quarta-feira, 17 de outubro de 2018


CASA DO RIBEIRO / CASA DE OVELHINHA

"Casa abastada, seiscentista, em cantaria de granito aparente, composta por vários edifícios e capela, de planta retangular, desenvolvidos em dois pisos, excepto a capela, de ambos os lados da rua principal, localizando-se a SO o edifício principal, de planta retangular irregular e a NE a capela e vários edifícios anexos, um deles em ruína. Volumes diferenciados com coberturas diferenciadas em telhados de quatro águas no edifício principal e anexo e duas águas na capela. Fachadas em alvenaria de pedra de cantaria aparente, disposta em fiadas regulares. São maioritariamente rasgadas por vãos de verga reta, simples. 

Casa do Ribeiro (Ovelhinha - Gondar)
Edifício principal de planta retangular irregular, com a fachada principal voltada à pública, rasgada no piso térreo por porta simples e janela, e no piso superior por seis janelas de guilhotina. No extremo SE abre-se escadaria de granito, com guarda também de granito, ornada no arranque por enrolamentos em ressalto, protegida por alpendre com teto de madeira e cornija de granito, assente sobre três colunas de granito, de secção quadrangular e capitel dórico. Sob o alpendre rasga-se porta de verga reta de acesso ao interior do piso superior. Fachadas laterais e posterior voltadas para a cerca e ocultas por muro de vedação".

Cronologia
Séc. XVII - construção da casa;
Séc. XVIII, primeira metade - provável construção da capela;
1758 - nas Memórias paroquiais o Pároco António Coelho Pedroza, refere que "no Lugar de Ovelhinha tem uma capela moderna, feita a expensas do Doutor Manoel Preira Vallente, natural da freguesia de Gondar e assistente na cidade do Porto", advogado, referindo-se provavelmente à Capela de Nossa Senhora do Carmo, pertencente à Casa do Ribeiro.


Enquadramento
Peri-urbano, isolado, à entrada da povoação de Ovelhinha, aldeia preservada, na margem direita do Rio Carneiro, envolvida por campos de produção agrícola. Do outro lado da Rua, em frente à casa, ergue-se a Capela de Nossa Senhora Carmo, do mesmo proprietário.

Fonte electrónica

terça-feira, 18 de setembro de 2018


CASA DA BARROCA - GONDAR

(Família Cunha Brochado)

Não pertencendo originariamente à família Brochado, esta casa entrou na sua posse com o casamento de Francisco Martins Brochado com D. Ana Nogueira da casa da Barroca, filha do ouvidor de Gestaço, Francisco João. Após este casamento, a casa da Barroca permaneceu, ininterruptamente, na posse da família Brochado.
A casa, profundamente remodelada nos anos 60 do século passado, data do século XVII e é constituída por dois corpos: a habitação e a capela.


Casa da Barroca - Vilela (Gondar) - Foto dos princípios do séc. XX

À habitação, de cariz senhorial, está adossada uma torre ameada que lhe confere um certo ar dominial que a posse, por esta casa, de uma vasta área agrícola e florestal da freguesia de Gondar vem confirmar. A implantação da casa permite visualizar esse vasto domínio territorial que, ao longo das duas margens da ribeira que desce de Bustelo, se estende até ao vale do rio Ovelha, em Ovelhinha.


Registo de óbito de João Brochado Ribeiro

A capela, de inquestionável valor arquitetónico e patrimonial, data do século XVIII e é dedicada  a S. João Baptista. Foi mandada edificar por João Brochado Ribeiro, por volta dos anos trinta de setecentos, pois, em 1721, “sobrevindo-lhe huma gravíssima enfermidade, há mais de vinte anos não ouvia missa porque nem levado em braços podia ir e que pelo discurso do tempo veio a poder ir assentado em humas andilhas... pela consolação da sua alma e recuperar os tempos em que lhe não foi possível assistir ao culto santo e saráfico da missa... queria fazer uma capella na sua quinta de Villela em que vive e será esta obra muito mais fermosa para o serviço de Deus”, envia uma petição ao Arcebispo de Braga solicitando autorização para a construção da referida capela. É nesta mesma capela que é sepultado, após falecer aos sete dias de Dezembro de mil setecentos e quarenta e cinco (ver registo de óbito). A licença para aí se sepultar foi-lhe concedida por uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, datada de 18/03/1741, (ver em
  http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1266249&ht=joao ).
Com uma fachada elegante e bem proporcionada, a capela possui no seu interior um belo retábulo em talha de madeira dourada de estilo barroco joanino. Esta capela será objecto de uma publicação neste blogue, logo que as obras de restauro, em curso, estejam concluídas.
Miguel Moreira

terça-feira, 7 de agosto de 2018

LOUÇA DE BARRO PRETO DE GONDAR:

NEM TUDO SÃO ELOGIOS!


Um documento manuscrito de 1803, “A Memória Económica-Agrícola de Riba-Tâmega”, assinado por Francisco de Azevedo Coelho de Magalhães, pinta de negro a louça de barro preto de Gondar, que classifica de "muito má", "muito grossa" e “indigna”.

Lê-se no documento:

“... numa grande parte do concelho de Gestaço que confina com o rio Tâmega, padecem um gravíssimo prejuízo a lavoura, a sociedade e as Rendas Reais pela “fábrica” – “melhor dissera tráfico” – da indigna loiça que ali se trabalha.
Deixam-se de adubar as terras para crescerem os matos a fim de haver lenha para os fornos de cozer loiça. Gasta-se imenso tojo ou lenha e cansam-se ou fatigam-se os gados – que deveriam estar ocupados na lavoura – no amassar e preparar dos barros. Os ditos povos possuem “imensas campinas” de tojo – que deveriam ser semeadas de “grãos” – não pagando assim os tributos que recaem sobre a produção das terras, sendo então menos onerados do que se agricultassem as terras. Os de Gestaço, que se ocupam daquele ofício (e causam imenso prejuízo à madeira), empregam no fabrico das loiças “quase todos os braços” e os gados, “já em a manobrarem, já em a conduzirem para diferentes terras e feiras”. Esta produção, que ocupa os braços e gados necessários à agricultura, deveria ser proibida – com excepção da “telha que se faz junto ao Cávado e Tâmega” e que é excelente. Inversamente, a “loiça deveria ser proibida”: quer porque é muito má e muito grossa, quer porque é tão ou mais cara que a da fábrica de Aveiro, que é muito melhor. Esta loiça, quando se tornarem navegáveis os rios desta província, “até poderá ficar em melhor conta do que a de cá”. Como a loiça da dita fábrica, “ainda que melhor, não é capaz de transportar para fora do reino, é justo que para a sua subsistência se lhe dê consumo”. Só esta razão seria suficiente, ainda segundo o autor, para levar avante a sua tese: não se deixar fabricar “esta indigna loiça de Ovelhinha”. (1)

Louça de barro preto de Gondar

Modelando o barro (Barro preto de Gondar)

soenga (barro preto de Gondar)

Comentário: É manifesta a profunda ignorância que o autor, Francico de Azevedo Coelho de Magalhães, revela em relação aos locais, processo de fabrico e comercialização da louça de barro preto de Gondar, a saber:
1- Destaca Ovelhinha como o centro produtor desta louça, quando, na realidade, esse centro era Vila-Seca, a par dos lugares do Rio, Outeirinho e Corujeiras. Ovelhinha ocupava um lugar secundário.
2- Fala em “fornos de cozer loiça”, quando, pelo que sabemos, o processo utilizado sempre foi o de “cozedura em soenga” e não em fornos.
3- Depreende-se da exposição do autor que as pessoas abandonavam o amanho das terras porque a olaria lhes traria maiores rendimentos. Ora, sabe-se que a venda das loiças produzidas por estes esforçados oleiros apenas lhes permitia um nível misérrimo de vida, associando, muitas vezes, o trabalho na arte com o amanho de um pouco de terra.
4- O autor diz que "se empregam neste ofício quase todos os braços e gados", o que não é verdade já que as louças eram, a maior parte das vezes, levadas para as feiras e outros locais de venda por mulheres, em cestos que transportavam à cabeça.

(1)- Estêvão, João Antunes, “A Memória Económico-Agrícola de Riba-Tâmega” (c. 1803), in Actas do II Congresso Histórico de Amarante, I vol., Tomo II, Câmara Municipal de Amarante, 2009, pp.199-200.

Miguel Moreira (texto)
Fotografias de Mariana Sá

sexta-feira, 20 de julho de 2018


MEMÓRIA PAROQUIAL DE CARVALHO DE REI (1758)

Terá sido a capela de Nossa Senhora do Castelo a primeira Igreja Matriz de Carvalho de Rei? 
Fontanário (Castelo - Carvalho de Rei)
A acreditar neste documento assinado por Gonçalo Nunes Veloso, vigário de Carvalho de Rei em 1758, é muito provável que sim. Uma pia batismal serve ainda de base a um fontanário situado muito próximo da referida capela, o que demonstra que aí se efetuavam batismos. Esta é uma das curiosidades da Memória Paroquial de Carvalho de Rei que hoje publicamos.
Também interessante é saber que o culto a Nossa Senhora do Castelo é muito antigo e que os devotos das paróquias vizinhas romavam a esta ermida, no dia de santo António, com os seus clamores, como ainda hoje o fazem.
Como curiosidade, o padre Gonçalo Nunes Veloso (1691-1762), que assina o documento, era natural da freguesia de Gondar, onde mandou erigir a capela de Santo António na quinta da Saída.

Passamos a transcrever, na íntegra, o texto da Memória Paroquial (1758):


“Relação do que há na freguesia de São Martinho de Carvalho de Rey.
1- He esta freguesia cita no distrito de Entre Douro e Minho, na Comarca de Villa Real, do Arcebispado de Braga, no concelho de Gestasso, e tão bem pelo secular na Comarca de Guimarães.
2- He Sua Magestade Fidelissima Senhor do dito concelho de Gestasso, são as justiças do mesmo concelho feitas por eleição que ao mesmo vem fazer o Douto Corregedor da villa de Guimarães de três em três anos, a qual se faz com adjuntos das pessoas principais do mesmo concelho que servem de pautas.
3- Tem esta freguesia sinquenta e dous fogos, pessoas de sacramento cento e trinta e duas, menores dezanove e absentes catro.
4- Esta a dita freguesia cituada no alto de hua cerra áspera, donde se avista a do Marão e outros vários montes que ocultam muitos lugares e freguesias. Do adro desta freguesia se descobre a cerra de Santa Catarina junto a Guimarães e parte da da Falperra junto a Braga que dista desta nove legoas e daquella sinco.

Igreja Matriz de Carvalho de Rei - Amarante
5- Tem esta freguesia o Lugar de Carvalho de Rey ao pé do qual em distancia de dous tiros de espingarda está a Igreja Matriz, na qual está a residência do Parocho; tem tambem o lugar do Castello, que dista da Igreja Matriz hum bom quarto, o lugar de Perredondo, e da Guarda e de Paredinhas. Parte esta freguesia pella parte do Sul com o Bispado do Porto, da parte do Nascente parte com a freguesia de São Mamede de Bostelo e do Norte com a de Santa Maria de Gondar.
7- O santo do orago desta freguesia he São Martinho que está no Altar Mayor, tem esta igreja mais dous altares colaterais, hum da parte do Evangelho, que tem a imagem do Menino Jesus e a de São Sebastião, e o da parte da Epístola que tem a imagem de Nossa Senhora do Rozario.
Não tem a Igreja mais do que hum arco entre a capella mayor e o corpo da Igreja; não tem Irmandades, mais do que esmollas que os moradores juntão para alguns festeijos dos santos.
8- O Parocho desta igreja he vigário colado, he apresentação da dita vigagaria do Reytor de Santa Maria de Gondar, donde he esta anexa capella comenda de que he comandador o Excelentíssimo Conde do Redondo; rende esta esta igreja para o Parocho cento quarenta e sinco mil reys.
9- Não tem esta igreja beneficiados, nem conventos, Hospitais, nem Casa de Misericórdia tem esta freguesia.
Ermida de Nossa Senhora do Castelo - Carvalho de Rei
13- Tem esta freguesia huã Ermida no lugar do Castello com a imagem de Nossa Senhora, ainda que esta próxima do dito lugar em distância de dous tiros de espingarda e oculta com a cabeça de hum monte que está entre ella e o mesmo lugar, he antiquíssima a mesma ermida e dizem fora em algum tempo Igreja Matriz, e ainda nella se conserva huã pia baptismal, pertence a fabrica della ao Comendador assima dito. Em dia de Santo António  concorre à dita capella vários povos com suas procissões, como são as freguesias de Santa Maria de Gondar, Bostelo, S. Salvador de Lufrei e de S. João de Gatão a visitão. E os da freguesia de S. Simão, do bispado do Porto, fazem o mesmo em huã das oitavas do Espírito Santo, e as mais quando as move a devoção.
15- Os frutos que costuma frutificar a terra da sobredita freguesia são milhão, senteio, trigo, milho alvo, painço e feijão, mas de tudo isto pouco por ser terra montanhosa e de aver muy frio e muyta neve em alguns meses do anno por confrontar com a cerra do Marão; he muy abundante de gestas e de tojo para alimentação e sustento dos animais que os comem.

Espigueiros no lugar do Castelo - Carvalho de Rei
Da parte do nascente confronta com hum vale que desce da cerra para bayxo onde o rio que vem de Carneyro chamado a Reboreda, cujo vale em alguns tempos do anno sustenta javalizes, lobos, raposas, coelhos, perdizes, mas poucas escapam naquele citio a huãs aves de rapina a que chamão milhafres. He este vale muyto montanhoso...
Tem este vale em si huã cova chamada a Lagoa do Beyrão cujas possas cobrem três penedos e na entrada da dita cova pode entrar hum homem a cavallo, o fim della não se descobre pela escuridade que na entrada o oculta.
16- O concelho de Gestasso donde está esta freguesia tem Juiz Ordinário que se elege com a Câmara pelo povo.
18- Não há memória que nesta freguesia florescessem homens insignes em letras ou armas ou virtudes.
Dista esta freguesia da cidade de Braga cabeça do Arcebispado Primaz nove legoas e da capital do Reyno Lisboa sessenta legoas pouco mays ou menos.
Esta freguesia de Carvalho de Rey está no alto do monte chamado do mesmo nome da freguesia. Da parte do sul parte com a cerra que he do bispado do Porto com que confina; tem a freguesia huã legoa pouco mays ou menos de comprido e de largo mais de outra. Não tem rios, so sim agoas pluviais  que descem dos montes...


Lugar do Castelo - Carvalho de Reio
Nesta freguesia se cria gado a saber vacas, cabras, ovelhas, mas pouca quantidade pelo áspero e pobreza da freguesia. Tambem se criam nos montes della coelhos, perdizes e algumas lebres.
Tem esta freguesia um pizão em hum ribeyro que esta junto ao lugar da Guarda, onde nos meses de inverno por juntar alguma agoa se pisam mantas para o uso dos labradores.”
Com o que refiro assima declaro o que posso dizer desta freguezia de Carvalho de Rey e aos mais interrrogatórios que se pede não tenho que responder.

Carvalho de Rey de Março 15 de 1758
O Vig.º  Gonçallo Nunes Velloso
Miguel Moreira

quarta-feira, 27 de junho de 2018


MEMÓRIA PAROQUIAL DE S. JOÃO DE VÁRZEA (1758)


Com data de 8 de Maio de 1758, a Memória Paroquial de S. João de Várzea, assinada pelo P.e Manoel Martins Maio, é um importantíssimo documento para a história da freguesia, no séc. XVIII.
A mudança da sua Igreja, segundo uma provisão de 1744, das imediações da quinta do Paço, na margem direita do rio Marão, para o local onde hoje se encontra, “por causa da passage do rio... e a residência em muita distancia e da outra parte do rio”, é, talvez, a informação mais importante deste documento. Refira-se que a "estrada real" (EN15) só foi construída mais de cem anos depois.
De salientar, também, que a freguesia era constituída por apenas três lugares, Paço, S. Vicêncio e Paredes Secas, e que a sua população não ia além das cento e cincoenta e oito pessoas e "a maior parte deles vivia de fazer carvam na serra do Maram e seos arrabaldes e em frabriquo de terras de meios, em razam de a maior parte das fazendas desta freguezia serem de dous senhorios que as compraram e abitam fora da freguezia e nesta nam há pessoas de qualidade".
A igreja de São João de Várzea era curato da apresentação dos religiosos de São Martinho de Caramos.

Passamos a transcrever o documento:

“Esta freguezia de sam joam de Várgea do Maram esta cita na província de Entre Douro e Minho, na comarqua de Guimaraes, no concelho de Jestaço; este he governado por juiz ordinário, nele se escreve por Sua Majestade que Deos guarde, dista da cidade de Lisboa sessenta legoas, he do Arcebispado de Braga, e da comarqua de Villa Real, dista da cidade de Braga nove legoas.

Igreja Matriz de São João de Várzea - Amarante

A Igreja he anexa jus prepetum ao Convento de São Martinho de Caramos; estes seos Relegiosos sam da Ordem de Santo Agostinho, Conegos Regulares da Congreguaçom de Sancta Crux de Coimbra; aos tais Religiosos se paguam dizmos, os povos desta freguezia  esses estam obriguados a fatura e fabrica de toda a Igreja e Capella Mor e os moradores só poem as campas e banquos.
Esta tem só o Altar Mor em que esta a imaje de Sam joam Bauptista e tem huma so confraria do oraguo guarnecida pelos freguezes. Tem hum so arco entre a igreja e Capella Mor. No dia do oraguo costumam vir a esta Igreja os clamores de três freguezias vezinhas. O seu oraguo he sam Joam Bauptista.
No anno de mil setecentos e corenta e coatro se alcançou provizam para se mudar a dita Igreja para o cítio donde aguora está.
O Parocho della he cura anual, tem obriguaçom todos os annos aprezentaçom ao Dom Prior do Convento de Caramos e com ella pedir ao Reverendo Doutor desembarguador viguario geral da comarqua de Villa Real que lhe mande passar carta de cura para poder parochiar esta freguezia. Paga-lhe quem colhe os dizmos dez mil reis, dous litros de sera, dous alqueires de trigo, dous almudes de vinho, e coatrosentos reis para mandar lavar a roupa da igreja e mais tem o que rende o pé de Altar que huns annos por outros quinze mil reis.

Igreja de São João de Várzea - Amarante
Está esta freguezia cituada em três piquenos valles, em cada hum esta hum piqueno lugar, cujos valles se formam em huma serra nam muito alta; esta serquada toda a freguezia pella parte do Norte porque pera o Norte se nam descobre mais que parte dos lemites da mesma freguezia. Do alto desta Serra em coalquer parte donde chegam os lemites desta freguezia se descobre pera a parte do poente se descobre diguo para a parte de nascente se descobre muita parte da alta Serra do Maram e duas freguezias em distancia de huma grande legoa e pera a parte do poente se descobre mais de três legoas de serra povoada e pera a parte do sul se descobre huma serra em distancia de mais de legoa e pera a parte do Norte se descobre muita serra e no fim a serra do jarez que confina com gualiza que parece dista mais de vinte legoas.
No primeiro valle desta freguezia contando do nacente está o Lugar do Passo em que abitam dez moradores; junto acima desse valle no citio dos poços da Ribeira está hum penedo coberto de serra pella parte do Norte e parte della descuberto pella parte do Nacente donde sahem duas piquenas fontes para a parte do Nacente. Nesse citio tem aparecido debaixo da serra louça de barro e huma panella de metal de pouca valia.
Vindo desse luguar caminhando para o poente em pouca distancia descendo hum piqueno oiteiro esta outro lugar que chamam Sam Vicenso em que abitam desasseis moradores, este tem huma fonte que corre do sul para o norte cuja agua he sadia tanto que nem aos doentes faz mal; pera a parte do poente perto das casas como melhor citio deste lugar está a Igreja em terra bem solheira, atendendo a todos os citios desta freguezia.
Junto desse luguar para o poente em distancia de meio coarto de legoa em que medeia hum oiteiro esta outro luguar em que abitam onze moradores, chamam-lhe paredes sequas; he muito falto de agoas, reguam seos frutos com poças ou presas; estam as pessoas desse luguar sujeitas às missas de huma capella da Villa de Amarante cita no convento diguo na Igreja do Convento de Santa Clara.
Tem esta freguezia trinta e sete fogos e esses contem entre maiores e menores cento e sincoenta e oito pessoas que a maior parte deles vivem de fazer carvam na serra do Maram e seos arrabaldes e em frabriquo de terras de meios, em razam de a maior parte das fazendas desta freguezia serem de dous senhorios que as compraram e abitam fora da freguezia e nesta nam há pessoas de qualidade.
Tem esta freguezia de comprido de nacente ao poente mais de meia legoa, de larguo de Norte ao sul na cabeça do nacente mais de coarto de legoa.
Entre o nacente e o norte digo e o sul entra nesta freguezia hum rio que corre de nacente para o poente que em huma piquena parte dele a devide pelo meio ficando-lhe pera a parte do norte da parte do dito luguar do Passo parte de huma quinta com hum so morador desta freguezia que com esse tem esta freguezia trinta e oito fogos. Peguada às casas dessa quinta estava a Igreja que por causa da passage do rio se mudou toda a mais freguezia e a residência em muita distancia e da outra parte do rio. Este tem seos princípios na serra do Maram que dista desta freguezia huma grande legua e enquanto corre nesta freguezia lhe chamam o rio de Sam Joam de Vargea. Nos lemites desta freguezia se junta com outro igual em tamanho e em princípios que corre do Norte para o sul e athe se meter neste, e vam correndo pera o poente tomando o nome das terras por donde passa athe se meter no rio Tamegua e desse toma o nome em distancia daqui três léguas. Este rio devide a maior parte desta freguezia de duas vezinhas pela parte do Norte.
Tem este rio dez piquenas levadas, sinco servem para reguar os campos e para hum muinho, as outras sinco só servem pera sinco moinhos. Os moinhos por todos sam seis todos de moer pam. Todas estas levadas saem pera a parte do sul na coal lhe fiqua esta freguesia, menos huma que sai pera a parte do Norte que he toda da quinta acima dita.
Todos os moradores desta freguesia regam livre nesta com estas levadas menos os do dito luguar de Paredes que lhe nam contam as levadas às suas terras.
Tem este rio três pontes, todas formidáveis por altas e compridas e estreitas; duas mais formidáveis por passar o rio no citio dellas por grandes penedos e fazer grandes cachoens no tempo do inverno. A passage mais frecoentada se passa por poldras.
Corre este rio com alguma velocidade por passar por terra nam muito encostada. A caça que tras sam trutas, boguas, enguias, tudo meudo e pouco criado, por levar de veram pouca aguoa. Suposto em nenhuma parte seca pelas terras lavradias por onde passa. Está de huma e de outra parte cerquado de arvores de amieiros, salgueiros, silvas e erveiras. Pela parte já cultivada está cercado de fraguas e penedos e por todo o lastro pedra meuda. Nele se caça livremente quem pode e quer menos no lemite da dita quinta que passa pelo meio della, ficando-lhe huma parte pera o Norte e outra pera o sul que por ser do capitam Mor deste concelho lhe guardam respeito.
As terras lavradias desta freguezia produzem milham e milho e painço, feijam, vinho verde, landre, castanha pouca, azeite pouco. Os seos montes estão todos partidos em bouças e de nove em nove annos produzem dahi urgueira, jesta… Neles pastam cabras, ovelhas poucas por nam serem ervosos, gado grande há pouco pa lavrar as terras por nam aver pastos.
Em muitos tempos do anno corre vento do nacente que destroe os milhos e uvas que se dam nas árvores.
A caça sam coelhos, perdizes, raposas.
Serve-se esta freguezia do correio da villa de Amarante que dista huma grande leguoa; parte na quinta feira para a cidade do Porto, e na segunda pera Villa Real."

Asigno, Sam Joam de Vargea de março 8 de 1758.

O P.e Manoel Martins Maio, Parocho desta Freguezia

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Miguel Moreira (pesquisa e fotografias)

segunda-feira, 25 de junho de 2018


CRUZEIRO DAS TRANDEIRAS – BUSTELO


Perdido entre os matos, na velha estrada medieval que, de Amarante, seguia para o Douro
Cruzeiro das Trandeiras - Bustelo
e Beira Alta, encontramos um bonito e bem conservado cruzeiro, ali mandado erigir em memória de um milagre que devolveu a fala a um menino que, acompanhado por "huma pessoa principal do reino", se dirigia em romagem a S. Gonçalo de Amarante.
Há, felizmente, documentos antigos que referem a existência deste cruzeiro e que aqui vamos transcrever:

“… No lugar de Trendeiras, no meio da estrada, está hum cruzeiro; e no alto hum escudo das armas dos Sylvas, muito gasto; e no pee do cruseiro, num letreiro que tomou três faces delle, muito gasto e difícil de se ler, mas esperamos conseguir a memoria do que ell cothem; e tendo-o, aqui a copiaremos com toda a pureza.” (1)

(1)-Craesbeech, Francisco Xavier da Serra, MEMÓRIAS RESSUSCITADAS da Província de Entre Douro e Minho no anno de 1726, Ed. Carvalho de Basto, Ponte de Lima, 1992, vol. II, pág. 58.

e na Memória Paroquial de São Mamede de Bustelo relata-nos o Padre Manoel Campello de Miranda (1758):


“… tem sim hum cruseiro no sitio de Trandeiras que fica na estrada que vai para o Douro e toda a Beira Alta, muito bem feito. E tem por Armas hum Leam e o tempo lhe tem gasto as letras que se nam podem ler, mas a tradissam que achei nesta freguezia de homens velhos que a seus antepassados tinham ouvido, que vindo huma pessoa principal do Reino com hum menino mudo que vinha em romaria a São Gonçalo de Amarante e avistando-se daquelle citio o convento do dito Santo, o menino falara e que para memoria do milagre lhe mandara fazer aquelle cruseiro.” (2)

(2)-Dicionário Geográfico de Portugal, Tomo 7, B 2, Cód. de Referência PT/TT/MPRQ/7, Torre do Tombo (1758).

Miguel Moreira (pesquisa e fotografias)

sexta-feira, 22 de junho de 2018


MEMÓRIA PAROQUIAL DE S. MAMEDE DE BUSTELO (1758)

Porque a "estrada pombalina" apenas foi construída em finais do séc. XVIII, passava pelo centro de Bustelo, à data deste documento, a estrada que, de Amarante, “ia para o Douro e toda a Beira Alta”. Foi à margem desta estrada que, segundo reza o documento, no lugar de Trandeiras, foi construído um belo cruzeiro em memória de um milagre aí realizado e que ainda, hoje, pode ser observado no referido local.
Destaco ainda deste documento que, à data, a Igreja de São Paio de Ansiães era anexa da de Bustelo.
Interessante e muito pormenorizada é, também, a descrição geográfica da paróquia, designadamente do rio Fornelo que atravessa a freguesia.

Vejamos a Memória Paroquial de Bustelo, escrita em 1758 pelo, então, Abade:


“Esta freguezia de S. Mamede de Bustelo fica em a Província de Entre Douro e Minho, pertence ao Arcebispado de Braga Primaz, da Comarca de Vila Real pello Ecles.º e pelo secular he da Comarca de Guimaraens.
Pertence ao concelho de Gestaço que he de El Rey N Senhor que Deus Guarde.
Tem esta freguezia fogos cento e seis, pessoas de sacramento trezentos e trinta e seis.
Está situada em hum monte e della descobre a serra do Maram que dista huma légoa à boa.


Igreja Matriz de Bustelo - Amarante
A Igreja matriz está fora do lugar e os lugares sujeitos à dita Parochia sam estes; Bustello de Sima, Bustello de Baixo, Baceiros e o lugar de Travanca do Monte.
O orago he S. Mamede, tem dous altares colaterais, hum de N. S.ra do Rosário, o outro he do S. Nome de Jesus; a igreja nam tem naves; tem duas Irmandades, huma de N. S.ra do Rosário e outra do S. Nome de Jesus.


Igreja Matriz de Bustelo (fachada sul)

O Parocho he Abbade apresentasam da dita Igreja pertense in solidum à Mitra de Braga Primaz; rende a dita freguesia junto com a anexa que tem de são Payo de Ansiains quinhentos mil reys pouco mais ou menos, com frutos certos e incertos.
Nam tem Beneficiados, nem Conventos, nem Hospital, nem casa da Misericórdia.
No lugar de Travanca do Monte da dita freguezia há huma capella com invocaçom de Nossa Senhora dos Prazeres, domina nella o abbade da dita freguezia. Nam tem romagem em dia certo do anno, mas faz milagres.
Os frutos que os moradores da terra colhem em muita abundância he milham e senteio, pouco trigo, vinho verde mediano, pouco azeite por incúria dos moradores que podiam colher muito se os obrigassem a cultivar oliveiras.
Nam há memória que na dita freguezia morassem e nem della sahissem homens insignes por virtudes, letras ou armas.
O Correio de que se serve he o da villa de Amarante que dista desta freguezia huma légoa, chegam as cartas no domingo à noute e levantam-se na quinta feira até o meio dia.

Cruzeiro das Trandeiras - Bustelo
Nam tem privilegios, tem sim hum cruseiro no sitio de Trandeiras que fica na estrada que vai para o Douro e toda a Beira Alta, muito bem feito. E tem por Armas hum Leam e o tempo lhe tem gasto as letras que se nam podem ler, mas a tradissam que achei nesta freguezia de homens velhos que a seus antepassados tinham ouvido, que vindo huma pessoa principal do Reino com hum menino mudo que vinha em romaria a São Gonçalo de Amarante e avistando-se daquelle citio o convento do dito Santo, o menino falara e que para memoria do milagre lhe mandara fazer aquelle cruseiro.
Nam padeceu ruina alguma esta freguezia no terramoto do anno de 1755.
Passa pela baixa de hum monte que tem esta freguezia hum ribeiro chamado Fornello que tem o seu nascimento nas pedreiras da Teixeira e tem o seu ocaso no rio de Ovelha junto à ponte de Larim da freguezia de Santa Maria de Gundar deste mesmo concelho de Gestaço. Corre de nascente a poente, tem um pontam de pedra tosca. Há nelle vários pisoins em que se fabricam mantas e também tem muinhos. De veram leva pouca ágoa, a qualidade de peixes que tem sam trutas. Há  ágoa muito fria e nam há nota que nelle se tirasse ouro. Salem dela algumas levadas com que se regam algumas terras e bem encostados vem os lavradores das agras sem pagarem pensam. Tem de comprimento o dito ribeiro hua légoa. E nesse monte por donde corre este ribeiro, a Reboreda he cítio áspero, tem soutos de castanheiros, muitas das vezes de carvalhos. Criam-se javalizes e lobos no dito montado.
Os montes circunvesinhos a esta freguezia tem muita caça de coelhos e perdizes.
Isto o que posso diser aos itens dos interrogatórios, o que tudo aqui passei he a verdade do que eu sei e do que há nesta freguezia de S. Mamede de Bustello e por ser tudo verdade passei esta que assinei."

Bustello 12 de Março de 1758.
O Abbade Manoel Campello de Miranda

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Miguel Moreira (pesquisa e fotografias)