terça-feira, 8 de setembro de 2015

OVELHINHA NA OBRA DE CAMILO CASTELO BRANCO

São vários os autores que se referem a Gondar nas suas obras literárias.
Escolhi, para iniciar este tema, a obra de Camilo Castelo Branco “Vinte Horas de Liteira”.

Ovelhinha (Gondar - Amarante)

“… Há poucos anos que eu jornadeava de Vila Real para o Porto, e cheguei, quebrado de corpo e alma, a uma póvoa escondida nos fraguedos do Marão, chamada Ovelhinha. O rocim, que ali me trouxera, ganhara pulmoeira na subida da serra, de maneira que, na assomada onde chamam as “rodas”, os bofes arquejavam-lhe com tal ímpeto, e encavernada tosse, que não há aí coisa triste que mais diga!
Quando descavalguei, na Ovelhinha, devolvi o garrano ao proprietário, e procurei quem me alugasse cavalgadura, menos poitrinária, até Amarante. Voltando à estalagem, achei uma liteira parada, que chegara naquele ponto. Perguntei ao liteireiro se ia de retorno. Respondeu-me que levava patrão. Contemplei a liteira com mágoa e inveja, principalmente quando a eguazinha galega, que eu ajustara, começou a espirrar uma tosse mais que muito significativa de pulmoeira e mormo real.
Nesta cogitação me surpreendeu o inquilino da invejada locomotiva. Ó raio de luz!... ó bafagem de esperança que me vens perfumada do paraíso terreal!...
Era o meu amigo António Joaquim!
- Tu aqui? Exclamou ele da janela da estalagem.
- Eu aqui… e tu?!
- Eu também aqui neste orco, neste vestíbulo do inferno! Para onde vais?
- Para o Porto, se me levarem.
- Quem te leva?
- Esta pulmoeira de quatro pés.
- Tem juízo homem! Deixa às feras do Marão a burra, e senta-te aí dentro nessa liteira.
Bebemos na estalagem uma água quente oleosa por fartas malgas, que tinham no fundo pintados uns galos, que pareciam escorpiões. Engolimos uns pedaços de galinha, que zombavam do mecanismo da trituração, e entramos na liteira.
Eram dez da manhã.
Aqui principiam as vinte horas".

Camilo Castelo Branco, “Vinte Horas de Liteira”, Ulmeiro Edições, Lisboa, 1997, pp. 28-31.

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