quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

MOTA e COSTA (MAESTRO, MÚSICO E COMPOSITOR)

Nascido em Gondar, em 28 de Novembro de 1938, faleceu hoje, 8 de Dezembro de 2022, Manuel do Carmo da Mota e Costa.

Homem distinto e muito querido dos amarantinos, vai ser sobretudo recordado como exímio tocador de acordeão, com merecido reconhecimento no país e no estrangeiro.

Manuel do Carmo Mota e Costa
Seguindo os passos de seu pai, Armando da Mota e Costa, que, nos salões da sua casa no Cavalinho, ensaiava e dirigia a Tuna de Gondar, Mota e Costa, ainda criança, deu os primeiros passos na aprendizagem de acordeão com um músico de uma orquestra circense que atuava em Amarante.

Aos catorze anos vai estudar para a cidade do Porto onde conhece grandes mestres da música e, com professores qualificados, aprende as melhores técnicas do acordeão.

No Instituto Industrial do Porto, onde era aluno, conhece outros bons músicos e, em 1957, começa a tocar no Conjunto Académico do Porto. A sua primeira grande experiência como acordeonista.

Regressado a Amarante, foi trabalhar para as Indústrias Tabopan e, por vontade do seu administrador José Gonçalves de Abreu, fundou a "Festada do Tâmega". Com um reportório dedicado à música tradicional portuguesa, sobretudo da região norte de Portugal, o grupo somava êxitos e era convidado para atuar em vários eventos do norte ao sul do país. O conjunto manteve-se cerca de onze anos e, desfeito, Mota e Costa passou a dedicar-se ao ensino do acordeão e a tocar em diversos grupos de baile, dedicando-se sobretudo a temas clássicos como tangos e valsas. Funda o conjunto "Mota e Costa".

Para a história de Amarante fica a realização, entre 1979 e 1993, do "Festival de Música do Tâmega", por iniciativa e direcção de Mota e Costa. Com a particularidade de se realizar numa pequena ilhota do Tâmega, foi um dos melhores festivais do seu género no país, atraindo grandes nomes da canção.

Nos últimos anos da sua vida, dedicou-se ao ensino do acordeão e foi membro de vários júris em concursos musicais nacionais e internacionais.

No dia da sua morte, aqui fica a minha singela homenagem a um amigo.

Miguel Moreira

Mota e Costa com amarantinos da sua geração




Tuna de Gondar sob a direcção de Mota e Costa


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Capela de S. Tiago - Lufrei Amarante

 

A relevância que as peregrinações a Santiago de Compostela assumiram no contexto europeu e, de modo especial, na Península Ibérica, fez com que ao longo dos “caminhos” surgissem inúmeras igrejas e capelas dedicadas ao culto a S. Tiago.

S. Tiago - Lufrei, Amarante
Amarante que, na época romana, terá sido atravessada por uma via que, partindo de Bracara Augusta, seguia para Trás-os-Montes através do Marão, conservou e aprofundou esta sua vocação viária a que não foi alheia a construção/reconstrução da ponte sobre o Tâmega sob os auspícios de S. Gonçalo. Paulatinamente, Amarante ganhava importância no contexto regional, importância que foi consolidada com a construção da Igreja e Mosteiro de S. Gonçalo, no século XVI, e as peregrinações ao santo, oriundas de vários pontos do norte do país.

Dito isto, não é de estranhar que Amarante surja como ponto de passagem quase obrigatória dos peregrinos que, oriundos do Alto Douro e das Beiras, se dirigiam a Santiago de Compostela. Aliás, as peregrinações a S. Gonçalo e a Santiago têem muito de comum. Neste contexto, a existência, em Amarante, de duas Albergarias, construídas no séc. XII, uma na margem direita (rua da Ordem?) e outra na margem esquerda do rio (Albergaria do Covêlo), indiciam o crescente aumento de peregrinos e a necessidade de lhes conceder o devido apoio.

Voltando ao tema desta publicação, a existência em Lufrei de uma pequena capela dedicada a S. Tiago insere-se no âmbito do desenvolvimento do culto ao santo do mesmo nome. Recorde-se que a “estrada” que ligava Amarante a Trás-os-Montes passava por este lugar, a caminho do Marancinho e Ovelha do Marão. A capela de S. Tiago, existente na Igreja de S. Gonçalo de Amarante, insere-se, igualmente, neste contexto.

Quanto à capela de S. Tiago, em Lufrei, ela não vem referida nas Memórias Paroquiais, de 1758, mas Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, em “Memórias Ressuscitadas de Entre Douro e Minho”, 1726, refere o seguinte: “Tem esta igreja (Lufrei) 4 capellas filliaes, a saber: São Salvador do Monte...; São Miguel o Anjo ...; Nossa Senhora dos Praseres...; São Tiago, no lugar deste Sancto: capellinha pequena, que desce por escadas para baixo” (1). Esta é, aliás, uma das poucas referências escritas sobre o assunto. Da capela não restam quaisquer vestígios a não ser a imagem do santo que se conserva na atual Igreja Paroquial. No local, entretanto, foram construídas umas “alminhas”, datadas de 1842.

(1)- Craesbeeck, Francisco Xavier da Serra, “Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho”, vol. II, pág. 59.

Miguel Moreira

domingo, 27 de março de 2022

Romeiros de S. Gonçalo de Amarante

 

(Cliché do distinto fotógrafo sr. Vitorino Melo, de Penafiel, gentilmente enviada à Ilustração Portugueza pelo solícito correspondente de O Século naquela cidade, sr. Miranda da Veiga)

«Ilustração Portuguesa» - nº698 - 7 de Julho de 1919

Segundo a Memória Paroquial de Amarante, em 1758,

«Hé esta igreja dos santuarios mais vezitados que tem este Reino de romagens todo o anno. No dia dez de Janeiro que hé o de Sam Gonçallo, concorre innumeravel povo. De vespora do Espiricto Santo vem muita gente de Guimarais; na primeira oitava o Marquezado de Villa Real, quada freguezia separada com seu clamor e todos os homens e mulheres trazem vellas de cera que deixam de esmola. E no meio das procições trazem ramos de castinheiro cheios de cera que também deixam. No mesmo dia vem em procissam o concelho de Mondim de Basto e na mesma forma vem na primeira Segunda Feira de Junho o concelho de Santa Cruz, que tem vinte e sinco freguezias, o de Tuias e o de Canavezes em honze do mesmo mês, o de Felgueiras em treze, o de Unham, a dous de Julho vem a freguezia de Soalhais e no mesmo dia a do Grillo, Villa Marim, Teixeiró, Teixeira, Sediellos, Mondrois. Em Agosto vem o concelho de Montellongo e as freguezias de Santa Marinha do Zezere, Trezouras, Penajoia, Fontes e Resende, Viariz e Gestaçô. Em Setembro vem a freguezia de Barro, Sam Martinho de Mouros, Sam Pedro de Paos e Sam Joam de Ouvil. Em Outubro a freguezia de Lobrigos, nos Sabados deste mês e no de Novembro vem gente da Terra da Feira e concelhos da Maia, que distam desta terra dez, doze e quinze legoas».

in Memória Paroquial de Amarante, 1758

«Ilustração Portuguesa» - nº698 - 7 de Julho de 1919



domingo, 20 de março de 2022

Capela de Nossa Senhora de Moreira (Ansiães)

 No coração da serra do Marão, num dos seus sítios mais bonitos e aprazíveis, encontramos a capela de Nossa Senhora de Moreira, na freguesia de Ansiães.

Nossa Senhora de Moreira (Ansiães)


De tradição muito antiga, o culto a Nossa Senhora de Moreira já vem referido nas Memórias Paroquiais de 1758, nestes termos: “ no dia da ascensão do Senhor, vêm com cruzes e clamor grande concurso de gente à capela de Santo António, onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Moreira, que antes existia numa capela no alto da serra do Marão, no sítio de Moreira, mas que se acha arruinada e cuja imagem foi transladada para a dita capela.”

Desconhecemos a data da construção da primeira capela mas, segundo as Memórias Paroquiais de 1758, ela ficou arruinada 40 anos antes, isto é, por volta de 1718. Podemos assim concluir que seria uma construção do séc. XVII. Já quanto à sua reedificação, sabemos que aconteceu nos primeiros meses de 1783, pois que, no Arquivo Distrital de Braga, se encontra uma provisão, da Mitra Arquiepiscopal de Braga, “de licença para se reedificar a capela de Nossa Senhora de Moreira, da freguesia de São Paio de Anciaes, a favor dos moradores da dita freguesia”. Este documento data de 4/01/1783. Também no mesmo Arquivo, e com data de 19/05/1783, se encontra outra “Provisão de licença para se benzer a Capela de Nossa Senhora de Moreira, da freguesia de São Pelágio de Anciaes, a favor dos moradores da dita freguesia, da comarca de Vila Real.” Assim sendo, a reconstrução da capela ocorreu entre Janeiro e Maio de 1783.

Capela de N. S.ra de Moreira (Ansiães)

A Comissão de Festas de Nossa Senhora de Moreira, eleita por mandatos de um ano, é responsável pela organização das festas que se realizam no 2.º Domingo de Agosto. Duram três dias, com muita animação, música e jogos populares. No principal dia de festa, domingo, o andor de Nossa Senhora da Lameira sai em procissão da capela de Santo António e é levado em ombros, por um ancestral caminho de montanha, até ao cimo do monte Moreira, à capela da Santa. Aí, há missa solene em honra de Nossa Senhora e, cumpridas as promessas, ao fim da tarde, o andor regressa à capela de origem, no lugar do Eido, onde permanece até à festa do ano seguinte.


Andor de Nossa Senhora a caminho da capela de Moreira

De referir, ainda, que a capela da Senhora de Moreira se situa num dos mais deslumbrantes miradouros da serra do Marão. Com horizontes a perder de vista, podemos observar, encravadas na montanha, aldeias vizinhas, como Murgido e Póvoa, e, lá bem longe, as freguesias de Bustelo e Carvalho de Rei, esta já na serra da Aboboreira. De salientar, ainda, que, desta capela, avistamos, em redor, outras ermidas marianas como a da S.ra  de Corvachã, a da S.ra da Serra e a da S.ra do Castelo.

Para apoio aos romeiros, existe, bem perto do monte Moreira, um agradável e bem cuidado parque, o Parque da Lameira e, não muito longe, a Pousada Turística de S. Gonçalo.

Miguel Moreira (texto)

Fotografias de Rodrigo Oliveira (Águas Turvas)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Capela e Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira (Baião)

No coração da serra da Aboboreira, num dos seus pontos mais elevados e com vistas privilegiadas para o vale do rio Ovil, encontramos a capela de Nossa Senhora da Guia.

Capela de Nossa Senhora da Guia - Aboboreira

Segundo uma lenda que remonta aos anos 70 do século passado, um pastor de Baião terá avistado, por diversas vezes, no local onde se encontra a capela, a imagem de Nossa Senhora. Esta suposta aparição tornou-se assunto das conversas entre os populares e as peregrinações ao local sucederam-se, havendo até relatos de supostos milagres. Por tal motivo, acabou por ser construída, neste local da serra, uma capela com evocação de Nossa Senhora da Guia. No local, conserva-se, ainda, o penedo onde, supostamente, ocorreram as aparições.

Em cada ano, no primeiro domingo de agosto, centenas de peregrinos das freguesias vizinhas dos concelhos de Baião e Amarante, acorrem ao local para honrar Nossa Senhora. Num dia de muita alegria e convívio, os romeiros, depois de participar na missa campal e cumprir as suas promessas, espalham-se pelos montes em redor, estendem as mantas e toalhas e partilham os seus farnéis com os familiares e amigos. Fazem-se jogos tradicionais e ouve-se música popular.

Miradouro da Senhora da Guia - Aboboreira

No local, merece ainda destaque um miradouro natural, enquadrado por dois cruzeiros, de onde se alcança um vasto e impressionante horizonte, avistando-se todo o vale do rio Ovil, desde Loivos do Monte e São João de Ovil até Campelo.

O acesso a este miradouro permite aos romeiros visitar algumas aldeias tradicionais, muito bem conservadas, tais como Almofrela, Currais, Eido e Telões. No trajeto, por caminhos de montanha, alguns monumentos megalíticos (antas e mamoas), no campo arqueológico da Aboboreira, merecem também uma enriquecedora visita.

Miguel Moreira (texto)

Fotografia de Rota do Românico

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Saramago viaja pela Serra da Aboboreira

 

"(O viajante) vai ali à pré-história e volta já, cinco mil anos lá para trás..."

Saramago, in "Viagem a Portugal"

“...O caminho é uma tosca e arruinada carreteira, com profundos sulcos cavados pelas torrentes vindas do alto, e o viajante teme um acidente, uma avaria. Contudo, persevera, e tem a sua recompensa quando a ascensão termina num quase raso planalto. Os dólmenes não estão à vista. Agora é preciso avançar pelo mato dentro, há uns delgados carris que se interrompem, maneiras de negaça que o deixam perpelexo. É um quebra-cabeças malicioso, traçado em monte deserto para obscuros fins. O viajante avança pelo mato, tem de encontrar a mina de ouro, a fonte milagrosa, e quando já lança pragas e imprecações (bem está que o faça neste cenário inquietante) vê na sua frente a mamoa, o primeiro dólmen meio soterrado, com o chapéu redondo assente sobre esteios de que só se vêem as pontas, é como uma fortificação abandonada.


Anta de Chã da Parada - Serra da Aboboreira

 
O viajante dá a volta, aí está o corredor, e lá dentro a câmara espaçosa, mais alto todo o conjunto do que pelo lado de fora parecia, tanto que o viajante nem precisa curvar-se, e de baixo nada tem. Não há limites para o silêncio. Debaixo destas pedras, o viajante retira-se do mundo. Vai ali à Pré-História e volta já, cinco mil anos lá para trás, que homens terão levantado à força de braço esta pesadíssima laje, desbastada e aperfeiçoada como uma calote, e que falas se falaram debaixo dela, que mortos aqui foram deitados. O viajante senta-se no chão arenoso, colhe entre dois dedos um tenro caule que nasceu junto de um esteio, e, curvando a cabeça, ouve enfim o seu próprio coração.”

José Saramago, Viagem a Portugal, editorial Caminho, Lisboa, 1995, pág. 32.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A Serra do Marão por José Saramago

 

“Atravessar a serra do Marão, de Vila Real até Amarante, deveria ser outra imposição cívica como pagar os impostos ou registar os filhos." José Saramago

Serra do Marão

 "Atravessar a serra do Marão, qualquer o pode fazer, mas quando se sabe que Marão significa Casa Grande, as coisas ganham o seu aspecto verdadeiro, e o viajante sabe que não vai apenas atravessar uma serra mas entrar numa casa.

Que faz qualquer viajante ao entrar? Tira o chapéu, baixa ligeiramente a cabeça, se a traz ao léu, enfim, as devidas mostras de respeito. Este viajante torna-se visitante, e entra, depois de convenientemente lavada a alma, como no capacho se limpam os pés. O Marão não é a aguda fraga, o penhasco vertiginoso, o desafio para alpinistas. Já foi dito que é uma casa, e as casas são para os homens morarem nelas. A estas alturas toda a gente pode subir. Poderá?

Serra do Marão


Os montes sucedem-se, tapam o horizonte, ou rasgam-no para outro monte ainda maior, e são redondos, enormes dorsos de animais deitados ao sol e para sempre imóveis. Nos fundos vales ouve-se o cachoar da água, e das encostas, por todos os lados, escorrem torrentes que depois acompanham a estrada à procura de uma saída para o nível abaixo, de patamar em patamar, até caírem de alto ou mansamente desaguarem na corrente principal que é apenas afluente de afluente, águas que tanto podem ir dar ao Corgo, que ficou lá para trás, como ao Douro, muito para sul, como ao Tâmega, que espera o viajante.

Serra do Marão


E há as florestas. Torna o viajante a dizer-se afortunado por estar viajando no Outono. Não se descreve uma árvore. Como se há-de descrever uma floresta? Quando o viajante olha a encosta do monte fronteiro, o que vê é os altos fustes dos troncos, as copas redondas ou esgalgadas, escondendo o húmos, o feto, o brando mato destes lugares. Assim fica sabendo que viaja, ele também, no invisível, tornou-se gomo, duende, bichito que vive debaixo da folha caída, e só torna a ser homem quando, de londe em longe, a floresta se interrompe e a estrada corre a céu aberto.

Serra do Marão

E sempre o rumorejar das águas, frigidíssimas, e as núvens rolando no céu, é um murmúrio que passa, como serão aqui as trovoadas?

Atravessar a serra do Marão, de Vila Real até Amarante, deveria ser outra imposição cívica como pagar os impostos ou registar os filhos."

José Saramago, Viagem a Portugal, editorial Caminho, Lisboa, 1995, p. 29-30.