodrigues Pinto dá continuidade à família “Pinto” e passa a habitar a “Torre da Chã, em Riba de Bestança (Cinfães). No século XVI adquirem a famosa Torre da Lagariça.
Brasão dos "Pinto" na Torre da Lagariça
Edificada na primeira metade do Século XII, a Torre da Lagariça, um robusto torreão militar de planta quadrada, tinha com principal função a defesa da linha do Douro, servindo de torre de atalaia. Porém, com o avançar da Reconquista para o sul, a sua função estratégica e militar foi perdendo significado e, como tal, foi adquirida no século XVI pela família Pinto, descendente dos Gundares e senhores da Torre  da Chã e do Paço de Covelas. A Torre permaneceu na posse dos "Pinto" até 1610, data em que foi adquirida pelos Pinto Cochofel, atuais proprietários, que lhe acrescentaram o solar e a tornaram residência da família.
Em adiantado estado de degradação, o imóvel encontra-se à venda, por incapacidade dos seus proprietários realizarem as obras necessárias.

Miguel Moreira

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Ponte de Larim - Gondar

A PONTE DE LARIM


No lugar de Larim, esta ponte, mandada construir por Filipe III, em 1630, veio solucionar o velho problema da travessia do rio Ovelha, já que, até essa data, essa travessia era feita por um “vau” – sítio pouco profundo do rio por onde era possível passar a pé ou a cavalo. Daí a designação, Lugar do Vau, por que era conhecida a localidade na margem esquerda do rio. Larim era a designação do lugar na margem direita.


Ponte de Larim em Gondar - Amarante
Remonta à romanização uma via que, a partir da via romana Tongobriga-Panóias, passaria por Larim rumo às minas do Teixo, no Marão. Esta via atravessava Gondar, em Vila Seca subia a Bustelo e continuava por Corvachã em direcção às minas (1). Estes caminhos mantiveram-se praticamente inalterados, ao longo de toda a Idade Média.
Na Idade Moderna assiste-se a um incremento das ligações a Trás-os-Montes e às Beiras e daí a Castela. Do Covelo (Arquinho), partiam duas estradas em direcção ao interior: uma para Trás-os-Montes (pela rua da Madalena, Lufrei, Marancinho, Ovelha do Marão e Campeã), e outra para as Beiras. Esta, pela rua do Cabo, subia Padronelo, atravessava Gondar, subia a Bustelo e, por Carneiro e Teixeira, dirigia-se ao Douro. Note-se que a estrada pombalina só é construída em finais do séc. XVIII pela Companhia dos Vinhos do Alto Douro.
É neste contexto de incremento das comunicações terrestres que Filipe III manda construir, em 1630, as pontes de Larim e Ovelha do Marão: a de Larim na estrada para o Douro e a de Ovelha do Marão na estrada para Vila Real.
Assim, a três de Julho de 1630, Filipe III adjudica a obra ao mestre e arquiteto João Lopes de Amorim, morador na cidade de Guimarães, pelo valor de sete mil e quinhentos cruzados. (2)
Em 1758, na Memória Paroquial de Gondar, redigida por António Coelho Pedrosa, Reitor de Gondar, a ponte é descrita nos seguintes termos: “tem nesta freguesia uma ponte que chamam de Larim, de cantaria, terá de comprido um tiro de mosquete, tem quatro arcos, da parte superior tem três cortamares com que se defende nas enchentes; na inferior três baluartes...”. E, no mesmo documento, diz-se: “por esta freguesia (Gondar) passa uma estrada do nascente ao poente, tão povoada de passageiros pedestres e equestres que com eles se comunicam não só o nosso Reino, mas também toda a Castela Velha e nessa com todas as suas Províncias, Reinos e cidades, mas também a França, a Itália, a Palestina ou Roma” (3). Daqui podemos avaliar a importância desta estrada, tanto no contexto regional como internacional.
Em 1867, aquando da construção da nova estrada real para Vila Real (EN 15), que vem substituir a velha estrada por Marancinho e Ovelha do Marão, o tabuleiro da ponte é adaptado às condições da nova via. Esta data encontra-se inscrita na base dos pedestais NO e SE, de cada lado da ponte (OP-1867). (4)
Mais recentemente, em 2010, o tabuleiro é novamente alargado para possibilitar o cruzamento de veículos.

Ponte de Larim, em Gondar - Amarante
Descrição da ponte:
Ponte em granito, com quatro arcos de volta perfeita, iguais, com aduelas estreitas e compridas de formato regular, sustentadas por pilares, os dos extremos assentes nas margens. Os pilares centrais são protegidos por talhamares, a montante, e por talhantes, superiormente escalonados, a jusante.
Guardas em gradeamento de ferro assente em cornija, apresentando nos encontros pedestais encimados por plinto galbado e elemento ovóide. Dois dos pedestais, NO e SE, apresentam na face frontal inscrição moldurada OP-1867 (data da adaptação do tabuleiro a estrada real).
Mestre pedreiro: João Lopes de Amorim (da cidade de Guimarães).

Miguel Moreira
2)- Sousa Viterbo, “Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses”, 3 vol.s, INCM, Abril de 1988.
(4)- https://memgundar.blogspot.com/search/label/EN%2015

terça-feira, 5 de maio de 2020

Corujeiras - Gondar


LUGAR DAS CORUJEIRAS


“Pequena povoação em lugar penhascoso” ou “aldeia situada num lugar escarpado, próprio das corujas”, é assim que os dicionários definem Corujeira.
Topónimo de origem geomorfológica, o nome Corujeiras deriva das semelhanças que existem entre a morfologia do terreno do lugar e as características dos locais onde as corujas costumam viver e nidificar: sítios altos e escarpados.
Lugar de Corujeiras - Gondar
Corujeira também significa lugar pobre e de poucos recursos, precisamente porque se situa entre duas escarpas. E, é isso que acontece com o lugar de Corujeiras, em Gondar. Porque de fracos recursos agrícolas, a sua população teve de se dedicar a outras atividades, designadamente à olaria. Em 1830, em Corujeiras trabalhavam 17 oleiros, do total de 77 na freguesia. E em 1945, apesar do declínio da arte, a olaria ainda era uma das principais profissões do lugar ocupando seis chefes de família, a saber: António Ribeiro Peixoto, José Ribeiro, José Ribeiro Félix, Manuel Bernardes Nunes, Manuel Pereira Andreso e Salvador Ribeiro Moutas.
Um dos lugares mais antigos da freguesia, Corujeiras mantém, nos dias de hoje, a mesma configuração que sempre teve: uma rua única, estreita e sinuosa, com as casas alinhadas de um e outro lado do caminho. É esta a sua singularidade.

Miguel Moreira