quinta-feira, 8 de agosto de 2019

NECRÓPOLE ROMANA DE TUBIREI


Quando, em meados do século passado, se procedia à remoção de terras para o plantio de uma vinha, numa propriedade, em Tubirei, pertença do Dr. Álvaro Pereira de Vasconcelos, os trabalhadores se depararam com um conjunto de vasos de cerâmica  e outros objetos, logo o seu proprietário se apercebeu do valor da descoberta. Bacharel em direito e possuidor de vasta cultura - não tivesse ele nascido em Pascoaes! - o Dr. Álvaro, da casa do Encontro, continuou as escavações, agora com o cuidado necessário para que as peças fossem resgatadas com o mínimo de estragos possível.
Cerâmica encontrada em Tubirei - Gondar
Depois de catalogado e estudado por peritos em arqueologia, o espólio aí encontrado logo mostrou tratar-se de uma necrópole romana, muito provavelmente do séc. III/IV da nossa era.
Embora sem o recurso a metodologias de escavação científica, que permitiriam obter dados importantes para a investigação, nas escavações foram encontrados 24 vasos de cerâmica comum subdivididos em tipologias diversas, nomeadamente bilhas, jarros e pratos, 14 mós de moinhos manuais, 74 pregos, 2 fragmentos de sigilata, 1 colar de ferro e castanhas carbonizadas. A maior parte deste material encontra-se depositado no Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante.
No local, agora coberto de pinheiros e mato, não se encontram quaisquer vestígios da necrópole ou de qualquer tipo de ocupação humana. Porém, na opinião de Lino Tavares Dias da Universidade do Porto, tratar-se-ia de um antigo castro romanizado. A localização e o relevo do terreno coadunam-se com a possível existência de um castro, não existindo, no entanto, quaisquer vestígios do mesmo.

Localização e espólio da Necrópole de Tubirei - Gondar

A descoberta de 74 pregos no local pode pressupor a existência de um ritual funerário de inumação, como é prática corrente nos nossos dias. Porém, no período romano, a prática mais corrente era a da incineração e daí o ter-se encontrado, também, um significativo número de vasos cerâmicos que serviriam para depositar as cinzas dos cadáveres depois de cremados. Os outros objetos e frutos encontrados seriam ofertas ao defunto, o que, também, era normal fazer-se.
De qualquer forma, as práticas de inumação e cremação podem coexistir, como seria o caso.
Uma incógnita é o topónimo Tubirei, caso único no país, para o qual não encontro significado. Provavelmente um termo que remonta ao período galaico-romano, ou, até, celta.
Por outro lado, a descoberta em Paneleiros (Vila Seca), em 1904, de um jarro, um pote, um potinho, um prato e cerâmica comum romana, em depósito no Museu Nacional de Arqueologia, e, em Villa Leça (Vilela) de restos de cerâmica comum, e a passagem, perto do local, de uma via romana que, por Corvachã, se dirigia às minas romanas do Teixo, no Marão, configuram, na opinião de Lino Tavares Dias, a existência de um vicus ou até de uma villa romana, aproveitando as boas condições do solo do vale drenado pelo rio Fornelo.
Considerando a sua importância para a história de Gondar, entendemos que o local devia ser delimitado e protegido para evitar danos e para futuras prospecções, tal como foi feito com os lagares rupestres de Aldeia e do Tapado.

Miguel Moreira

Bibliografia:

- CARVALHO, Helena Paula Abreu de, O POVOAMENTO ROMANO NA FACHADA OCIDENTAL DO CONVENTUS BRACARENSIS, Universidade do Minho, 2008.

- DIAS, Lino Tavares, TONGOBRIGA, MONOGRAFIA, IPAR, 1997, Lisboa.

- AMARAL, Luís Coutinho, CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DE AMARANTE/GONDAR, Gupo de Amigos da Biblioteca/Museu Municipal de Amarante, 2009, pp. 19 a 21.

- VALDEZ, Joana, Périplo pelo Património de Amarante: Resultados de um projeto de investigação, Actas do II Congresso Histórico de Amarante.

- http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/index.php?sid=sitios&subsid=3321764


segunda-feira, 29 de julho de 2019


GEMINAÇÃO LANGEAIS - GONDAR

A iniciativa de uma geminação entre Langeais e Gondar partiu de Danièlle Leite-Simonin, filha de Augusto Leite, um emigrante português, natural de Gondar,  que chegou a Langeais em 1930. Querendo honrar a figura e as origens de seu pai, e tendo em conta o elevado número de gondarenses radicados em Langeais, Danielle estabeleceu os primeiros contactos com os representantes autárquicos de Gondar em 1998. No ano seguinte, a 15 de Maio de 1999, uma delegação de Gondar que incluía, entre outros, o presidente da JFG, António Teixeira, Manuel Dias Teixeira e Alberto Rocha, partia para Langeais a fim de formalizar a geminação. É do ato que a oficializou que publicamos as fotografias seguintes, gentilmente cedidas pelo sr. Alberto Rocha.
Recorde-se que, neste ano de 2019, celebramos o 20.º aniversário da geminação e que, para esse efeito, uma delegação de gondarenses se deslocará a Langeais, nos dias 31 de agosto e 1 de setembro, a fim de participar nas comemorações.


Geminação Langeais-Gondar
Geminação Langeais-Gondar
Geminação Langeais-Gondar
Geminação Langeais-Gondar



Geminação Langeais-Gondar

Miguel Moreira (texto)
Alberto Rocha (fotografias)

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O “PÃO DE OVELHINHA”


Hoje mais conhecido como “pão de Padronelo”, o “pão de Ovelhinha” teve a sua origem no lugar que lhe dá o nome, Ovelhinha, na freguesia de Gondar. Situado nas margens do rio Fornelo e muito próximo do Ovelha, este lugar, bem como toda a freguesia, dispunha de inúmeros moinhos que forneciam as farinhas necessárias para o tão afamado pão.


Rio Fornelo em Ovelhinha - Gondar

Embora sem documentos escritos que o comprovem, foi em Ovelhinha, segundo a tradição popular, que surgiu a primeira padaria de pão de quatro cantos. Só, após 1809, com a destruição de grande parte do lugar, causada pela II Invasão Francesa, as padarias e os padeiros tiveram de se deslocar para outros lugares e é a partir daqui que Padronelo surge ligado à confecção do pão de cantos. Em Gondar, é no lugar de Chedas que, desde há muitos anos, se concentra o maior número de padarias deste pão.

"Pão de Ovelhinha" ou "Pão de Padronelo"
De cor amarelo-torrado e com uma consistência firme e suave, é um pão de mistura de centeio e trigo, com um peso médio de 150 g. Com quatro cantos e estrangulamento central, aparentando a forma de quatro losangos unidos, é, face ao seu formato, também conhecido como “pão da concórdia”. 
Até há bem pouco tempo, este  pão era fabricado segundo métodos tradicionais e cozido em fornos de lenha aquecidos a carqueja, muito abundante na serra do Marão. 
A farinha, outrora moída em moinhos tradicionais, era depois peneirada e amassada com água, sal e fermento. Depois de levedada, volta a ser amassada à mão, altura em que se lhe dá o formato característico: um quadrilátero que é estrangulado segundo as medianas, ficando com o aspecto de losangos grosseiros, mais largos na zona de ligação e bicudos nas extremidades. A massa do pão é depois «couçada», isto é, o pão é “aconchegado”, para que não perca a forma, em lençóis de linho e coberto com cobertores para ajudar na levedura, ou seja para ajudar o pão a crescer. Seguidamente o pão é cozido durante cerca de meia hora.
  Com várias designações – pão de Ovelhinha, pão de Padronelo, trigo de cantos, ou simplesmente trigo – este pão, para além de acompanhar as refeições, tem várias utilizações culinárias, como em açordas, rabanadas, enchidos, formigos e até, mais recentemente, francesinhas. Em Paços de Ferreira, pelo Carnaval, cozinha-se a “Sopa seca”: uma sobremesa elaborada com a água do Cozido à Portuguesa e pão de Ovelhinha.
  Outrora consumido quase exclusivamente na região de Amarante, onde era vendido porta-a-porta por padeiras com grandes açafates à cabeça, o pão de cantos é hoje conhecido em quase todo o distrito, existindo casas no Porto que o recebem e comercializam diariamente.

Miguel Moreira

domingo, 21 de julho de 2019

CAPELA DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

(VILELA – GONDAR)


Em 1758, a “Memória Paroquial de Gondar”, num relatório assinado pelo P.e António Coelho Pedroza, referia que "no lugar de Vilella há duas capellas, huma, a mais antiga, seu orago Sam João Baptista de que hé administradora Brizida Preira veuva e seus filhos o licenciado Manuel Brochado e o padre frei Joam de Sam Joam Baptista religiozo da Observância do Seraphico Sam Francisco na província da Índia. A outra de Sam João Crisóstimo que há poucos annos mandou eregir o Padre João Pereira Sobrinho.” (1)
Todos os gondarenses sabem da existência da capela de São João Batista, da casa da Barroca, a que já nos referimos, mais que uma vez, neste blogue. Porém, creio que poucos saberão que existiu, no mesmo lugar de Vilela, outra capela, cujo orago era São João Crisóstomo.
Datada de 31/05/1752, uma provisão da Mitra Arquiepiscopal de Braga, que se conserva no Arquivo Distrital de Braga, concedeu uma “licença para a feitura de capela com a invocacao de Sao Joao Crisostomo, novamente erigida, a favor do Padre Joao Pereira Sobrinho, da freguesia de Santa Maria de Gondar, comarca de Vila Real”.(2) Este importante documento para além de referir o seu patrono, São João Crisóstomo, refere também a pessoa que a mandou erigir, o Padre João Pereira Sobrinho. No documento diz-se, ainda, que a capela foi “novamente erigida”, o que pressupõe ter existido outra anterior a esta. De qualquer forma, esta nova capela, mandada erigir pelo P.e João Pereira Sobrinho, foi construída entre os anos de 1752, data da provisão da Mitra, e 1758, data da “Memória Paroquial”, que a dá como já existente.
A capela faria parte da Casa do Covêlo, uma habitação e quinta de dimensões consideráveis, que lhe fica mesmo em frente, do outro lado do caminho público.
Nasci muito próximo desta capela e, nos anos 50 do século passado, esta já não estava ao serviço do culto. Era um espaço para arrecadação de produtos e alfaias agrícolas. Lamentável é que, mais tarde, sobre as paredes da capela tenham construído um palheiro que desfigurou, por completo, este exemplar da memória e do património dos Gondarenses.

(1)- P.e António Coelho Pedroza in “Memórias Paroquiais de Gondar”, 1758.


Miguel Moreira

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O CARRO DE BOIS AMARANTINO II


Com caraterísticas únicas, o carro de bois amarantino foi objeto de estudo pelo etnógrafo Armando de Mattos que, em 1940, publicou um excelente trabalho – “O Carro de Bois Amarantino”, da Junta de Província do Douro Litoral, Porto, 1940 – a que já fizemos referência em publicação deste blogue.

Por ser também, durante séculos, o modelo de carro utilizado em Gondar, divulgamos, hoje, um conjunto de fotografias do exímio mestre da fotografia Eduardo Teixeira Pinto que, de forma soberba, soube retratar o quotidiano amarantino, nomeadamente os carros de bois.


Carro de bois amarantino - Eduardo Teixeira Pinto

Sob o olhar dos reis - Eduardo Teixeira Pinto

Velhos Transportes - Eduardo Teixeira Pinto

Eduardo Teixeira Pinto

Bois amarantinos - Eduardo Teixeira Pinto

Logo pela manhã - Eduardo Teixeira Pinto

Carro de bois amarantino - Eduardo Teixeira Pinto

Bois - Eduardo Teixeira Pinto

Carro de bois - Eduardo Teixeira Pinto

Fotografias de Eduardo Teixeira Pinto

Uma pesquisa Miguel Moreira para "Sentir Gondar".

quarta-feira, 3 de julho de 2019


PADRONELO NO "ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL" (1890)


Em Setembro de 1889 iniciava-se a publicação do “Archivo Historico” - Narrativa da fundação das cidades e villas do Reino, seus brazões d’armas, etc, obra que, segundo os seus promotores, seria “útil a todos os cidadãos que desejem avaliar as glórias do payz e apreciar as causas do seu engrandecimento e decadência; que por ella ficam sabendo desde quando existe cada concelho, as tradições que os acompanham, as origens dos nominativos que as distinguem, e outros factos curiosos e interessantes, como batalhas dadas nessas localidades, monumentos, etc.”
Com destaque para Dona Loba Mendes e para a fábrica de Lanifícios Garcia Ribeiro & C.ª, a freguesia de Padronelo mereceu nessa obra um honroso lugar.
É, precisamente, a parte do documento respeitante a Padronelo, publicado em Janeiro de 1890, no n.º 25, 1.ª Série do “Archivo Histórico, que, hoje, vamos transcrever para os nossos leitores:

“Padornêllo” ou “Pedornêllo” – É povoação rica, fertil e bonita, situada nas margens do rio Mendo, e que em grande parte deve a sua prosperidade à excellente fáfrica de lanifícios, ali fundada em 1860, e que hoje é uma das principaes d’este género em Portugal.

Fábrica de Lanificios de Padronelo - Amarante (cerca de 1910 - 1920)

Existe ali uma torre, a qual, segundo consta, foi residencia de D. Loba Mendes, filha de Mem de Gondar, e mulher de Diogo Bravo, de Riba-Minho. Esta senhora era muito rica e carinhosa, e deixou certas rendas e propriedades ao convento de S. Gonçalo de Amarante, com a obrigação de darem os frades em todos os dias do anno esmolas a todos os pobres que se apresentassem à portaria. Este legado cumpriu-se religiosamente até 1834.
Padornêllo era uma pobre aldeia, cujos habitantes apenas viviam da agricultura e de crearem algum gado. 
Fábrica de Lanifícios Garcia Ribeiro & C.ª - Padronelo (cerca de 1860)

Existiam quasi ignorados quando veiu a fundação da fábrica, que principiou a girar sob a firma Garcia Ribeiro & C.ª, conseguindo-se que esta povoação fosse conhecida em todo o reino como uma das principais terras industriaes, em ponto pequeno.
Em 1874, próximo de Padornêllo, cahiu tão enorme porção de chuva que as aguas cavaram a estrada, em alguns sitios, até à profundidade de 20 metros. Foi tão violenta a tempestade, que arrastou para a estrada tão grandes penedos, que, mesmo depois de quebrados a fogo, houve grande difficuldade em remove-los. Suppõe-se ter sido uma tromba marinha que ali foi rebentar.”

In “Archivo Historico de Portugal”. Pág. 101 e 102.
Miguel Moreira

segunda-feira, 1 de julho de 2019


Doutor António Fernandes da Fonseca
médico e professor universitário
1921-2014

António Fernandes da Fonseca, filho de Manuel Ribeiro da Fonseca e de Rosa Fernandes,  nasceu na freguesia de Gondar, concelho de Amarante, a 4 de agosto de 1921.

Casa onde nasceu António Fernandes da Fonseca (Gondar - Amarante)

Frequentou a escola primária de Ovelhinha, onde concluiu a 4ª classe. Continuou os estudos no Colégio de S. Gonçalo, indo, no 7.º ano, estudar para o Liceu Rodrigues de Freitas, no Porto.
Findo o ensino secundário, cursou Medicina, tendo-se licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com a classificação final de 16 valores.
É, entretanto, convidado pela Faculdade de Medicina a ocupar o lugar de Assistente, cargo que aceita com a condição de lhe ser concedida uma bolsa de estudos no estrangeiro. Em 1955 parte para Londres para estagiar nos Serviços de Psiquiatria e Psicologia do Hospital de St. Thomas e de Genética Psiquiátrica do Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres. De regresso a Portugal, é-lhe concedido o grau de Doutor em Medicina, pela Universidade do Porto, tendo ficado a seu cargo a regência da cadeira de Psiquiatria.

Doutor António Fernandes da Fonseca
No decorrer da vida profissional, Fernandes da Fonseca desempenhou vários cargos. Foi Diretor Clínico do Hospital Conde Ferreira, durante 12 anos, e fundou o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de São João; Presidiu à Sociedade Portuguesa de Psiquiatria, da Associação Psiquiátrica de Língua Portuguesa e à Associação Europeia de Psiquiatria Social; foi membro da Real Academia de Medicina de Madrid e "Fellow" da Academia de Medicina e Psiquiatria de Nova Iorque; dirigiu a Revista de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do Porto e foi autor de mais de 200 trabalhos e de cerca de uma dezena de livros sobre temas de Psiquiatria, Psicologia, Sociologia e Saúde Mental, bem como de um tratado de Psiquiatria e Psicopatologia, o único em português.
Jubilado em 1991, passou, então, a desempenhar a função de diretor do Departamento de Pós-Graduações, Mestrados e Doutoramentos da Universidade Fernando Pessoa.
Antes, em 1970, no rescaldo do maio de 68, publicou “A reforma da Universidade”, que lhe valeu uma sanção do regime de então, que o impediu de realizar provas de agregação durante vários anos.
Em 1976, já Professor Catedrático, foi eleito, em lista do Partido Socialista, deputado à Assembleia da República pelo círculo do Porto. Enquanto esteve no Parlamento escreveu “Psiquiatria e Psicopatologia”, a mais significativa das suas publicações científicas, que juntou a, entre outras, "Sintomas iniciais da esquizofrenia" (1958); "A farmacoterapia em psiquiatria" (1961) "Curvas glicémias na esquizofrenia" (1963) ou “Saúde Mental e Humanização” (1995).
Apaixonado pela terra onde nasceu, cujo Município lhe atribuiu a Medalha de Ouro em 1995, Fernandes da Fonseca é também um admirador confesso e estudioso de Teixeira de Pascoaes, sobre quem escreveu “O Encontro com Teixeira de Pascoaes” (2002), incluindo também o poeta da saudade no seu livro “Psicologia da Criatividade: à luz biográfica de quatro génios” (2003). Os outros três são Fernando Pessoa, Sigmund Freud e Ortega y Gasset.
O Professor Doutor António Fernandes da Fonseca faleceu no dia 16 de Dezembro de 2014.

Fontes: https://www.cm-amarante.pt/pt/antonio-fernandes-da-fonseca

e
https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?p_pagina=antigos%20estudantes%20ilustres%20-%20ant%c3%b3nio%20fernandes%20da%20fonseca
Miguel Moreira

quarta-feira, 26 de junho de 2019


GONDAR NA ROTA DOS CAMINHOS DE SANTIAGO


Não passa despercebida a sinalética que, instalada recentemente, colocou Gondar na rota dos caminhos portugueses de Santiago de Compostela.
Numa iniciativa da Câmara Municipal de Amarante, a sinalização deste traçado pretende reanimar um antigo caminho, conhecido por “Caminho Torres”, que tem início em Salamanca e que, depois de entrar em Portugal por Almeida, passa por Amarante e prossegue, por Braga, em direcção a Ponte de Lima, onde entronca no Caminho Central Português de Santiago.

Caminho de Santiago em Larim - Gondar

No troço que atravessa Gondar, o itinerário, depois de entrar na freguesia pelo lugar de Bailadouro, prossegue pela antiga estrada pombalina, atravessando os lugares de Cabana, Real, Ovelhinha e Larim, em direcção a Padronelo e Amarante.

Mapa do Camino Torres
Todavia, este não terá sido o percurso original, já que, à data em que Diego de Torres Villarroel  iniciou este "caminho" (1737), a estrada pombalina ainda não tinha sido construída. A estrada de Amarante para Mesão Frio seguia por Bustelo em direcção a Carneiro e Padrões da Teixeira e, pela Teixeira, chegava a Mesão Frio. Com a abertura da estrada pombalina, o caminho passou a fazer-se por esta estrada que, para além de encurtar o percurso e possuir melhor piso, era servida por algumas estalagens e albergues de apoio a viajantes e peregrinos.
O tramo do Caminho de Santiago em Amarante tem cerca de 28 quilómetros e resulta de um longo processo de investigação e de averiguação dos locais percorridos e frequentados pelos peregrinos ao longo dos tempos. Do percurso merecem destaque alguns locais e monumentos, designadamente a estrada pombalina e a estalagem em Carneiro, a aldeia de Ovelhinha, em Gondar,  a ponte e a igreja de São Gonçalo, com um altar dedicado a S. Tiago, e o Mosteiro de Telões.
Na cidade de Amarante, o traçado está indicado com sinalética vertical e horizontal (no piso) e o percurso é, em alguns troços, distinto para peregrinos que se desloquem a pé e para peregrinos que se desloquem de bicicleta ou a cavalo.

Para saber mais sobre o Caminho Torres consulte:

http://caminosantiago.usal.es/torres/
Miguel Moreira

sexta-feira, 14 de junho de 2019


GONDAR E A II INVASÃO FRANCESA (1809)


Ao completarem-se duzentos e dez anos sobre a vil destruição que as tropas francesas infligiram sobre as populações de Gondar, nomeadamente de Ovelhinha e Real, achei oportuno publicar um excerto da obra “ Viagem Sentimental à Província do Minho”, de Frei Tomás de Santa Teresa, escrita em agosto / setembro de 1809, poucos meses após a ocorrência dos factos.
 
Ruínas da II Invasão Francesa em Ovelhinha - Gondar
“O texto que agora se publica teve a primeira edição em 1809, ou seja, poucos meses após os acontecimentos a que se refere. Eram, por isso, ainda muito frescas as cicatrizes deixadas pela ocupação do exército napoleónico em muitas terras do norte do país. Este relato é o resultado de uma visita que o autor fez a várias localidades onde pôde testemunhar a destruição e o sofrimento espalhados por todo o lado. “ (excerto da Nota Explicativa à reedição fac-similada da obra)

CAPITULO III
Estragos das Povoações de Santa Maria de Gondar, 
Ovelha, Ovelhinha, Gateães, Real e Padornello

“Quando passei pela Freguezia de Santa Maria de Gondar, que chorava ainda a tyranna morte de trinta e cinco dos seus Habitantes, occoreo-me a passagem de Virgilio:
... Luctus, ubique pavor, et plurima mortis imago.
Ovelhinha foi toda reduzida a cinzas. Real foi tratada semelhantemente. Encheria grossos volumes quem pretendesse esmiuçar os damnos causados à População, e à indústria das citadas Freguezias.
Já próximo da Villa de Amarante eu notei que se augmentava descompassadamente o pezo dos meus funestos presentimentos. A certeza dos estragos, que padecêra aquella desditosa, mas fidelissima Povoação, era mais que de sobejo para os inspirar, e entreter. Notei igualmente que a imaginação do que eu em breve presenciaria, me causava maior susto, e pavor, do que todas as desgraças, que até então eu resgistara com os meus propriosn olhos. Não tardou muito que, justificada esta minha aprehensão, eu taxasse de pouca força aquelles mesmos presentimentos, que me parecião tão vivos, e exaggerados. (...)

Vila de Amarante
Paço dos Condes do Redondo - Amarante (à direita na imagem)

Entrando immediatamente no Covello, que he menos hum Arrabalde, do que huma parte daquella Villa... eu vi...oxalá que eu podesse agora contar o que vi, e senti nesta occasião!!! Vi consumida pelo fogo huma rua inteira, que he quasi o total desta Povoação.
Algumas casas, que ficavão para os lados não forão isentas do fogo. A destruição foi geral. Dos seus malfadados Habitantes, huns se occupavão no desentulho das suas casas, outros lhe cobrião os tectos de colmo, outros mais querião ficar expostos à inclemência dos tempos, do que sujeitarem-se ao risco de serem esmagados por aquellas paredes alluidas, e mal seguras; e todos, em fim, cortarião o coração menos sensível, e menos affeito a chorar os males do seu proximo.” (1)

Nota: O texto é uma transcrição fiel do original, sem qualquer adaptação à grafia atual.


(1)- Frei Tomás de Santa Teresa, Viagem Sentimental à Província do Minho em Agosto e Setembro de 1809, edição Fac-similada do Grupo dos Amigos da BMMA, pp. 10, 11 e 12.

quinta-feira, 16 de maio de 2019


MEMÓRIA PAROQUIAL DE CARNEIRO (1758)


Da Memória Paroquial de Carneiro, redigida em 1758 pelo Vigário Paulo Ferreira Vellas, salientamos os parcos recursos da freguesia e a sua diminuta população (cento e cinquenta e sete "pessoas de sacramento"). O número de “vizinhos” dos seus oito lugares, oscila entre os dois (no lugar do Assento) e os doze (no lugar de Vendas). 
Interessante e pormenorizada é a descrição do rio Carneiro que nasce na freguesia e que, por isso, é aqui designado de “piqueno regato”. Tem pouco peixe, "huas escalinhas piquenas e alguas trutas", mas permite alguma agricultura nas suas margens "porque passa por entre caminhos". 
De salientar, também, que era senhor donatário de Carneiro o abade de Vila Chã do Marão.
Vejamos, então, o que nos diz a “memória”, assinada pelo vigário Paulo Ferreira Vellas:

“Fica esta freguezia na Província do Minho, Na Comarca de Villa Rial, he Concelho de Gestaço, Termo de Guimarains.
He senhor donatário onde apresentam o Reverendo Abbade de Villa Cham, o Reverendo Bernardo Pinto Brandam.
Tem so dous vezinhos, estes bem próximos a Casa da Rezidencia. Tem pessoas de sacramento cento e sincoenta e sete.
Nam tem termo seu; tem oito Lugares que bem a ser, o Lugar do Acento que tem dous vezinhos e a Casa da Rezidencia como fica dito, o lugar da Barzia que tem coatro vezinhos, o lugar do Figueiredo que tem cinco vezinhos, o lugar do Cavo que tem três vezinhos, o lugar das Vendas que tem doze vezinhos, o lugar de Albergaria que tem coatro vezinhos, o lugar de Sima de Villa que tem cete vezinhos, o lugar do Outeiro que tem cete vezinhos.
Esta cituada em hum vale entre montes. Nam se descobre della povoados alguns, mais do que montes e giestas. Tera de comprido (…) hua legoa e de largura meia legoa.
Está esta parochia fora dos lugares, no principio da Freguezia so com dous vezinhos.


Igreja Matriz de Carneiro - Amarante

Seu orago he S. Martinho de Carneiro, tem so três Altares, no Altar mor esta S. Martinho de hua parte e da outra S. Sebastiam, em meio delle, o Santissimo Sacramento. Nos colaterais da parte direita esta Nossa Senhora do Rozario e da parte direita, digo da parte esquerda esta a Senhora da Conceiçam e o Santo Nome de Deus. Nam tem naves. Tem hua Confraria ou Irmandade de Nossa Senhora do Rozario.


Cruzeiro de Carneiro
O Parocho he Vigário ad Natum. Tem de rendimento certo dez mil reys em dinheiro, dous alqueires de trigo, duas libras de cera, dous almudes de vinho; o que tudo junto com o pé de altar poderá render, hum ano por outro, sincoenta mil reys. Rende a dizimaria para o abade duzentos mil reys.
Os frutos que a terra produz com mais abundância he milho maiz ou milham, outro nome centeio, algum vinho pouco.
Serve-se do correyo da villa de Amarante, parte na quinta feira, recolhe-se no domingo.
Dista desta freguesia a cidade de Braga dez legoas e dista a capital do Reyno cecenta legoas.
Passa por esta freguesia hu piqueno regato que tem o seu nascimento junto os Padroes da Teixeira que dista daqui meia legoa. Nasce logo caudelozo  carregado com suas correntes por ter o seu nascimento em hu alto; corre do nascente ao puente.Todo o anno corre, porem de bram com pouca abundancia de agoa.
Desde esta freguesia para sima não hay peixes de calidade algua, para baixo hay huas  escalinhas piquenas e alguas trutas. As pescarias nelle sam livres para quem quer pescar.
Cultivam-se as suas margens costeiras porque passa por entre camiños.
Pelas suas beiras ou arredores tem salgueiros, amieiros, com partes de silvas e carvallos.
Em distancia de hua legoa se vai meter em hu rio que chamam o rio de Gondar, e entra nelle a ponte de Larim.
Tem hua so ponte de pedra tosca sem guardas, a que chamam a ponte de Riba Carneiro.
Tem oito muinhos nos lemites desta freguesia.
Libremente uzam os frutos das suas agoas para o cultivo dos seus campos.
As poboações por onde passa he por esta freguesia, pella de Bustelo, e pella de Gondar.”
(…).
O Vigário Paulo Ferreira Vellas

Um trabalho de Miguel Moreira 

quarta-feira, 8 de maio de 2019


Pintura Mural na Igreja do Mosteiro

de Santa Maria de Gondar


Foi Armando de Mattos quem pela primeira vez divulgou as pinturas de Gondar, apesar do avançado estado de ruína em que o edifício se encontrava já. Corria o ano de 1953 e este autor publicou uma série de fotografias realizadas alguns anos antes dessa data. 

Pintura Mural - Igreja Românica de Santa Maria de Gondar

"Durante muito tempo sujeitas às intempéries, delas nada mais sobreviveu até hoje além da pintura do intradorso do nicho da parede fundeira da abside. Foram aqui identificadas duas campanhas distintas, ambas bastante tardias. A segunda, a seco, foi executada diretamente sobre a primeira sem a presença de qualquer reboco. Segundo os técnicos da empresa Mural da História, a primeira camada corresponde a uma campanha barroca, conforme denunciam os enrolamentos e os motivos vegetalistas com grandes flores. A segunda camada, com uma linguagem mais simples, mostra almofadas envoltas por triplo risco, técnica usada para criar volume. No entanto, em 1953, Armando de Mattos ainda pôde identificar quatro pinturas. Na parede fundeira da capela-mor, ao lado do altar, do lado do Evangelho, São Lucas (a); na parede testeira da nave este autor identificou São Cristóvão, “figura gigantesca”, como convinha, e de elevada qualidade plástica (b), do lado da Epístola; um santo bispo, enquadrado por moldura, “rematada ao alto por vistoso frontão nitidamente renascentista, em cujo tímpano se vê, igualmente pintada, uma desconhecida madona” (c); e, por fim, Santo Antão, acompanhado por legenda que o identifica e cujo valor epigráfico permitiu a Armando de Mattos datar esta pintura de finais do século XV ou de inícios do século XVI (d). Além disso, conseguiu ainda este autor reconhecer alguns vestígios de pintura noutros pontos da nave, em camadas sobrepostas, pelo que considera que estas deveriam ocupar a totalidade das suas paredes (Mattos, 1953). Estas pinturas terão sido concebidas ao longo do século XVI (e)." (1)

 Em 1979, António Cardoso aludiu aos frescos que ainda eram visíveis na capela-mor, do lado do Evangelho. Tratava-se de uma imagem de São João Evangelista, de desenho firme, em tons escuros. Numa filactera a legenda João Evangelista. Molduras e zonas ladrilhadas, com cores comidas pelo tempo, eram ainda visíveis. (2)

Igreja Românica de Gondar - Pintura Mural

"Atualmente, apenas se conserva pintura mural no arcossólio que enquadrava o altar-mor. No intradorso do arco foram realizadas duas campanhas de pintura. Uma com folhas de acanto enroladas e grinaldas de flores, dois motivos característicos, respetivamente, da talha de “estilo nacional” (c. 1690-1725) e da de estilo joanino (c. 1725-1750). Como, aqui, estes motivos aparecem conjugados, podem indicar uma obra de transição do gosto ao modo do “estilo nacional” para o gosto joanino, ou seja, é possível que esta pintura tenha sido realizada algum tempo depois de 1725. A intervenção sobreposta é mais tardia e parece ter o objetivo de criar molduras, cujas formas sugerem a influência de um gosto rococó (gosto que se afirma entre nós depois do início do reinado de D. José I, em 1750), estimando formas finas (e não volumosas, como as de André Soares, que tanta influência tiveram no Minho, e que podemos apreciar na parede que envolve o arco triunfal da sacristia do Mosteiro do Salvador de Travanca, também no concelho de Amarante)." (3)

(1) – Lúcia Rosas e outros, “Rota do Românico”, 2014, pág. 299-316.
(2) – António Cardoso, “ A Igreja Românica de Gondar”, Câmara Municipal de Amarante, 1979, pág. 15.
(3) - Paula Bessa, “Pintura Mural na Rota do Românico”, edição Rota do Românico, 1.ª edição, 2012, pág. 21.

Notas:

(a) Segundo o autor, esta composição dataria do século XVI. Pelo facto de surgir representado com a cabeça de perfil e com auréola, Armando de Mattos (1953: 25) liga esta obra à oficina de Outeiro Seco (Chaves).
(b) A ausência do Menino pode, talvez , ser explicada por ter desaparecido parte da pintura (Mattos, 1953: 25).
(c) A figura, representando um santo bispo de uma qualquer ordem, surge mitrada e a segurar nas mãos um báculo e um livro. Poderá ser uma representação de São Bento ou de São Gonçalo ou, ainda, de Santo Agostinho (Mattos, 1953: 25).
(d) Além do caráter ingénuo do desenho, o autor valoriza o “interesse etnográfico” desta representação de Santo Antão por ser aqui “portador do símbolo da sua atitude de “advogado do vivo”. Como diz o povo, constituído por uma coleira com seu chocalho, que lhe pende do braço esquerdo” (Mattos, 1953: 26).
(e) Tendo em conta a má qualidade das fotografias editadas por Armando de Mattos e o facto de, para cúmulo, deixarem perceber a possibilidade de ter existido uma sobreposição de camadas, Luís Urbano Afonso (2009: 365-366) considera ser complicado proceder à filiação das pinturas destruídas dentro da produção de uma das oficinas que laborou na região, pelo que, na impossibilidade de dá-las a conhecer através da imagem, também nós optamos por lhes fazer apenas uma breve referência, isenta de qualquer desenvolvimento mais profundo.