domingo, 17 de outubro de 2021

O Engenho do Linho da Feitoria (Amarante)

 

Uma das mais nobres e raras matérias primas na confeção de vestuário e outras peças de uso doméstico era o linho.

Até à confeção do tecido, o linho percorria um longo caminho que, só por si, tornava este produto caro e exíguo e que, por isso, possuí-lo era privilégio apenas de alguns. As peças de linho (colchas, lençóis, toalhas, camisas...) eram utilizadas apenas em dias festivos ou momentos especiais e, habitualmente, faziam parte do enxoval que as mães ofereciam às noivas suas filhas.

Do longo ciclo do linho, falamos, hoje, da sua moagem.

Depois de colhido e ripado para lhe extrair as sementes ou linhaça, o linho era macerado através da curtimenta que consistia em submergir-lo em poças de água, onde permanecia imerso durante 8 a 10 dias. Esta operação era indispensável para se poder obter a separação dos elementos fibrosos (têxteis) dos lenhosos.

Retirado da água, era posto a secar durante cerca de 15 dias. Só depois é que se procedia à sua moagem ou maçagem, assunto desta publicação.

Azenhas da Feitoria (à direita o engenho do linho)

Em que consistia e como era feita a moagem ou maçagem do linho?

Esta operação consistia em fraturar a parte lenhosa da planta de forma a facilitar a separação entre a componente lenhosa e as fibras têxteis.

Outrora era feita através da malha com mangual, um trabalho duro que, com o tempo, passou a ser feita em engenhos movidos por tracção animal, ou a água como o que a imagem documenta.

Moagem do linho (Feitoria - Amarante)

O da imagem fazia parte de um conjunto de azenhas na Feitoria, em Amarante, e movia-se por uma roda vertical movida pelas águas do Tâmega, desviadas através de um caneiro ou gola. Era constituído por um sólido cilindro ou tambor rotativo com a superfície periférica cortada por caneluras transversais, onde engrenavam uma série de roletes, também canelados, dispostos à sua volta. O linho era fraturado ao passar entre o tambor e os roletes, libertando assim as fibras de muitas das suas componentes lenhosas. Os banhistas queixavam-se da comichão provocada pelas arestas libertadas pela moagem e que iam rio abaixo. De salientar, também, que estes engenhos tinham apenas uma cobertura, sendo abertos dos lados para que o vento espalhasse as arestas libertadas, tão incómodas para as pessoas.

A moagem era sazonal, feita nos meses de verão, altura em que o linho, depois de macerado e bem seco, estava em condições de ser moído. Também os meses de verão, fora do período das cheias, eram os mais aptos para que no rio Tâmega fossem montados estes engenhos de maçar. Para acautelar as máquinas, estas poderiam depois ser desmontadas e guardadas durante o inverno.

Para além do engenho da Feitoria, nas imagens, há notícia de outros instalados nas margens do Tâmega. Em meados do século vinte, licenciados pela Direcção de Hidráulica do Douro, existiam engenhos de maçar na Granja (Rebordelo), em Varões (Gatão), Frariz (Lufrei) e em Gondeiro (Salvador do Monte). Existiu também um junto das Azenhas da Varziela (Amarante). (1) E segundo o inquérito realizado, em 1855, pela Junta Geral do Distrito do Porto, existiam no município de Amarante treze engenhos de maçar o linho tocados a água e dezassete utilizando força animal. (2)

Engenho do linho (Feitoria - Amarante)

Em ruínas, as azenhas da Feitoria estão votadas ao mais completo abandono. A cultura do linho passou a estar submetida à grande indústria e a sua moagem a ser feita em moinhos acionados a electricidade ou motores de combustão, caindo  em desuso os antigos processos de moagem em moinhos hidráulicos.

(1)- Abrantes, Joaquim Roque, Património etnográfico afectado pela barragem do Torrão, Lisboa, 1985, p. 121.

(2)- Relatório da Junta Geral do Distrito do Porto, 1855, Porto, 1856.

Miguel Moreira

Outras imagens das Azenhas da Feitoria

(o engenho do linho à direita, nas imagens)







domingo, 26 de setembro de 2021

A VINDIMA

 

Vindima é sinónimo de festa e alegria. Não porque o trabalho seja leve, mas porque associado ao vinho que é, em si, fonte de prazer e alegria.

Já na Grécia antiga, o deus da vinha e do vinho, Dionísio, era um deus alegre e divertido e, na civilização romana, as “Bacanais”, festas em honra do deus Baco, eram festas com exagerado consumo de vinho e muitos excessos.

A vindima fazia-se com recurso a familiares, amigos e vizinhos que, por sua vez, contavam com os mesmos, numa calendarização onde não podia haver sobreposições. Porém, hoje em dia, com o plantio de grandes vinhas e a produção mais orientada para a comercialização, a vindima insere-se numa atividade empresarial e a mão de obra passou a ser, essencialmente, assalariada e não por recurso a vizinhos e amigos. Assim, a vindima perdeu, em parte, aquele ambiente de convívio e de festa que, antigamente, possuía.

Vindima - foto de Eduardo Teixeira Pinto

Há meio século atrás e com a predominânicia da vinha de “enforcado”, a vindima fazia-se com grandes escadas que homens, fortes e musculados, encostavam às árvores e subiam para ir colher as uvas lá nas alturas, como tão bem nos retrata o fotógrafo Eduardo Teixeira Pinto. “Uvas”! gritavam eles para chamar as cesteiras que lhes despejavam as cestas sem terem de descer as escadas. Outros gritavam “olh’ó traseiro” para que o último se despachasse.

O patrão, esse distribuía cigarros e, com uma abonada “cabaça”, que passava de mão em mão, ia dando de beber aos trabalhadores. A meio da manhã, surgia a patroa, de açafate à cabeça, para saciar os vindimadores com uma merenda farta, onde não faltava o salpicão, o presunto ou o bacalhau frito. Comia-se de pé que não havia tempo a perder, pois o dia fazia-se curto para o muito que havia a fazer.

Pisa das Uvas - foto de Eduardo Teixeira Pinto

No final do dia vinha o lagar. Aí, nas cerca de duas horas de pisa, a festa mantinha-se com cantares populares acompanhados, quase sempre, ao toque da concertina ou do realejo.

E, como diz o ditado, “até ao lavar dos cestos” é vindima. 

Nota: as fotografias que apresentamos, mais uma vez, são do exímio fotógrafo amarantino Eduardo Teixeira Pinto que, como poucos, soube retratar o quotidiano das gentes da sua/nossa terra.

 Miguel Moreira (texto)

Eduardo Teixeira Pinto (fotografias)



Vindimadores sobem grandes escadas de madeira
para colher as uvas no topo das árvores


Vindimadores, no cimo das escadas, com as cestas
penduradas pelos cambitos


Mulheres cesteiras aguardam que os vindimadores 
lhes entreguem as cestas cheias para as despejar
em cestos de madeira


A tarefa de colher as uvas cabia sobretudo aos homens


No final da vindima, homens e crianças, alegremente, 
pisavam as uvas, durante cerca de duas horas, no lagar de pedra.
Na imagem também podemos ver duas prensas que serviam
para espremer o bagaço após a tira do vinho.


Fotografias de Eduardo Teixeira Pinto






quarta-feira, 14 de julho de 2021

Doutor António Fernandes da Fonseca

 

NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO

 

Nascido em Gondar, a 4 de Agosto de 1921, António Fernandes da Fonseca, reputado professor catedrático e figura maior da psiquiatria e saúde mental em Portugal, completaria este ano cem anos de vida.

No centenário do seu nascimento, Sentir Gondar presta-lhe esta singela homenagem, publicando um soneto da sua autoria, escrito em Londres, em 1956, e publicado na Colectânea “Poesias de Amarante” Anos 80 (1). Neste poema, Fernandes da Fonseca extravasa, segundo as suas próprias palavras (2), sentimentos que o ligam ao imaginário da sua infância, vivida em Gondar, sua terra mãe.


MINHA ALDEIA

 

Ó minha aldeia rude, adormecida

À sombra misteriosa dos pinhais,

Que, num sonho de amor, abriste à vida

A alma secular de alguns casais.

 

Na tua encosta amiga, ressequida,

Bebeu minh’alma tardes outonais

E sinto a mágoa triste e dolorida

De qu’rer matar a sede e nunca mais.

 

Eu apar’ci em ti à mesma hora

Em que, milénios antes, uma aurora

Pintou de rubra cor tua paisagem,

 

Instante em que nasci, teu filho-irmão,

Que p’ra sempre incrustou no coração,

Telúrico sentir da tua imagem.

 

(1)- in Poesia de Amarante – Anos 80 / Colectânea, Biblioteca de Autores e Assuntos Amarantinos, 1984.

(2)- A. Fernandes da Fonseca, Encontros com Teixeira de Pascoaes, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2002, pág. 61-62.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Ovelhinha e a Ordem do Amaranto

 

Com “pompa e circunstância”, em Outubro de 1971, Amarante recebia, ao mais alto nível, uma delegação da prestigiada ordem sueca “AmaranterOrden” (1). Do evento, o jornal amarantino “Flor do Tâmega” deixou-nos uma detalhada reportagem, documentada ao pormenor com fotografias de Eduardo Teixeira Pinto e um minucioso texto do professor F. Soares Gonçalves.

"Flor do Tâmega" de 3/10/1971

A comitiva, presidida pelo Barão Von Essen, Grão-Mestre da “AmarantenOrden”, e de que faziam parte alguns membros da aristocracia sueca, foi recebida pelo presidente da Câmara de então, o comendador José Gonçalves de Abreu, membros do executivo amarantino, pelo Governador Civil do Porto e pelo Presidente da Comissão de Turismo da Serra do Marão, Eng. Pedro Alvellos.

Como fundamento desta tão ilustre “embaixada” esteve a pressuposição de que a referida “Ordem do Amaranto” teria sido fundada, em 1653, pela rainha  Cristina da Suécia, em homenagem a D. António Pimentel, presumivelmente nascido em Ovelhinha, Gondar, e que o nome “Amaranto” seria alusivo a Amarante. Dizia-se, ainda, que a rainha ter-se-ia apaixonado por D. António Pimentel e que este, no baile inaugural da Ordem, teria surpreendido a raínha, disfarçado-se de pastor do Marão. Com base nestes pressupostos, o programa da visita incluíu uma deslocação à Casa do Ribeiro, em Ovelhinha, Gondar, pertença da presumível família de António Pimentel.

Todavia, a verdade dos factos é a seguinte:

D. António Pimentel
D. António Pimentel, de seu nome completo António Pimentel de Prado y lo  Bianco, nasceu em Palermo (Itália) em 1604. Era filho de Lorenzo Pimentel de Prado que, por sua vez, tinha nascido em Joarilla (Leon), mas que foi viver para Nápoles, onde desempenhou vários cargos públicos e conheceu a sua futura esposa. Casados, foram viver para Palermo, onde nasceram os seus três filhos. Em 20 de Abril de 1652, um dos filhos, António, é nomeado embaixador de Espanha em Estocolmo, tendo, ao que parece, conquistado, desde logo, o coração da rainha Cristina, com quem privava e que terá fundado, em sua honra, a AmarantenOrden.

São, por isso, de descartar as presumíveis origens de António Pimentel em Ovelhinha, na freguesia de Gondar. Nem existem dados que indiciem a sua ascendência em Ovelhinha.

Relativamente ao nome Amaranto, este não é alusivo a Amarante (cidade portuguesa), mas sim ao Amaranto (planta/flor). Tanto assim é que grande parte do discurso proferido pelo Grão-Mestre da Ordem, Barão Von Essen, na sessão solene nos Paços do Concelho de Amarante, é preenchido com referências às várias espécies dessa planta e às suas propriedades.

Também em relação ao facto de António Pimentel se apresentar no baile inaugural vestido de pastor do Marão, sabemos que tal não é verdade e que o embaixador se apresentou disfarçado de Marte, deus romano da guerra.

Miguel Moreira

(1) - Ordem do Amaranto:

Emblema da "Ordem do Amaranto"
Ordem sueca fundada, em 6 de janeiro de 1653, pela raínha Cristina. Segundo consta, a ordem foi fundada em homenagem e memória dos seus encontros privados com o embaixador espanhol D. António Pimentel. Foi, inicialmente, limitada a 15 cavaleiros que “participavam dos prazeres mais íntimos da rainha” e que tinham de permanecer solteiros. A sua fundação deu-se durante um baile convocado pela rainha, num sábado da epifania, no palácio Jacobsdal, em que os participantes deviam apresentar-se disfarçados de outros personagens.
O lema da ordem é "dolce nella memoria" e o nome anda associado a uma flor, considerada "imperecível", o Amaranto.
Em 1656 a ordem foi dissolvida, mas, em 1873, o seu nome foi apropriado pelos maçons como a "Ordem do Amaranto" (Order of the Amaranth).

Miguel Moreira

domingo, 11 de abril de 2021

Moinho do Outeirinho - Gondar

 

É de nós sobejamente conhecida a importância que a indústria moageira teve em Gondar. Já, em 1758, a Memória Paroquial de Gondar, descrita pelo P.e António Coelho Pedroza, referia que Gondar tinha "vários moinhos alveiros (de trigo) e broeiros (de milho). (1)

Aproveitando os recursos hídricos que lhe eram oferecidos pelos rios Ovelha e Carneiro que, nascendo nas encostas do Marão e com caudais generosos, atravessam a freguesia, construíram-se nas suas margens mais de uma dezena de moinhos, uns para uso privado, outros para fins industriais. Os do Salto, os das Sumidas, da Saída e os do Tojal, no rio Ovelha, e os do Outeirinho e da Ovelhinha, no rio Carneiro, contam-se entre os mais importantes.


Moinho do Outeirinho - Gondar


Com um passado de mais de duzentos anos, o do Outeirinho, no rio Carneiro, é, sem dúvida, dos mais antigos da freguesia.

Um documento de 1830, “Livro de Registo dos Fogos e Moradores no Distrito da 2.ª Companhia das Ordenanças de Gestaço”, já nos dá conta de um moleiro no lugar do Outeirinho. Já o “Recenseamento dos Mancebos para o Recrutamento Militar”,  entre 1870 e 1880, regista dois moleiros do mesmo lugar. E em 1882, no “Recenseamento Eleitoral do Concelho de Amarante”, na distribuição de famílias por profissão, há o registo de um moleiro no lugar do Outeirinho, bem como, dois lavradores, um oleiro, um pedreiro, dois proprietários e um cantoneiro.

Propriedade do sr. Arnaldo Pereira Nogueira, por herança de Madalena Pereira da Costa, em meados do século passado, os moinhos do Outeirinho foram explorados, durante mais de trinta anos, pelo sr. Alfredo Nogueira, o “ti Alfredo do Moinho”, até à década de sessenta do século passado. Com duas mós, uma para milho e outra para trigo, os moinhos foram o sustento da sua família, com os seus dois filhos. Porém, com os filhos a seguirem outras profissões, os moinhos ficaram abandonados, até porque a indústria da moagem, feita por moinhos de rodízio, deixou de ser rentável, não conseguindo competir com os novos moinhos movidos a electricidade, mais produtivos e necessitando de menos mão de obra.

Recentemente, o seu atual proprietário, Miguel Moreira, procedeu a obras de reparação das coberturas,  consolidação das paredes e colocação de novas portadas, conservando, todavia, as estruturas originais e a maior parte das peças indispensáveis ao funcionamento do moinho.


Moinho do Outeirinho - Gondar


De referir que o moinho pode ser visitado por quem o desejar fazer, bastando, para o efeito, contactar os seus proprietários. Também, e porque localizado num aprazível local, à beira rio e com uma pequena praia fluvial, tem servido para convívios familiares e de amigos, como ponto de passagem de percursos pedestres e para outros eventos. Todavia, segundo o seu proprietário, o desejável seria a recuperação total dos moinhos e a sua colocação em funcionamento, proporcionando, assim, visitas de estudo a alunos das escolas e ao público em geral.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Mem Gundar Jaz no Mosteiro de Telões

 


O “Livro de Linhagens do Conde D. Pedro”, no seu Título LX, dedicado aos Gundares e à sua descendência, diz que “Dom Mem Gundar foi natural das Astúrias e veio com o Conde D. Henrique a Portugal; foi cavaleiro mui bom e mui honrado; jaz em Tolões...”. (1)

Fazendo fé no documento citado, Dom Mem Gundar foi sepultado na igreja do Mosteiro de Telões. Pensa-se que, nos últimos anos de vida, se terá recolhido no mosteiro, onde acabaria por falecer e ficar sepultado. É uma hipótese plausível, considerando o prestígio alcançado por Mem Gundar na região e a antiguidade e importância do mosteiro, para além de ser um mosteiro da ordem de S. Bento, tal como o de Gondar, fundado pelo próprio Mem Gundar.

Também P. F. de A. C. de M, em 1814, na sua "História Antiga e Moderna da Sempre Leal e Antiquíssima Villa de Amarante", diz que "jaz D. Mem de Gundar na Igreja de Tolloens, freguezia que confina com esta villa, e que era então Mosteiro de Monges Bentos". (2)

Porém, da sua sepultura não restam quaisquer vestígios. É que, segundo Craesbeeck, “dentro da igreja se não achão hoje sepulturas antiguas, por se tirarem as que havião e se lagear de novo, para serem sepulturas comuas a todos: esta disposição fez perder a memória de muitas antiguidades, que por ellas se conhecião...” (3)

Das antigas sepulturas resta uma que foi aproveitada no lageamento da galilé, mas que, não mostrando qualquer inscrição, daí se não possa deduzir que seja da pessoa em causa.



Igreja do Mosteiro de Telões - Amarante

Já da antiguidade do mosteiro não restam dúvidas pois “foi esta igreja, em seo princípio, fundada por Rodrigo Forjas, que nella edifficou hum mosteiro de religiosos do Patriarcha São Bento, pondo-lhe por primeiro abbade a D. Gusmão Paes, no anno de 887, reinando D. Affonso Magno, como se diz na Benedictina Lusitana; e por espaço de 163 annos, florescerão nelle os relligiosos na observancia da Sancta Regra, the que, no anno de 1050, sinco irmãos descendentes do Instituidor se levantarão com o mosteiro, disendo serem padroeiros e venderão o dito padroado a D. Egas Gomes de Sousa, senhor de Filgeiras e da Terra de Sousa ...”. (4)

(1)- Portugaliae Monumenta Histórica, “Livro de Linhagens do Conde D. Pedro”, ed. crítica de José Mattoso, Vol. II/1, Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, 1980.

(2)- P. F. de A. C. de M., "História Antiga e Moderna da Sempre Leal e Antiquíssima Villa de Amarante", Londres, 1814, pág. 17-18.

(3)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho no ano de 1726, edições Carvalhos de Basto, pág. 332.

(4)- Ibidem, Craesbeeck..., pág. 331.

Miguel Moreira


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Fábrica de Lanifícios de Padronelo

 


Fundada, em 1885, pelo brasileiro Manuel Pereira da Silva (1), a Sociedade Garcia Ribeiro & C.ia instalou-se de raiz em Padronelo, Amarante, nas margens do rio Ovelha, cujas águas utilizava como força motriz. Destinada à produção de lanifícios, a fábrica seguiu o modelo de moinho em altura, accionado por uma roda originalmente em madeira. 


Fábrica de Lanifícios de Padronelo

Em 1857, foi equipada com sete máquinas inglesas, entre as quais, duas cardadeiras, uma bones para desengrossar o fio, duas fiandeiras e uma tesoura mecânica, e, no ano seguinte, adquiria mais um conjunto de novas máquinas belgas. Em 1860, a roda de madeira foi substituída por uma roda de ferro construída na Fundição do Bicalho, no Porto, e, no mesmo ano, foi importada mais maquinaria, desta vez francesa.

Em 1857, 1861 e 1865, fez-se representar nas exposições internacioais do Porto, tendo conquistado algumas medalhas, nomeadamente de prata, em 1857. Isto mostra que a fábrica viveu, logo de início, um perído de grande expansão e afirmação no tecido industrial nortenho. Tanto que, já em 1878, Manuel Pereira da Silva (agora barão do Calvário) e um novo sócio, António José da Costa, transformaram a companhia numa sociedade anónima, começando logo a emitir títulos de acção num valor total de 240 contos de réis (a fábrica fora avaliada em 120 contos, metade desse valor).

Porém, os problemas da localização da fábrica, longe dos grandes centros urbanos, os custos da matéria prima (a lã era toda importada) e a dificuldade de colocação do produto no mercado, faziam com que as margens de lucro fossem, cada vez, menores. Por outro lado, os administradores nem sempre tinham a formação adequada para a função que desempenhavam como salienta Maria Filomena Mónica: "No Porto existiam 3 fábricas de lanifícios, as de Lordelo, de Padronelo e de Vale da Piedade, com 238, 130 e 80 operários. A comissão comentou pormenorizadamente o estado destas fábricas. Não eram apenas os problemas levantados pela inadequação dos maquinismos que inquietaram a comissão, mas questões relacionadas com a gestão. A fábrica de Vale de Piedade era dirigida, de longe, por um administrador que nada percebia de lãs; a de Padronelo, por um antigo comerciante de panos, igualmente desconhecedor do ofício, embora a comissão o tivesse achado «dotado de uma inteligência viva e de um grande desejo de aprender» (2).

Assim, tendo em conta este contexto de dificuldades, em 1909, o capital da empresa é reduzido de 240 para 100 contos e é dissolvida a Sociedade Anónima e criada uma Sociedade Limitada, medidas enquadradas num plano de reestruração da empresa.

Cerca de cinco anos depois, em 1914, uma nova redução de capital, agora para apenas 50 contos, foi notariada no Porto, para onde entretanto a sede da empresa havia sido deslocada. Neste acto de redução de capital, destacam-se o nome de dois novos sócios, os irmãos António Nunes Borges e Francisco António Borges, já então banqueiros, mas que viriam a fundar, em 1937, o Banco Borges & Irmão.

Nas décadas de 1910 e 1920 a fábrica assistiu a um crescimento exponencial. O "Almanaque de Amarante", editado pela Tipografia Flôr do Tâmega, em 1917, referia-se-lhe nestes termos: "Há em Padronelo uma importante fábrica de Lanifícios, movida por turbina hidráulica, auxiliada por vapor quando faltam as águas. Os seus productos são actualmente perfeitíssimos, rivalizando em todos os similares. Há mesmo tipos de tecidos de fabricação, quasi exclusiva, e de grande procura nos mercados" (3).

Na segunda metade do século XX, nos anos de 1960 e 1970, ainda laborava no sector têxtil, mas, tendo entrado em declínio, foi dissolvida. Nas suas estruturas foram instaladas, numa primeira fase, uma fábrica de produção de óleos vegetais e, posteriormente, uma fábrica de urnas.

Em 1997, por resolução do Conselho de Ministros nº 165/97 de 29 deSetembro, a fábrica foi inscrita como conjunto sob proposta de estudo e classificação, situação jurídica que, tecnicamente, continua a ser a actual.

(1)- Manuel Pereira da Silva, 1.º Barão do Calvário, nasceu em Penafiel a 16 de Junho de 1813. Filho de António Pereira da Silva e de D. Maria Josefa Mendes, emigrou aos 14 anos para a Baía (Brasil) como empregado comercial. Ali fez fortuna, chegando a Diretor da Caixa Comercial da Baía. Após 23 anos de residência no Brasil, regressa a Portugal, fixando-se em Penafiel, onde construíu um palacete e adquiriu grandes propriedades.

Em 1845, casou com D. Rosa Leal da Silva que morreu em Agosto de 1870.

D.Luís concedeu-lhe o título de barão em 1872.

Foi Comendador da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa, Presidente da Câmara de Penafiel e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel.

Em 1855, fundou a fábrica de lanifícios Garcia & Rbeiro, em Padronelo, Amarante, uma referência da indústria de lanifícios no norte do país, no século XIX.

Faleceu a 19 de Dezembro de 1901.

Miguel Moreira



Fotografia de Antero Frederico Ferreira de Seabra da Mota e Silva, em 1860



Photographia de A. T. Carneiro – Amarante. Bilhete postal da década de 1900.



Fontes: 

- Mário Bruno Pastor, Comunicação no 3.º Congresso Internacional sobre Património Industrial, Universidade Lusíada, Lisboa, Junho de 2016.

(2)- Maria Filomena Mónica, Capitalistas e industriais (1870-1914), Análise Social, vol. XXIII (99), 1987-5.°, 819-863.

(3)- Almanaque de Amarante, 1917, Tipografia Flôr do Tâmega.