segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018


LARIM EM DIA DE CARNAVAL - VISTA AÉREA 
(ANOS 90)

Larim, aldeia agraciada pela natureza e sala de visitas de Gondar, ficará para sempre com o seu nome associado ao Carnaval de Gondar. Cada ano, em dia de Entrudo, centenas de forasteiros rumam a este lugar para assistir ao corso carnavalesco. Embora sem a glória de outros tempos, o Carnaval de Gondar continua a ser do melhor que se faz em Amarante. As imagens que aqui apresentamos mostram bem o elevado número de pessoas que acorriam ao local.

Larim (Gondar) em dia de Carnaval (anos 90)

Larim (Gondar) em dia de Carnaval (anos 90)
Fotografias gentilmente cedidas pelo sr. Alberto Rocha.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

SÃO BRÁS DE VÁRZEA

As romarias são uma das principais manifestações da religiosidade popular. Doenças e dificuldades no acesso a cuidados de saúde levavam as pessoas a recorrer à ajuda divina e à intercecção dos santos. Daí, nas sociedades de antanho, vermos as populações, sobretudo as rurais, acorrerem em grande número a estes locais de culto: São Brás de Várzea, Senhora do Castelo, Senhora da Guia, Senhora de Corvachã, Santo Amaro, contam-se entre os muitos locais de romagem. Hoje vamos falar de São Brás.
Tendo realizado vários milagres em animais e em doentes, como, por exemplo, retirar um espinho da garganta de uma criança somente por olhar para o céu e rezar a Deus, São Brás, médico popular que viveu entre os séculos III e IV na Arménia, tornou-se no santo padroeiro dos animais, dos veterinários e das doenças da garganta, entre outras. Foi padre e, também, bispo de Sebaste, na Arménia. Capturado pelos Romanos, morreu como mártir, tendo sido decapitado no ano de 316.
A partir do século VIII, o seu culto expande-se um pouco por todo o mundo cristão, invocando-se as suas bênçãos para doentes e animais, por associação aos milagres que lhe foram atribuídos.
No calendário litúrgico, o seu dia celebra-se a 3 de Fevereiro.

Capela de São Brás de Várzea - Aboadela (Amarante)

Capela de S. Brás de Várzea - Aboadela (Amarante)

Localizada no cimo da pitoresca aldeia de Várzea, em Aboadela, a capela de S. Brás, no dia da festa do santo, atrai um elevado número de devotos que, em romaria, vão à pequena capela cumprir as suas promessas ou, simplesmente, pedir as bênçãos do santo. Não fosse ele advogado das doenças de garganta, tão frequentes nesta altura do ano. 
De Gondar, são muitos os romeiros que aí se dirigem.
Capela de proporções e construção modesta, vem referida, pelo padre Alexandre Pinto da Silva, nas “Memórias Paroquiais” de Ovelha do Marão, em 1758, como “pertencente aos religiosos de S. Bento do convento de Tibães” e acrescenta que “no dia da sua festa, junta-se algum povo em romaria”. Documento que atesta a antiguidade e importância do culto a S. Brás nesta abençoada região do Marão.

Aldeia de Várzea - Aboadela
Festa religiosa, tem também a sua vertente profana, sendo como que um prenúncio do Carnaval que se avizinha. Na festa não faltam o vinho verde da região, as cavacas, os rosquilhos e o afamado e sempre presente “biscoito da Teixeira”.
Miguel Moreira (texto e fotografia)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A ESTRADA POMBALINA NA LITERATURA (IV)

SANT’ANNA DIONÍSIO

As dificuldades e perigos desta estrada, construída em finais de setecentos, estão bem presentes neste texto de Sant’Anna Dionísio:

“... a estrada muito estreita, rude e sinuosa, requer circulação prudente, sobretudo no sentido descendente. Durante duas léguas, quem descer para Amarante terá, pela direita, consecutivas ribanceiras, que atingem, por vezes, algumas dezenas de metros. Quem sobe pode ir um pouco mais à vontade, pois segue sempre encostado ao pendor íngreme da serra da Aboboreira, possante ramificação granítica do Marão.


Estrada Pombalina na Boavista - Gondar
Estrada Pombalina nas Noveleiras - Bustelo
Estrada Pombalina transpondo o rio Teixeira (Mesão Frio)

As diligências e os carroções, que ainda nos meados do século passado faziam uma boa parte dos transportes do Alto Douro para o Porto por esta via, venciam as íngremes ladeiras do Padronelo, da Reboreda e da Teixeira em demoradas horas (...). Muitas vezes, atrelavam-se juntas de bois aos carros de cavalos.
As mudas faziam-se nos Padrões da Teixeira.”

Sant’Ana Dionísio, “Alto Douro Ignoto”, Porto, Lello & Irmão, 1973.

Miguel Moreira (fotografia)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

A ESTRADA POMBALINA NA LITERATURA (III)

CAMILO CASTELO BRANCO

Camilo conhecia, como ninguém, os meandros desta estrada que, pelos Padrões da Teixeira, ligava Mesão Frio e Amarante:

“Acaso falávamos um dia nas estradas pitorescas, ladeadas de abismos alcantilados da província de Trás-os-Montes, e perguntou-me Valentim se eu conhecia os Padrões da Teixeira na estrada que vai de Amarante à Régua. 


Ponte sobre o rio Teixeira - Mesão Frio

Depois, escutando com a sua atenção muito enlevada de surdo, que era, as minhas reminiscências daquele espinhaço da serra do Marão, disse-me que seus pais e avós por alí tinham vivido e morrido em uma casa que está às cavaleiras do fraguedo nos espigões da montanha onde chamam Padrões da Teixeira. Eu sabia onde era. 


Fontanário na subida de Mesão Frio para Padrões da Teixeira

Está alí a poesia dos pavores supersticiosos. Resvalam umas escarpas crespas das rochas socavadas pelos cónegos. Sobre essas barrocas dependuram-se penedias acasteladas que parecem ir rolando da espinha das cordilheiras. Os carvalhos hirtos, desfolhados e retorcidos que vegetam das figas do penhascal, reverdecem quando o ardor do estio os desabrocha e queima com a mesma lufada de fogo. No inverno a corrente do rio Teixeira, lá no côncavo fundo, referve, cachoa e estorce-se, como uma serpente em cujas escamas verde-escuras não rutila uma flecha do Sol. A torrente galga o penedio das margens, rugindo a espaços como trovoadas longínquas. 


Alto de Quintela - Padrões da Teixeira

Aquelas solidões são como um pedaço do globo em que se estão germinando num silêncio pavoroso criações monstruosas. Eu passara por alí uma vez em uma noite eléctrica de Agosto, quando as faíscas se cruzavam abaixo dos meus pés, na voragem, onde abriam cavernas luminosas, e os trovões pareciam o estampido daqueles morros que se despedaçavam uns de encontro aos outros. Lembra-me ver então no topo da serra uma casa enormemente grande ao lampejo de um relâmpago que lhe dava projecções de sombras enormes.
Era a casa dos avós de Valentim Mascarenhas.”


Castelo Branco, Camilo, “Perfil do Marquês de Pombal”, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, pág. 63.

Miguel Moreira (fotografia)

sábado, 18 de novembro de 2017

A ESTRADA POMBALINA NA LITERATURA (II)

“O MINHO PITTORESCO”

José Augusto Vieira, na sua viagem pela estrada pombalina, não esquece a economia da região:

“...Depois de havermos descansado em Amarante, tendo n’este ensejo ocasião de alugar cavalos que nos levassem à serra da Aboboreira e d’ahi ao concelho de Baião, partimos de madrugada, sendo-nos obsequioso guia e companheiro amável para essa excursão à Aboboreira, Sebastião Nogueira Soares, amigo a quem devo a correcção de muitas inexactidões que a princípio enxameavam por este capítulo.


Fábrica de Lanifícios de Padronelo

Breve nos amanheceu em Padronello ou Padornello, e posto não fosse ainda manhã nada, tivemos ocasião de apreciar a actividade industrial d’esta laboriosa povoação, que se muito deve à Fábrica de Lanifícios que veio aqui instalar-se em 1859, aproveitando a àgua do rio Ovelha como força motriz.

Paço de D. Loba em finais do séc. XIX
À freguezia pertence o lugar da Torre, onde existe a ruína de uma, que foi casa solarenga de D. Loba Mendes, filha de Mem de Gondar (...). Era senhora rica e piedosa e deixou muitas rendas ao convento de S. Gonçalo de Amarante.
Neste contar da lenda (de Dona Loba) fomos atravessando Padronello, e o assombrado lugar do Cavalinho, de Gondar, onde fazem duas importantes feiras de gado, a 12 e a 28 de cada mez. À mesma freguesia pertence o lugar de Villa Secca ou Panelleiros, assim chamado por causa da profissão dos seus moradores, que se entregam aos trabalhos de olaria grosseira. Como prova lá se via o respirar das soengas ou fornos, espalhando o fumo pelas quebradas tristes do lugar.”
Sobre a esquerda, em um plató afastado, vê-se a importante casa da Barroca, pertencente à família Cunha Brochado.” (pp. 432-433).

Feira do Cavalinho (foto de Eduardo Teixeira Pinto)

Vieira, José Augusto, "O MINHO PITTORESCO", Livraria de António Maria Pereira, Lisboa, 1887.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A ESTRADA POMBALINA NA LITERATURA (I)

AQUILINO RIBEIRO

São vários os escritores que, nas suas obras, se referem a esta estrada que, por Gondar, liga Amarante a Mesão Frio.
Comecemos por Aquilino Ribeiro na sua obra “A Casa Grande de Romarigães”:

“… Para lá de Cavalinho começou a escalada. De momento a momento, as mulas tinham de retesar os jarretes e especar-se para subir. E, como as seges eram pesadas, obrigavam os cavalos a um passo mais vagaroso que o dos próprios sendeiros. Aproveitando-se da rédea lassa, por vício que não por fome, iam dando aqui e além a sua ripada às ervas que medravam pelas rampas e aos pâmpanos das videiras que descaíam dos cômoros para o caminho.


Cavalinho - Gondar

Estrada Pombalina em Cavalinho - Gondar

À mão esquerda começava a inscrever-se o vale alpestre, com seu cultivo de renovos e de vergel, marinhando na vertente oposta, até meia altura, a avaliar pela barra de verde. Do meio para cima era mato e pedegrulhal. Em baixo, nas pequenas chapadas reluzia a telha vermelha dalgum moinho, dum ou doutro casal, e por toda a parte as águas faiscavam como cutelos ao cair dos socalcos. Tanto nas arribas, a um lado, como na vertente oposta, à mão direita do caminho, a terra vessada refulgia com a Primavera.
As duas carruagens agora subiam a encosta com dificuldade e desesperadora lassitude. 


Estrada Pombalina em Carneiro - Amarante

Ainda não teriam andado metade do caminho que vai de Amarante até Quintela, e tanto o cocheiro de Luís de Azevedo como o dos fidalgos de Ponte de Lima esfaltavam-se a estalar o chicote sobre o lombo das muares, com vozes de incitação:
- Ih, mulas! Ih! Ides a rezar… Eu dou-vos a reza!
Andando, andando, a encosta tornou-se mais íngreme, com voltas apertadas e cegas, e à mão esquerda mais profundos os despenhadeiros. Num e noutro ponto, o piso esbarrondara-se, e via-se lobreguejar através do alçapão o fundo do abismo. 


Aldeia das Matias (Bustelo - Amarante)

Casebres, lá de raro em raro, e poviléus, Bostelo, Rechãozinho, Curvaceira, não maiores que acampamentos de ciganos, diziam que ali não era ermo absoluto. E a cada passo a água se despenhava em lançadas oblíquas, em cutelo, ou de jacto, perdida pelos regos e os charcos, cantarolando a sua ladainha.


Aglomerado agrícola em Carneiro - Amarante

A ascensão, a partir de Noveleiros, tornou-se ainda mais de costa-arriba, se era possível, e já os carros em certos pontos, além de emperrar, patinavam… “.


Aquilino Ribeiro, A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES, Livraria Bertrand, Lisboa, 1963.

Miguel Moreira (fotografia)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


“ALMINHAS” do CAVALINHO 


Em dia de “Todos os Santos” e de idas ao cemitério, julgo oportuno dar a conhecer estes pequenos “monumentos” saídos da imaginação e da devoção popular - as "alminhas".

Alminhas em Cavalinho - Gondar
Em Gondar, das poucas que terão existido, as únicas que se conservam são as do Cavalinho.
Em Portugal, abundam no norte e centro, tendo sido o único país do mundo que, na sequência do Concílio de Trento (1545-1563), criou estes pequenos monumentos, marcas profundas da religiosidade popular com enorme carga emocional e sentimental. Inserem-se no culto dos mortos e na crença no Purgatório, um estado intermédio de expiação e purificação.
Localizadas, habitualmente, à beira das estradas e caminhos rurais ou nas encruzilhadas, as “alminhas” são representações populares das almas do Purgatório que suplicam, aos vivos, orações e esmolas para, mais rapidamente, alcançarem o Céu.

As do Cavalinho, que, ao contrário de muitas outras espalhadas pelo país, se encontram em razoável estado de conservação, são de construção muito antiga (séc. XIX, conject.), estando, em nosso entender, associadas à realização da feira do Cavalinho e à construção da estrada da Companhia (pombalina), aproveitando a movimentação de pessoas que estas proporcionavam.
De planta retangular e construídas em cantaria de granito, são encimadas por uma cruz latina, ladeada por dois pináculos ao modo de pirâmide, assentes numa base com cornija moldurada. 


Alminhas em Cavalinho - Gondar
Assente sobre uma bonita pedra talhada em forma de altar, o oratório ostenta no seu interior um painel de azulejos policromados, datado de 1946, onde podemos ver as almas (em representação antropomórfica) envoltas em chamas, com os braços suplicantes implorando Nossa S.ª do Carmo que interceda por elas e as liberte daquele sofrimento. Na verdade, Nossa S.ª do Carmo, que aqui aparece com o menino ao colo segurando o escapulário, era uma das santas que protegiam e intercediam pelas almas do Purgatório. 
Notamos também, no painel, a presença de dois anjos que auxiliam as almas. E, na sua base, um pedido: “Lembrai-vos de nós; Lembrai-vos de nós; Ao menos vós, os que sois nossos amigos; Porque a mão do Senhor nos feriu...”. E, ainda, a data do restauro: 1946.
O nicho, que também contém uma caixa para as esmolas, encontra-se protegido por uma grade em ferro.

As “alminhas” são património. Património cultural e religioso, enquanto expressão da piedade cristã. Património construído, enquanto arquitetura religiosa e expressão de arte popular. Assim sendo, não podem ficar ao abandono como acontece a muitas outras por este Portugal fora. Fazendo parte da nossa identidade, da nossa memória colectiva, devem ser convenientemente preservadas e valorizadas.

Miguel Moreira