sábado, 19 de maio de 2018


MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE JAZENTE (1758)

Dando continuidade à publicação das “Memórias Paroquiais” das freguesias que constituíam o extinto concelho de Gestaço, publicamos hoje as de Santa Maria de Jazente.
Com data de 1758, as Memórias Paroquiais de Jazente foram redigidas pelo cura Manuel Pereira, “por impedimento” do seu pároco Paulino Cabral, o conhecido poeta Abade de Jazente. Provavelmente este impedimento se devesse às longas temporadas em que Paulino se ausentava para o Porto, onde levava um vida boémia, participando em saraus e tertúlias e dedicando-se à arte poética.
Da leitura do documento podemos concluir que o redator da Memória de Jazente, o cura Manuel Pereira, não perdeu muito tempo a responder ao questionário, "fazendo apenas uma simples descrição (quase relatório) da geografia de Jazente: paróquia de 159 pessoas, 52 fogos distribuídos por sete lugares. Sem beneficiados, ermidas, romagens e sem feiras, em suma, sem coisa alguma notável digna de memória”, Jazente devia parecer tão ou mais desprovida de interesse ao cura Manuel Pereira como certamente o era ao abade Paulino"(1).


Igreja de Santa Maria de Jazente - Amarante
Igreja de Santa Maria de jazente (interior)

Reza assim o referido documento de 1758:

"1- Esta Parochia de Santa Maria de Jazente fica em a Província de Entre Douro e Minho, pertence ao Bispado do Porto, comarca de Sobretamega pello Eclesiástico, e pello secular pertence à comarca da Villa de Guimaraens e ao termo do concelho de Gestaço.
2- He de El Rey.
3- Tem cincoenta e dous vezinhos e sento e cincoenta e nove pessoas.
4- Está situada em hum convale, e della se descobrem a mayor parte da freguezia de São Pedro da Lomba e da de Santo André de Padornello, de Santa Maria de Gundar, de São Simão de Gouvea, e o Castello de Cylorico de Basto; as tais freguezias são vezinhas e do dito Castello dista esta Parochia três legoas com pouca differença.
5- Não tem esta Parochia Termo seu, tem sete lugares sic licet a Residencia Abbacial, Cima de Villa, Jazente, Posadella, Pardieyros, Fornos, e Loureyro.
6- Esta Parochia está solitária, e fora de lugar, e tem os lugares já especificados em o numero quinto.
7- O orago desta freguezia he  a Santissima Virgem Maria; tem três Altares, o Mayor da Padroeyra, o colateral da Epístola da Senhora do Rosário, o colateral do Evangelho do Minino Deos, São José, e Santa Anna. Não tem nave alguma; tem duas pobres confrarias, a do Santissimo Rosario, e a do Santo Nome de Deos.
8- O Parocho desta freguezia he Abbade por eleyção do Bispo da Cidade do Porto, e collação da Sé Apostólica: tem esta Abbadia por dízimos, fructos do Passal, foros, domínios e pé de Altar, da renda comummente deductis expensis,  trezentos mil reis.
9- Não tem Beneficiado algum.
10- Não tem Convento algum; porem sem duvida foy esta Igreja já Convento, ou Hospicio de Religiosas de São Bento ate o anno de mil quinhentos quarenta e dous com pouca diferença: a Igreja tem indícios de antiguidade.
11- Não tem Hospital.
12- Não tem casa de Misericórdia.
13- Não tem Ermida alguma.
14- Não acode romagem alguma.
15- Os frutos da terra que os moradores desta Parochia recolhem em mayor abundancia são vinho vermelho verde, milho grosso, e centeyo, bolotas de carvalheyras e carvalhos, e também castanhas.
16- Não tem Juiz dentro de si, está porém subjugada ao Juiz ordinário do sobredito concelho de Gestaço dentro de cujo Termo existe.
17- Não há couto, nem cabeça de concelho, nem Honra, nem Behetria.
19- Não tem em si feyra alguma.
20- Não tem Correyo, e se serve do Correyo da Villa de Amarante do qual dista huma legoa com pouca differença.
21- Dista esta Parochia da cidade do Porto capital do Bispado dez legoas com pouca differença, e da cidade de Lisboa sessenta legoas do mesmo modo.
Em esta freguezia de Santa Maria de Jazente não há serra alguma e suponho esteja circunvizinha de algumas serras notáveis, contudo essas estão incluídas e pertencendo a freguezias cujos Parochos melhor podem noticiar delas.
Em esta freguezia de Santa Maria de Jazente há creaçõens de boys, vacas, ovelhas, porcos, galinhas; há caça de coelhos, perdizes, galinholas, e de outras aves de menos estimação.
Não há noticia nesta Parochia de Lagoa, nem fojos.
Em esta Parochia de Santa Maria de Jazente nenhum rio tem nascimento, nem dentro do limites della tem curso rio algum.
Não há mais alguma cousa notável de que se deva fazer menção, tanto porque esta Parochia não he populosa, como porque he angusto o circuito della; e não há mais nem menos que vos possa responder. As quais respostas e relação eu o Padre Manoel Pereyra Coadjutor desta Parochial Igreja de Santa Maria de Jazente por impedimento do Reverendo Abbade actual da mesma escrevi e asigney."

O Coadjutor Padre Manoel Pereyra

(1)- "Rota do Românico", Igreja de santa Maria de Jazente.
Fotografias de "Rota do românico" 
Miguel Moreira

domingo, 29 de abril de 2018


A “FEIRA DOS BURROS” JÁ NÃO É O QUE ERA


Estamos em Abril e era em Abril que, no Cavalinho, para além das habituais feiras a 12 e 28 de cada mês, se realizava, no dia 29, a feira franca anual conhecida por “Feira dos Burros” ou "Feira dos 29". Nesta, em vez do gado bovino e suíno, os “reis da festa” eram o gado cavalar e o muar. A tradicional “corrida dos burros”, muito concorrida, era a grande atração, para gáudio e divertimento dos feirantes e da populaça. O vinho verde da região, servido nas tradicionais canecas de porcelana e acompanhado por um naco de anho assado ou pelo biscoito da Teixeira, ajudava a animar a festa.

"Feira dos Burros" - Cavalinho (Gondar)

"Feira dos Burros" - Cavalinho (Gondar)

"Feira dos Burros" - Cavalinho (Gondar)

Até final dos anos 90 do século passado, como as imagens comprovam, esta feira atraía multidões para assistir à tradicional corrida de burros e cavalos. Hoje, apenas algumas dezenas se deslocam ao Cavalinho no dia do evento. Sinais dos tempos...!!!

"Feira dos Burros" - Cavalinho (Gondar)

As fotografias que aqui apresentamos reportam-se aos anos de 1995 e 2000 e foram digitalizadas a partir de originais, gentilmente cedidas pelo Sr. Alberto Rocha.



Miguel Moreira

quarta-feira, 21 de março de 2018


MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE GONDAR (EM 1726)


por F. X. da Serra Craesbeeck (1)

“1- A igreja de Santa Maria de Gundar foi antiguamente mosteiro de religiosas de São Bento; e, em tempo de El Rei D. Affonso Henriques, se acha D. Teresa Lourenço, Abbadeça de Gundar, da qual trata o Conde D. Pedro, e foi filha de Lourenço Mendes de Gundar, de que trata a “Monarchia Lusitana”, o qual foi filho de Mem de Gundar, capitão do dito Conde D. Henrique, de quem faz menção, o livro do dito Conde D. Pedro e a “Monarchia” supra. Este mosteiro se conservou por muitos annos, tendo dous mosteirinhos subordinados, que eram Santa Maria Magdalena de Covello e São Salvador de Lufrei, dos quais faz menção a “Beneditina Lusitana”. Durou este mosteiro por muitos annos, sendo ultimamente Abbadeça delle Ignes Borges, como se vê hume verba do registo de Braga em tempo do Arcebispo D. Fernando da Guerra, que por ter faculdade pontifficia para reduzir a igrejas parochiais alguns mosteiros, apresentaram neste a Pedro Affonso, clérigo de missa, no anno de 1455. Refere assim a “Beneditina Lusitana”, asima alegada, nestas palavras:

Aos 13 de Abril de 1455, em Lisboa, confirmou o Arcebispo a igreja de Santa Maria de Gundar da terra de Gestaço a Pedro Affonso, clérigo de missa: apresentação do dito Arcebispo e sua igreja de Braga; a qual vagou por morte de Ignes Borges, Dona Abbadeça que foi da dita igreja, sendo mosteiro de São Bento; e o dito Senhor fez redução della de mosteiro em igreja secular.

Igreja do Mosteiro Beneditino de Gondar - Amarante

2- Hoje he esta igreja reitoria e comenda da Ordem de Christo, de que he Comendador Thomé de Souza Coutinho, 2º Conde de Redondo e reitor o Padre Domingos Ferreira da Silva; tem sacrário e huma capella fillial de Santo Amaro, em o lugar de Ourelinha; nesta igreja se achão alguns letreiros de que faremos menção; e alguns ouve antiguamente, que já não existem; como foi hum, que estava no arco da capella-mor, que antiguamente era muito baixa, e nelle estava huma imagem do Senhor Cruxificado, São João e Nossa Senhora, nas ilhargas; e por baixo, em roda do dito arco, hum letreiro gothico, que desia o seguinte:
ESTE CRUZEIRO MANDOU PINTAR O FILHO DO DUQUE DE BRAGANÇA
Este duque foi D. Jaime, filho de D. Jaimes, 4º Duque de Bragança que foi comendador desta comenda no anno de 1548, por cuja ordem e procuração foi então feito tombo della, e por despacho do Provisor de Braga, o Licenciado Sebastião Gonçalves em tempo do Arcebispo D. Manuel de Souza.

Igreja Românica de Gondar - Amarante (interior)

3- Na capella-mor, estão as seguintes campas, que são as que só hoje se conservão com letreiros:

1.ª       AQUI. ESTÁ. / SEP(ULTA)DO. M(ANU)EL, CER/Q(UEI)RA. PRETO
             REI/TOR. DESTA. / IGR(EJ)A. COM. SUA. / MAI. M(ARI)A. CER/Q(UEI)RA. 1620.

2.ª       AQUI. ESTA. S/EPULTADO. / GASPAR. S/ARAIVA. PIN/TO. REITO/R.

4- Na parte de junto ao altar collectral está pintado São Brás, e por baixo delle este letreiro pintado.

            AQUI. NESTA. SE. DIZE. DUAS. MIS(S)AS. / TODAS. AS. SOMANAS. HU(M)A. PELOS.
            BEMFEITORES. DA IGREJA. E OUTRA. / DE FIDELIUM. DE(FUNCT)US. NAS. SEGUNDAS
            F(EIR)AS. E OUTRA. A / NOSSA. S(ENHOR)A. AS CUAIS. PAGUA. O COMEMDADOR.

(1)   in CRAESBEECK, F. X. da Serra, “MEMÓRIAS RESSUSCITADAS da Província de Entre Douro e Minho No Anno de 1726”, vol. II, pp. 55-57, Edições Carvalhos de Basto, Ponte de Lima, 1992.                 

segunda-feira, 5 de março de 2018


MEMÓRIAIS PAROQUIAIS DE LUFREI (1758)


Sendo o Mosteiro de monjas bentas de Lufrei um dos três cenóbios fundados por Dom Mem Gundar e um dos dois subordinados à Abadessa do Mosteiro de Gondar, achamos por bem publicar o texto das "Memórias Paroquiais de Lufrei", importante documento histórico, datado de 1758. 
Diz o seguinte:

"A freguezia de Lufrey fica na Provincia do Minho, he hua das do concelho de Giestaço em que há Juiz Ordinário. Pertence pelo secular à Comarca de Guimarães: e pelo eclesiástico he da Comarca de Villa Real do Arcebispado Primaz. He anexa à comenda de Santa Maria de Gondar da Ordem de Cristo de quem he actual Comendador o Conde do Redondo.
Há nesta freguezia cento e cincoenta fogos ou vizinhos: Tem pessoas mayores = quatrocentas e noventa = e menores = cincoenta e duas.
Está situada em Montes; e nas várias quebras que este forma se colhe todo o género de pão, linho, vinho, azeite, e castanha, e se crião boys, vaccas e ovelhas, e produziria também todo a variedade de frutas se nos moradores houvera a curiosidade de as plantar.


Igreja Românica de Lufrei - Amarante

Está a igreja em hua baixa cercada de outeiros e junto della, além da Casa do Parocho, só há três moradores, e deste sítio apenas olhando ao poente se descobre o Monte e a Hermida que no seu alto tem, de Santa Cruz, que dá nome ao seu concelho, e no mesmo Monte a Igreja Abbadia de Louredo, e também a Vigariaria de Fregim, que he comenda dos Cavaleiros de Malta, e dista o dito monte e Hermida hua légoa grande.
Compreende esta freguezia = o Lugar do Assento = o Lugar do Ribeiro = o Lugar de Villa Nova = o Lugar de Moure = o Lugar de Gatiães = o Lugar de Penim = o Lugar de São Tiago = o Lugar de Frariz = o Lugar de Fridão = e além destes = o Lugar da Motta com a especialidade de ser meeyro com a freguezia de Santo Estêvão de Villa Chã: de sorte que os seus moradores com hum anno a que dá princípio o S. João pertencem a hua igreja e em outro anno à outra.


Altar Mor e Colaterais da Igreja do Salvador de Lufrei - Amarante

O Orago desta freguezia he o Salvador, e tem a sua Igreja o Altar Mor e dous colaterais, hu com imagem de Nossa Senhora do Rozario, que tem sua confraria, e o outro com a imagem de São Sebastião.
Não tem naves, só sim duas confrarias mais, hua do Santíssimo Nome de Deos, e outra dos Fieis de Deos.
O Parocho desta Igreja he Vigário Collado, cuja prezentação pertence aos Reitores de Gondar, como Matriz da Comenda. E como a mayor parte dos seus rendimentos consistem em incertos, andam estes por cem mil ou mais dez menos dez. Também tem hu coadjutor annuo pago pelos fructos da Comenda, a quem se dá oito mil e seis centos só em dinheiro, e vinte alqueires de pão.
Não trem esta freguezia Beneficiados, Conventos, hospital, nem Caza da Misericórdia. Tem sim quatro Hermidas de que se administrão os sacramentos aos moradores dos lugares em que se achão. A primeira he a do Salvador do Mundo em o lugar de Gatiães; a segunda a do Arcanjo São Miguel em o lugar de Moure; a terceira a de São Faustino em o lugar de Fridão; e estas três são da Administração do Parocho e fabricadas pelos fructos da Comenda. A quarta he de Nossa Senhora dos Prazeres, contigua a hua quinta que os Religiosos de São Gonçalo da Villa de Amarante tem no lugar de Frariz, a quem a mesma Hermida pertence e eles mesmo tem obrigação da sua fabrica.


Ermida do Salvador do Mundo - Lufrei
A esta quarta hermida acorrem algumas romagens principalmente em o dia dos Prazeres, que he na Segunda Feira depois da Dominga in albis, e neste Arcebispado he Dia Santo de preceito, em o qual dia vem os Religiosos de São Gonçalo cantar-lhe hua missa, e além de bastante concurso da villa de Amarante, e todos estes arredores, vem também a freguezia de Gondar em clamor por força do votto antiquíssimo. E do mesmo modo vem também a ella a freguezia de Santo Estêvão de Villa Chã em a segunda oitava do Espírito Santo.
A sobredita hermida  do Salvador do Mundo também em certos dias do anno acodem algumas romagens: como he em dia da Transfiguração, a 6 de Agosto, em que esta freguezia vai em clamor a ella, por votto muito antigo. Na primeira Terça Feira de Junho, também a freguezia da Madalena, vem a ela com seu clamor, e o mesmo observa também a freguezia de Gondar no dia de São Barnabé, a onze do mesmo Junho. E em todas as vezes que há esterilidade, necessidades de sol ou falta de chuvas, acodem todas as freguezias destes arredores, com os seus clamores, à dita hermida a suplicar a Deos Nosso Senhor, o que necessitam, e ordinariamente o conseguem.
Não há memória digna de crédito de que florescessem ou sahissem desta freguezia homens por qualquer respeito insignes, sendo que algum indício de que algum tempo os houve parece certos dando três túmulos de pedra inteira, que no adro desta Igreja se conservão, levantados da terra, com cobertas de pedra também inteira, lavradas em forma aguda por todo oseu comprimento, os quais se não achão por qualquer outra destas vizinhanças. 


Túmulo no adro da Igreja de Lufrei - Amarante

Em dous destes túmulos se devisão alguns religiosos de nome que se lhe abriu ao cizel, mas por que o tempo corrompeu as letras, não se pode já averiguar o que era, nem na memória dos homens há tradição de quem fossem os sujeitos que neles se sepultaram.
Não há nesta freguezia feira nem correyo, e se serve pelo de Amarante, que dista hum quarto de legoa. Desta freguezia a Braga são nove legoas e a Lisboa pouco mais de sessenta e duas.
Não padeceu ruina alguma com o terramoto, nem tem notabilidade ou couza que mais seja digna de memória.
A esta freguezia divide o Rio Tâmega pela parte do norte da freguesia de São João de Gatão e da de São Cipriano da Chapa, que são do concelho de Basto, e nas partes em que o dito rio confronta com esta minha freguezia tem três açudes, em duas dellas cada sua azenha e na outra hum moinho. Pertence este e ellas ao Cazal das Chouzas do lugar de Fridão, a outra ao Cazal do Monte do lugar de Frariz e a última à quinta de Paschoaes, que he da freguezia de Gatão. E porque em tudo o mais he o dito rio muito bem conhecido, não o refiro, nem acho de que mais dê informação".

Lufrey hoje 17 de Março de 1758
O Vig.º Joseph Ferreira da Sylva

Um trabalho de Miguel Moreira, a partir do manuscrito original existente na Torre do Tombo.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018


LARIM EM DIA DE CARNAVAL - VISTA AÉREA 
(ANOS 90)

Larim, agraciada pela natureza e sala de visitas de Gondar, ficará para sempre com o seu nome associado ao Carnaval de Gondar. Cada ano, em dia de Entrudo, centenas de forasteiros rumam a este lugar para assistir ao corso carnavalesco. Embora sem a glória de outros tempos, o Carnaval de Gondar continua a ser do melhor que se faz em Amarante. As imagens que aqui apresentamos mostram bem o elevado número de pessoas que acorriam ao local.

Larim (Gondar) em dia de Carnaval (anos 90)

Larim (Gondar) em dia de Carnaval (anos 90)
Fotografias digitalizadas dos originais, gentilmente cedidos pelo sr. Alberto Rocha.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

SÃO BRÁS DE VÁRZEA

As romarias são uma das principais manifestações da religiosidade popular. Doenças e dificuldades no acesso a cuidados de saúde levavam as pessoas a recorrer à ajuda divina e à intercecção dos santos. Daí, nas sociedades de antanho, vermos as populações, sobretudo as rurais, acorrerem em grande número a estes locais de culto: São Brás de Várzea, Senhora do Castelo, Senhora da Guia, Senhora de Corvachã, Santo Amaro, contam-se entre os muitos locais de romagem. Hoje vamos falar de São Brás.
Tendo realizado vários milagres em animais e em doentes, como, por exemplo, retirar um espinho da garganta de uma criança somente por olhar para o céu e rezar a Deus, São Brás, médico popular que viveu entre os séculos III e IV na Arménia, tornou-se no santo padroeiro dos animais, dos veterinários e das doenças da garganta, entre outras. Foi padre e, também, bispo de Sebaste, na Arménia. Capturado pelos Romanos, morreu como mártir, tendo sido decapitado no ano de 316.
A partir do século VIII, o seu culto expande-se um pouco por todo o mundo cristão, invocando-se as suas bênçãos para doentes e animais, por associação aos milagres que lhe foram atribuídos.
No calendário litúrgico, o seu dia celebra-se a 3 de Fevereiro.

Capela de São Brás de Várzea - Aboadela (Amarante)

Capela de S. Brás de Várzea - Aboadela (Amarante)

Localizada no cimo da pitoresca aldeia de Várzea, em Aboadela, a capela de S. Brás, no dia da festa do santo, atrai um elevado número de devotos que, em romaria, vão à pequena capela cumprir as suas promessas ou, simplesmente, pedir as bênçãos do santo. Não fosse ele advogado das doenças de garganta, tão frequentes nesta altura do ano. 
De Gondar, são muitos os romeiros que aí se dirigem.
Capela de proporções e construção modesta, vem referida, pelo padre Alexandre Pinto da Silva, nas “Memórias Paroquiais” de Ovelha do Marão, em 1758, como “pertencente aos religiosos de S. Bento do convento de Tibães” e acrescenta que “no dia da sua festa, junta-se algum povo em romaria”. Documento que atesta a antiguidade e importância do culto a S. Brás nesta abençoada região do Marão.

Aldeia de Várzea - Aboadela
Festa religiosa, tem também a sua vertente profana, sendo como que um prenúncio do Carnaval que se avizinha. Na festa não faltam o vinho verde da região, as cavacas, os rosquilhos e o afamado e sempre presente “biscoito da Teixeira”.
Miguel Moreira (texto e fotografia)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A ESTRADA POMBALINA NA LITERATURA (IV)

SANT’ANNA DIONÍSIO

As dificuldades e perigos desta estrada, construída em finais de setecentos, estão bem presentes neste texto de Sant’Anna Dionísio:

“... a estrada muito estreita, rude e sinuosa, requer circulação prudente, sobretudo no sentido descendente. Durante duas léguas, quem descer para Amarante terá, pela direita, consecutivas ribanceiras, que atingem, por vezes, algumas dezenas de metros. Quem sobe pode ir um pouco mais à vontade, pois segue sempre encostado ao pendor íngreme da serra da Aboboreira, possante ramificação granítica do Marão.


Estrada Pombalina na Boavista - Gondar
Estrada Pombalina nas Noveleiras - Bustelo
Estrada Pombalina transpondo o rio Teixeira (Mesão Frio)

As diligências e os carroções, que ainda nos meados do século passado faziam uma boa parte dos transportes do Alto Douro para o Porto por esta via, venciam as íngremes ladeiras do Padronelo, da Reboreda e da Teixeira em demoradas horas (...). Muitas vezes, atrelavam-se juntas de bois aos carros de cavalos.
As mudas faziam-se nos Padrões da Teixeira.”

Sant’Ana Dionísio, “Alto Douro Ignoto”, Porto, Lello & Irmão, 1973.

Miguel Moreira (fotografia)